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Publicado em novembro 16th, 2010 | por Revista Naipe

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O AMOR NOS TEMPOS DA BOLHA

[Fotos de Bruno Ropelato]

Competitivas e narcisistas, diz a blogueira. Mais exigentes, avalia a administradora. Histéricos, escreve o psicanalista. Eu zero reclamo, garante a universitária.

Opiniões variam o tempo todo mas uma constatação se repete: os mergulhos nos relacionamentos são cada vez mais de superfície; competitivos, narcisistas, exigentes e histéricos ou não, estamos mais preocupados em testar nossa desejabilidade do que nossa habilidade de manter e melhorar namoros.

E no que as opiniões variam? Primeiro, quanto aos porquês de os relacionamentos estarem assim, como fica evidente nas adjetivações. Depois, se o fato de os relacionamentos estarem assim é necessariamente um problema.

Para a blogueira Janaina Cavalli, não muito. Para a universitária Lara Morais, nem um pouco.

Blogueira da Naipe, Janaina, 24 anos, namorou no máximo por 8 meses. Ela vê as novas gerações como competitivas e narcisistas por mais começarmos que prolongarmos namoros – mas gosta dessas conquistas em série. “O legal é conquistar alguém, sentir que a pessoa te acha bonita e inteligente. A segurança que vem depois mata [a relação]”, diz, sem querer reverberando um parágrafo do escritor francês Stendhal no século 19: “Ela o abandona porque está segura demais de você. Você matou o temor, e as pequenas dúvidas do amor feliz já não podem nascer.”

Ao ouvir Lara, 20, citando repetidamente o nome de dois homens em um happy hour, a Naipe quis saber se ela os criticava. Não. “Eu zero reclamo. Os homens são todos fofos, quero todos”, sorri. Entre outros, hoje ela sai com dois que são amigos entre si. Mais romântico, um a prepara macarrão ao molho branco com brócolis enquanto a obriga a escutar a cantora Céu; menos romântico, o outro é mais parecido com ela. Sua vontade, no entanto, não é namorar nenhum, mas seguir distribuindo as fichas pela mesa. “Todo mundo me agrada, tem uma qualidade”. Seu único namoro até hoje, “serião”, durou 8 meses.

Final broxante

A psicóloga Valéria Herzberg observa que as pessoas estão sim moldando novas formas de se relacionar, mas pontua que não deixou de haver “uma parte da juventude que segue desde cedo por uma trilha mais tradicional” e que “as coisas vão mudando mais caoticamente, sem ordem pré-estabelecida”.

É um sábio lembrete de que as formas de se relacionar se reconfiguram para muitas pessoas e aos poucos, mas não para todas nem repentinamente. Se muitas relações estão mais descartáveis, afirma Valéria, isso se deve ao prolongamento da vida e à consequente expansão de todas suas fases – inclusive a que antecede compromissos mais duradouros.

Antigamente a economia estimulava a união precoce; hoje, estimula a solteirice espichada. Temos mais tempo sob o conforto da casa dos pais e mais possibilidades de festar, viajar, experimentar. “Há mais assédio consumista, não só no sentido pejorativo”, resume Valéria.

“Toda vez que eu revejo Uma Linda Mulher eu choro”, conta Janaina Cavalli. “E broxo de ver o final feliz”. Agora quem ela reverbera é o psicanalista e colunista da Folha de S.Paulo Contardo Calligaris, que há nove anos escreveu que nos longas-metragens de Hollywood, “quando um casal consegue se juntar, a história acaba. Em suma, o que é idealizado nunca é o convívio, mas a perda, a saudade, o luto ou, no máximo, a procura”.

Calligaris, talvez o psicanalista mais respeitado do país hoje, é o responsável pelo “histéricos” na abertura deste texto e também o inspirador desta matéria. Em entrevistas mídia afora ou textos recentes na Folha, suas avaliações dos relacionamentos não prenunciam o apocalipse, mas indicam a tendência ao desapego. Para ele, “as pessoas estão tão preocupadas em preservar suas liberdades individuais que acabam por preservar a sua solidão”.

Outro porém de cair no rodízio rápido do Ataliba: “Se você inventa um sistema de relações que na verdade é um sistema de não-relações, se priva do que há de melhor na vida.”

Sedução e correria

No mesmo happy hour de Lara “zero reclamo” Morais, o universitário José Valério Júnior, 19 anos, sabe que não é apenas questão de querer, mas prefere só namorar de novo aos 25 anos. Terminou o último namoro porque estava “maluco de vontade de trair”, e na sua louvável sinceridade “por mais que dê resultado é mau mentir”.

O porém da vida de solteiro? Ficar doente e não ter ninguém que nos visite. De resto, só alegria. Namorar nos impede de conhecer outras pessoas e até mesmo de nos tornarmos mais sociáveis, opina.

Com essa cotação, os namoros não convencem mais. Quem propõe bafos matinais, programas caseiros, fidelidade e repetições parece estar de sacanagem.

E às vezes está. Muitos namoros são um blefe de compromisso com óbvias conveniências: ser valorizado por outras pessoas e ter alguém fixo a quem recorrer diante de preguiças de sair à noite ou qualquer coisa parecida com carência. Muitos logo mergulham na próxima relação em vez de gastarem um tempo refletindo sobre o que houve de errado na última.

E isso nos leva à histeria.

