No Mundo nessa3

Publicado em agosto 7th, 2010 | por Thiago Momm

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ODISSEIA VIRTUAL

[Fotos: Gabriel Rinaldi]

Alarmistas, os americanos já vieram com testes, livros, 12 passos, associações.

Um pouco mais tranquilos, nós brasileiros aos poucos tiramos a mão do mouse para refletir: uma editora menor traduz um best-seller, revistas publicam algumas coisas, esposas pedem ajuda, religiosos prometem cura.

Fora iniciativas assim, o país ainda não atingiu a preocupação dos EUA com a pornografia virtual. No Brasil, 61% das pessoas de 18 a 24 anos acessaram conteúdo pornográfico em abril. O total de internautas brasileiros que visita sites pornôs é 10,2 milhões, contra 2,3 milhões em 2003. Nesses sete anos, o tempo médio mensal de navegação de pornografia aumentou de 19 para 55 minutos.

Impressionem ou soem vagos, esses números não são tão importantes quanto um zoom na vida dos usuários. Um músico americano de 28 anos saliva que “antes não era possível contemplar todos os formatos de seios na vida real enquanto se vivesse”, mas que agora, “graças à [série] Girls Gone Wild, é”. Os internautas entrevistados pela Naipe não consideram 2h diárias de navegação pornográfica um excesso e creditam a elas quase tudo que sabem sexualmente. Uma menina se diverte conhecendo vários pênis por dia na webcam sem ligar a sua para provar que é mulher.

Se o filme pornô tinha começo e fim, o conteúdo online só tem começo, oferecendo a partir daí o que um usuário chama de “odisseia, exploração perpétua” – uma empolgação, ou quase obrigação, de catalogar mentalmente o máximo de imagens sexuais. Difícil, já que os 400 filmes anuais regulares de Hollywood perdem de longe para os 11 mil filmes pornôs oficialmente feitos por ano nos EUA. Para não falar que a essa vasta quitanda juntam-se milhões de vídeos amadores e claro, bilhões de fotos. Por isso o entrevistado de 16 anos sabe o que é bukkake (ejaculação grupal no rosto), e a entrevistada de 24 espiou uma mulher transando com um cachorro para “confirmar que não gostava”.

A pornografia virtual dilata os limites do que achamos erótico. As 951115 fotos de nus femininos (até 15 de julho de 2011) do site erótico Met Art, referência no gênero, muitas vezes são insuficientes. “Graças à internet as pessoas estão sendo estimuladas de maneiras que não tem nada a ver com a cultura ou as suas experiências anteriores. Nossas crenças sexuais parecem muito mais fluidas do que originalmente pensamos”, avaliam os autores de Na sombra da internet – livrando-se do comportamento sexual compulsivo online, publicado nos EUA e ainda indisponível no Brasil.

Para eles, por séculos a humanidade olhou para o sexo através de uma lente de aumento focada em um pequeno leque de atividades e ideias, e hoje a internet – alcançável, acessível, anônima – oferece “uma lente grande-angular com vista para toda a paisagem sexual”.

“Gostamos de dizer que uma das melhores coisas da internet é poder encontrar pessoas com interesses similares aos seus. Ao mesmo tempo, uma das piores coisas da internet é que você pode encontrar pessoas com interesses similares aos seus”, dizem, sobre o estímulo a bizarrices na rede.

Burros e caretas

“Sempre achei o mundo da internet algo fora da realidade”, diz Aline*, a menina de 24 anos que se arrependeu do vídeo de zoofilia visto. Um dia, ela descobriu se excitar com gays transando. “Mas não tenho curiosidade de por em prática. Nunca usei a internet como base de nada”, afirma. Ela considera positiva sua relação com o conteúdo sexual online – fez 9 de 25 pontos em um teste de vício em pornografia virtual (sexhelp.com/isst.cfm), quase caindo no grupo mais light de usuários, de 1 a 8 pontos. Aline quase não vê vídeos pornôs com os namorados. Acessa-os com mais frequência quando está solteira e com vida sexual “sem muita emoção”. E se a pornografia virtual não existisse, teria perdido alguma coisa? “Acho que não. Eu faria outra coisa… não tão perdida”.

Após anos lidando com usuários viciados, a psicóloga norte-americana Judith Coché concluiu: “Estamos às voltas com uma epidemia”. O psiquiatra argentino radicado em Florianópolis Oscar Reymond discorda afirmando que os “burros e caretas” dramatizam a questão da pornografia virtual. Ele até admite em parte o impacto da fartura sexual da internet, mas diz ser melhor falar no uso que cada um faz desse conteúdo separadamente para
não cair “em moralismos ridículos”.

O que Reymond concede: estamos mais isolados, menos pacientes para esperar pelos acontecimentos reais (“O mercado não te deixa esperar”) e para lidar com pessoas de verdade (“Com as imagens é mais fácil, elas não perguntam ‘você me ama?’”).

O que ele discorda: não se pode subjetivar máquinas, atribuir a elas uma culpa que é nossa – em vez do conteúdo pornô, é preciso focar nos problemas de sexualidade do usuário; além disso, é muito cedo para se falar em mudança significativa de comportamento das novas gerações, iniciadas na pornografia pelo mundo online. “A facilidade de acesso não criou novas condições subjetivas”, avalia.

