No Mundo gramadogonewild_dentro

Publicado em agosto 1st, 2011 | por Jerônimo Rubim

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GRAMADO GONE WILD

– Nome? – pergunta o motorista do ônibus.

– Ágata.

– Teu pai acertou no nome, és a gata mesmo.

Também o motorista da excursão parece ter captado, já na saída de Florianópolis, o espírito do lendário Simpósio Nacional de Direito de Gramado.

Reza a lenda que, há alguns anos, meninas no banco de trás de um carro abaixaram os vidros e levantaram as blusas. Em pleno frio e centro da cidade. Girls gone wild. Gramado gone wild. Mas você conta essa história para os que já foram ao simpósio e eles acham pouco.

“O evento mais esperado pelos estudantes e profissionais da área de Direito!”, anuncia o site do Instituto de Ciências Jurídicas de Gramado. Verdade. Mas é também o evento mais esperado por centenas de estudantes de outros cursos. Todos sonham com o simpósio e suas virtudes: álcool, esquentas barulhentos em hotéis, pegação nos quartos, poucas horas de sono ao longo do final de semana. Se há público para as palestras, há mais ainda do lado de fora – o saguão do evento é um dos pontos de encontro no meio da tarde.

Open busão

Não se sabe como tudo começou, mas o evento no final de maio já foi decretado feriado esporrento no calendário de party animals ilhéus há anos. Chega o mês das noivas e os alunos do curso de Direito da UFSC se alvoroçam pensando na serra gaúcha e suas promessas.

“É um carnaval no frio”, emociona-se Diogo Figueiredo, 23, fundador da excursão Pinguim, que já funcionou quatro vezes desde 2006. Ele é um dos engajados em garantir que a tradição etílico-excursionista nunca pare. Esse ano, já formado, cedeu às pressões (diz ele) e organizou a ida de 65 cabeças a Gramado. R$ 300 garantiam aos festeiros transporte, estada em hotel três estrelas e um open busão – Absolut, energético, refri e suco liberados durante a viagem.

Na outra excursão que saiu do campus da Federal e tinha o sugestivo nome Desce Mais, o mesmo esquema. O estudante de Direito Mário Kobus e colegas levaram 86 pessoas em dois ônibus. O estoque de 12 garrafas de Absolut, 12 energéticos de 2 litros, 516 latas de Bohemia e seis Jose Cuervo durou até o primeiro esquenta em solo gaúcho.

Contando com as inevitáveis garrafas seguintes, é de se entender que alguns hotéis não aceitem esse público. Outros fecham para hospedar apenas as excursões que usam o simpósio como desculpa. Restaurantes, baladas e lojas recebem de braços abertos a invasão barriga verde. Com manezinhos e os turistas de sempre, Gramado fica abarrotada. Os 11.500 leitos da cidade são ocupados no final de semana do Simpósio.

“Os donos aumentaram o valor da estadia para cobrir custos de troca de gesso, carpetes, essas coisinhas”, diz Júlio Kraemer, gerente de hospedagem do Hotel Estrelas da Serra, que ficou lotado com excursionistas.

O esquentas nos hotéis são famosos, assim como a manguaçada pós-balada dos hóspedes. As traquinagens vão de futebol no corredor com um globo espelhado a uma apresentação não-autorizada de banda de pagode, como uma patrocinada por Diogo há dois anos.“Não é exatamente que seja ruim, mas é bem diferente de ter só casais e senhores, como temos normalmente. Estamos acostumados a um ritmo mais calmo, de repente chegam 300 e poucos adolescentes…”, conta Júlio.

Na verdade, a maior parte do pessoal é bem crescidinha e já está nas últimas fases da faculdade. Ou já se formou há anos. Um veterano que prefere não se identificar (“fui escondido”) participa da zorra desde 99. “Vou pela festa”, economiza.

Com tanta gente indo pela festa, realmente sobra pouco tempo para palestras. “Parece que duas meninas foram no evento”, chuta Mário. Contatada pela Naipe, uma delas diz que não foi – a outra não foi encontrada. Nenhum outro entrevistado sabe de alguém que tenha trocado o risco de um bom coma alcoólico pelos saberes jurídicos.

El Divino

Depois de passar horas bebendo na Rua Coberta e esquentar no hotel, o destino inevitável de todos é o Bill Bar – balada com três ambientes disparando pagode/sertanejo, rock, pop, funk, e que em junho teve como atração um show de Vinny, aquele loiro dos anos 90. Ou seja, centenas de pessoas saem da ilha para se encontrar no Bill Bar de Gramado. “É Floripa em peso mesmo, parece o El Divino. Mas sem parecer o El Divino”, sorri Diogo.

Patricinhas melindradas têm que descer do salto ou acabam isoladas. Este ano, quatro deusas platinadas da Medicina da Unisul acharam que podiam valorizar tanto seu passe na viagem quanto em uma night da ilha. Foram esquecidas por um bom tempo no fundo do ônibus, até que resolveram se enturmar. Ficaram tão à vontade que uma delas até tascou beijos em um sortudo. “Ela se afeiçoou com as cantadas que ele dava imitando o Mr. Catra”, explica Diogo.

E mais ele não diz. What happens in Gramado stays in Gramado.

Esta matéria é da Naipe 6. Clique aqui para ler a revista completa em sua versão online.

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Sobre o Autor

Ex-editor da Naipe, morou cinco anos pelo mundo. É jornalista por DNA e, em breve, por formação.



3 Responses to GRAMADO GONE WILD

  1. Anderson says:

    Engraçado que as pessoas precisam de motivos para fazerem o que lhe der na telha. O congresso é só uma desculpa para a farra. E quem precisa delas?
    Alguém lembra das palestras do congresso?(SIC).

  2. jose garibaldi says:

    à poucos meses teve um congresso aqui em laguna ,centenas de jovens ,o tal acontecimento seria muito legal se não fosse o consumo abusivo de bebidas e alcool ,lamentável !

  3. Rodrigo says:

    Me lembro do meu primeiro, em 1999. Estava fazendo Direito na UNIVALI e vi o cartaz na parede, fomos em 4 camaradas e uma garota, no quarto ao lado ainda haviam ficado mais 3 garotas de Porto Alegre. Foi disparado, já naquela época o melhor de todos, Bill Bar, Hotel, tomar café da manhã só de cueca e pantufa, acordar já alucinado depois de uma noitada forte, corrida do pelado no corredor do hotel. Cara impossível esquecer até quando morrer. Frio pacas, mas o povo nem aí. GRAMADO RULES!!! Quem não foi ainda, só lamento! Minhas fotos que o digam, tipo se beber não case! GRAMAAAADOOOOOOOOOOO!!!

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