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Publicado em outubro 3rd, 2013 | por Danilo Calegari

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LAMPEDUSA

O sino toca quatro vezes.

Os sinos possuem uma frequência baixa que você não consegue ouvir durante a madrugada, a não ser que esteja acordado.

Vai amanhecer e, até lá, vou ficar pensando. É o primeiro dia da semana. Meu projeto não foi aprovado. Tenho a semana inteira, sem financiamento. Estou em Lampedusa.

Lampedusa tem 20 km², possui 6 mil habitantes e está localizada bem ao sul da Itália. Na verdade, ela está mais próxima do litoral da Tunísia (113 km) do que da Sicília (130 km), província insular italiana à qual Lampedusa pertence. Em 2013, visitantes de um famoso site de viagens escolheram uma das praias de Lampedusa, a Praia dos Coelhos, como a mais bonita do mundo.

São 12 km de comprimento e 3 km de largura. Posso percorrer essas distâncias em um dia; a pé, de bike, de scooter ou até de barco. É isso que vou fazer durante a semana. Em setembro, a temperatura fica em torno dos 35ºC. Espero encontrar oliveiras para descansar sob suas sombras.

Desde sempre, acho que a filosofia só pode ter nascido em torno ao Mediterrâneo porque os gregos se reuniam sob a sombra da oliveira. Foi ela, e não as Ágoras, que deram a possibilidade aos atenienses de se reunir, pensar e discutir.

Muitas vezes, quando um homem reflete, pensa e pensa, descobre que ele também já se sentiu mulher. Não por questões de diversidade de gênero. Mais por uma afinidade de princípios e causas primeiras. Metafísica. Durante nove meses, todo homem já esteve no interior de uma mulher.

Lampedusa é a ilha do amor e, além disso, é uma mãe de braços abertos. Acolhe seus filhos e os filhos de outros lugares. Em 2011, além dos 6 mil habitantes, o local recebeu 7 mil refugiados. Em 2012, 8 mil. Até setembro de 2013, foram outros 6 mil.

Ela será candidata ao próximo Nobel da Paz. Pelo acolhimento e pelo amor, para rejeitar a globalização da indiferença, viva Lampedusa

Enquanto escrevo, um bote cheio de africanos – magrebinos ou subsaarianos – está atravessando as águas transparentes do Mediterrâneo. Eles procuram Lampedusa no horizonte. Eles também se veem perplexos nas águas do mar, pois sabem que podem tocá-lo, senti-lo, dormir dentro dele.

Eu já conheço todas estas histórias, mas mesmo assim vou me sentar no café da praça. Vou perguntar a um daqueles senhores que observam, o dia todo, o movimento alheio dos estrangeiros.

Pasquale, pele morena e rosto com micro dobras infinitas por causa do sol, me dirá que nos últimos dez anos, quase sempre, a maré de Lampedusa não é tão clara como a água da Praia dos Coelhos. Os filhos chegam acompanhados pela Guarda Costeira italiana. Aqueles que não conseguem chegar, obviamente, não são vistos. Estão dormindo dentro do mar.

O mais interessante de toda essa história é que Lampedusa sempre foi a ilha do amor. Lugarzinho paradisíaco em que muçulmanos – que a dominaram por alguns séculos – e cristãos viviam juntos. A ilha era a zona franca onde os mais temidos piratas do Mediterrâneo atracavam e, mesmo que inimigos, bebiam e conversavam. Era um local de passagem obrigatória e de respeito mútuo.

Parece que muita coisa mudou para pior.

Lampedusa merece algo de bom e não só o menosprezo de quem assiste o reality show da chegada dos imigrantes ilegais. A Itália já foi chamada em causa. A União Europeia também. O papa Francisco, no dia 8 de julho, antes de vir ao Brasil, passou por Lampedusa. Foi a primeira viagem apostólica de seu pontificado.

Lampedusa será, provavelmente, candidata ao próximo Nobel da Paz. Pelo acolhimento e pelo amor, para rejeitar a globalização da indiferença, viva Lampedusa.

Mesmo assim, enquanto escrevo e ouço os sinos (6 badaladas), africanos morrem no Mediterrâneo. Longe da sombra de uma oliveira.

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Sobre o Autor

Mora em Trento, Itália, onde trabalha como art coacher e colhedor de uvas entre agosto e setembro. Mudaria tudo se na próxima vida nascesse surfista e pescador no Farol de Santa Marta, em Laguna.



2 Responses to LAMPEDUSA

  1. Apolonia silva calegari says:

    Adorei o texto ,muito bom .deu vontade de conhecer Lampedusa.

  2. Daiane da Luz says:

    Belo texto.

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