Rodrigo*, 27, é um usuário moderado (6 pontos no teste) e otimista de pornografia virtual. Nunca teve comportamento compulsivo – acessa meia hora, duas ou três vezes por semana – e não deu mais que umas espiadas arrependidas nos subterrâneos pornôs. Usou suas navegações mais para aprender as técnicas de uma boa cunilíngua. “Só vejo o que me vejo fazendo [na prática]”, diz. “Nada de enforcamento, tapas”. O que o segura online, às vezes, é encontrar links das suas atrizes favoritas – que não incluem a ninfeta revelação Sasha Grey, 19 anos, “muito hardcore”.

Pornificados

Sete a cada dez americanos de 18 a 24 anos já viram mais pornografia na internet que em outros meios. A idade média de iniciação na pornografia virtual no país é 11 anos, e 11 milhões dos que a consomem têm menos de 18. É fácil perceber que a formação sexual da geração Y está cada vez mais atrelada à cultura (uma especialista fala em adestramento) pornográfica virtual, o que frustra expectativas quando corpos e estripulias não se parecem
com os vistos nos milhares de vídeos do youjizz.com.

A pornografia é associada à ampliação dos horizontes sexuais, mas em excesso se revela o oposto: goiabifica o usuário, fazendo-o perder o melhor do sexo de verdade. “Se a pornografia estreita o envolvimento com a sua parceira, você corre para junto dela quando está com tesão, ótimo. Mas o que estamos vendo é um número crescente de homens e mulheres com distúrbios de convívio”, problematizou, em entrevista, o psiquiatra americano Mark Schwartz.

Segundo pesquisa do site MSNBC.com e da revista Elle feita com 15246 homens e mulheres, 35% dos homens que viam pornografia mais de cinco horas semanais disseram que sexo real com uma mulher se tornara menos excitante, e 20%, que o sexo real já não ser comparava ao virtual.

A pesquisa, de 2004, é citada em Pornificados, da psicóloga Pamela Paul, o best-seller já traduzido no Brasil. Embora criticado pelo New York Times pelo feminismo excessivo, o livro traz bons argumentos de como a pornografia virtual pode afetar nossos relacionamentos reais. Lamenta um nova-iorquino para Pamela: “Eu costumava ver pornografia pela internet, mas comecei a ficar menos excitado ao fazer sexo com uma mulher de carne e osso. (…) O sexo real perdeu muito da sua magia. Isso é triste.”

Aflige-se outro entrevistado: “Tudo dito e tudo feito, conquistei tamanha imunidade ao sexo que lhe desmistifiquei completamente a ideia. Não há mais segredos. Não há mais sutilezas – as sutilezas que excitam uma pessoa ao máximo. Não. Não neste mundo.”

Limpo, privado, tecnológico

Se há tanto consumo de pornografia é porque os benefícios são ainda mais aparentes que os malefícios. Não é preciso se enquadrar no velho clichê do homem solitário para se empanturrar com o farto bufê sexual online. Na masturbação, o cérebro libera dopamina, serotonina e ocitocina, neurotransmissores associados ao prazer. E há variedade, novidade, conforto, anonimato. No ambiente limpo, privado, tecnológico de casa ninguém se sente mais o esquisitão buscando pornografia pelas vielas da cidade. O acesso a sites pornográficos também é uma resposta à pressão cotidiana, às frustrações com a vida sexual real ou claro, o resultado de uma compulsão que independe da internet e tem nela apenas mais um meio para se extravasar.

No final das contas, só uma questão demasiadamente humana: “A maior parte do tempo, somos capazes de olhar para o nosso comportamento e fazer as escolhas certas para reduzir as consequências negativas.Infelizmente, não é sempre o caso”, resumem os autores de Nas sombras da internet, avisando: “Sem intimidade, o sexo nunca preencherá suas necessidades, não importa o quanto de sexo você tenha”.

Resta concordar ou achar de uma breguice sem tamanho.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



3 Responses to ODISSEIA VIRTUAL

  1. Nowhere Man says:

    Muito pertinente o texto. A facilidade de acesso à pornografia na internet permite que as nossas fantasias mais obscuras venham a tona, e em alguns casos levam à uma obsessão que toma conta de grande parte de nossa vida.
    Não vejo ela em si como problema, mas catalizadora de um comportamento sexual em potencial.
    Se a pessoa conseguir canalizar este comportamento para algo socialmente saudável, não vejo problema algum. O problema é justamente quando este comportamento torna o indivíduo um sociopata, dificultando seus relacionamentos amorosos, familiares e sociais.
    E o pior, pode acontecer com qualquer um de nós.

  2. comentario says:

    A variedade que se encontra nos vídeos pornôs é fictícia. São variedades de um mesmo padrão, que é opressor e machista (não é à toa, já que a maioria avassaladora dos diretores pornôs são homens, e seus consumidores também). Existem estudos que enxergaram relações dessa pornografia com o aumento significativo dos estupros cometidos por homens de classe média.
    Feminismo demais? Acho que é só olhar para os fatos com um pouquinho mais de atenção e menos misticismo. A internet pode criar um ambiente virtual, mas esse ambiente, ainda, respinga (ou torrencia?) sobre a realidade.

  3. Anonymous says:

    Grandes coisas.. Isso é coisa de americano moralista, e de brasileiro que adora babar ovo de americano..

    Quem disse que pornografia é ruim? Ruim é pedofilia e coisas do gênero, onde alguém é vítima. Se o cidadão quer assistir pornografia, bom pra ele. Quem não quer, não assista.

    Daqui a pouco chegamos no nível da China, onde filmes com temática de viagens no tempo são proibidos..

    Viva a liberdade com consciência e responsabilidade.

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