Grosso modo o histérico, segundo a psicanálise, é alguém que seduz mas depois sai correndo, não quer nada, já que busca alguém mais idealizado e os relacionamentos o assustam. Homens e mulheres, todos reconhecemos o caso que chegou ao consultório de Contardo Calligaris: um sujeito atormentado pela dúvida do que uma menina sentia por ele. Diante da confirmação de que ela o queria houve um desapego súbito, ciclo que se repetiu com outras meninas ao longo dos anos.

Na conclusão de Calligaris, em coluna na Folha: “Procuramos e testamos ansiosamente o desejo dos outros por nós, mas sem lhes dar uma chance de pegar (e prender) nossa mão. Esse é o roteiro padrão de nosso mal-estar amoroso. Para quem gosta de diagnóstico, é um roteiro que tem mais a ver com uma histeria sofrida do que com o hedonismo.”

Monogamia serial

A impaciência com os outros é um sintoma óbvio dos relacionamentos atuais. O individualismo endurece, a vida fora do compromisso soa mais promissora, zerar problemas de um namoro começando outro parece tentador. Isso nos estimula menos a lapidarmos a rotina com alguém. Fala-se sempre na coragem de deixar um relacionamento, não na de salvá-lo.

Para o bem ou para o mal, as gerações mais novas estão mais desprendidas. Mesmo quando as relações fogem da superfície, se aprofundam, não carregam o peso de ter que se eternizarem. A experiência já chegou há tempo no Brasil, mas o seu nome só aterrissou recentemente: os sucessivos relacionamentos de anos são chamados de “monogamia serial”.

“Acho mais sincero”, diz a blogueira Janaina Cavalli. “É uma solução feliz. Não estamos sendo tão subversivos para rejeitar totalmente a ideia de relações monogâmicas, mas também não estamos dispostos a manter relações enganosas por toda a vida”, avalia Allie Firestone, colunista de um site de relacionamentos americano.

A estudante de Administração da Unisul Thaís Vieira, 25, já bagunçou muito mas também já namorou 9 anos – dois namoros de quatro e outro de um ano.

Quase não houve intervalo. Não foi uma escolha sua, apenas aconteceu – e foi positivo. “É melhor que nos tempos dos nossos pais. Cada relacionamento é completamente diferente, você experimenta diferentes pessoas e se descobre”, anima-se, depois ponderando: “Mas as pessoas passam a gostar demais de experimentar e não se apegam.”

Que o diga sua amiga Lara: “Pego mesmo e não me apego”. Que o diga o recém-solteiro José Valério: “O ideal é uma parada mais casual, mais colorida”. Longe de serem declarações exclusivas de 20 e 19 anos de idade, com a espichada de cada fase da vida elas podem ser ouvidas em qualquer happy hour, não só nos universitários.

A maldição é o “mais exigentes”, dito por três entrevistadas. Após muitos anos beliscando o que passa nos espetos ficamos mais chatos, mais fechados nas nossas bolhas, menos aptos com a humanidade alheia, menos habilidosos em fundir nosso cotidiano ao de alguém. Depois de tanto adiar o relacionamento em que nos empenharemos pra valer, descobrimos que só as boas intenções não bastam. E dá-lhe galetos.

A Naipe recomenda 

O amor nos tempos do cólera, de Gabriel Garcia Márquez, Ed. Record, 429 p., R$ 52,90; Do amor, de Stendhal; L&PM, 328 p., R$ 18; A mulher do próximo, de Gay Talese; Companhia das Letras, 484 p., r$ 74; História da vida privada (pelos capítulos ligados a relacionamentos), em cinco volumes, Companhia de Bolso, R$ 37,90 cada.

Esta matéria foi publicada originalmente na Naipe 4. Clique aqui para ler a revista.

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3 Responses to O AMOR NOS TEMPOS DA BOLHA

  1. Ale says:

    O texto é bom…reflete o que de fato está acontecendo nos dias atuais…nenhum problema nisso, o mundo muda e, portanto, as relações mudam. O que me assusta é o que o hans antecipou no post dele: “mercadoria”…será que a geração atual está se tornando uma “mercadoria”? Será que a necessidade de passar por um desejômetro está transformando as relações em mercadoria? Ok, tudo pode ser mercantilizado hoje, a tecnologia está aí, a informação circula muito rapidamente… mas mercantilizar algo tão “virtual” como as relações parece-me bastante assustador…espero que a “conta” não venha alta para quem opte por este estilo de “relações”……. (obs: meu comentário é reflexão e não acusação).

  2. Hans says:

    Talvez uma nova forma de se relacionar que englobe tanto entrega quanto liberdade venha surgir para se adequar as nossas demandas por compatilhar momentos e projetos, fazer sexo e ser desejado.

  3. Hans says:

    Parabéns pelo texto. Saí de um relacionamento faz alguns meses e (acho) que estou começando outro. A impaciência, o desinteresse por investir em uma relação mais longa, a necessidade de passar por um desejômetro, são coisas que me assombraram. A feição de mercadoria que parecemos encarnar a patir dessas demandas, o mimetismo com as formas da economia (se vender a partir de atributos, a competição), é algo a se refletir a respeito.

    Ao mesmo tempo, não sei se devemos ser tão nostálgicos com o modo de se relacionar das gerações anteriores, já que nossa experiência vivida vem se distanciando bastante da do passado e é fácil acharmos exemplos de relações longas que resultaram em frustração, tempo perdido, divórcio. É basicamente essa a experiência dos nossos pais e o exemplo que herdamos. Não sentir obrigação em se casar ou de ter uma relação séria tem seu lado positivo.

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