OS SONS DA CIDADE

[Fotos de Bruno Ropelato]

“Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível para nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha.

Sem ventilação, as salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnado do odor azedo dos penicos. Das chaminés fediam enxofre; dos cortumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; sua boca fedia a dentes estragados, seu estômago fedia a cebola, e o corpo, quando já não era mais bem novo, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e os padres, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha, como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno.”

É o que narra o escritor alemão Patrick Suskind no clássico O Perfume, referindo-se ao século 18.

No começo do século 21, o mundo cheira bem melhor. Em contrapartida, reina nas cidades uma poluição sonora dificilmente concebível para eles, homens e mulheres de 300 anos atrás.

No período em que falamos, agora, as ruas soam a britadeiras, os pátios soam a crianças hiperativas, as escadas rolantes dos shoppings soam o vozerio; as cozinhas de programas de TV, a uma algaravia sem fim. Em bairros inquietos, as salas de escritórios soam a conversas barulhentas, ruidosas; os quartos, a sons das rádios, a jogos estrondosos nos computadores, impregnados da nossa agitação. Dos porta-malas dos carros soa a música eletrônica; das lojas de eletrodomésticos, o sertanejo; das boates, os graves abafados.

Os homens soam seus celulares, suas buzinas; sua impaciência faz soar motores, pneus, portas, guinchos de freios. Soam os ônibus, soam os caminhões, soam as motos, soam o engarrafamento nas pontes e alarmes disparados por todo lugar. Soam restaurantes, soam as mulheres a agudos monólogos, soam as propagandas televisivas acima do resto da programação, soam os alto-falantes das igrejas por várias quadras, soam as construções, até as madrugadas soam mais do que deveriam, e o dia infernalmente, tanto no verão quanto no inverno.

Não-escuta

A partir da Revolução Industrial, em 1750, “sinais acústicos individuais dão vez a uma densa população de sons”, descreve a mestre em Comunicação Fátima Carneiro dos Santos no livro Por uma escuta nômade: a música dos sons da rua. Se antes os ruídos nasciam e morriam, depois eles passaram a permanecer indefinidamente na paisagem, como percebemos andando 20 segundos por aí.

É claro que a algazarra da Revolução Industrial em diante foi incômoda. O barulho de tantas máquinas era inédito na história. O cotidiano contemplativo perdeu força. Não faltaram especialistas para protestar que, ouvindo o fuzuê das ruas, o homem se agitava e deixava de escutar a si mesmo. Na segunda metade do século 19, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche resmungou que nunca os intraquilos haviam valido tanto; mais tarde, o poeta indiano Rabindranath Tagore, vencedor do prêmio Nobel de 1913, observou que o homem se misturava na multidão “para abafar o seu próprio clamor por silêncio”.

O barulho de tantas máquinas era inédito na história. O cotidiano contemplativo perdeu força. Não faltaram especialistas para protestar que, ouvindo o fuzuê das ruas, o homem se agitava e deixava de escutar a si mesmo

Décadas depois, avaliando as esporrentas cidades do século 20, músicos falaram em “esquizofonia”, ou seja, esquizofrenia sonora. Era grande o alvoroço, resultando numa massa de ruídos indistinta, padronizada. Na tentativa de ignorá-la, nos habituamos à “não-escuta”.

A medicina e a psicologia estudaram o excesso de decibéis e entre os seus efeitos encontraram surdez, estresse, musculatura tensas, alta nas pressões arteriais. Também a OrganizaçãoMundial de Saúde levou a poluição sonora a sério, passado a considerá-la um grave problema ambiental.

No túnel

Já que os barulhos nos acompanhariamcomo o zumbido ao mosquito, muitos resolveram abraçá-los. Em 1909 o poeta italiano Filippo Marinetti, mais tarde militante do fascismo, publicou no jornal parisiense Le Figaro o manifesto futurista. Nele, tentou enterrar o século anterior exaltando a “beleza da velocidade” e dizendo querer “entoar hinos ao homem que segura o volante”.

Na música, o futurismo se traduziria no uso de ruídos nas composições. Os instrumentos eletrônicos criados a partir das décadas seguintes sopraram a favor da proposta. Hoje, muitos outros movimentos e gêneros musicais depois, a agitação das cidades, do nível que seja, sempre tem sons para representá-la.

Mais forte ainda que o nome de Marinetti é o do compositor norte-americano John Cage (1912-1992), citação obrigatória quando o assunto é música experimental. Na sua famosa definição, “música são sons à nossa volta, quer estejamos dentro ou fora das salas de concerto”.

Cage, Marinetti e outros sustentaram que havia não só uma questão de abrir os ouvidos aos sons da rua, mas também de incorporá-los às composições.Décadas depois, é o que seguem fazendo músicos experimentais como Peter Gossweiler. Em outubro do ano passado ele tentou promover em Florianópolis, com os amigos Gustavo Serpa e Dael Limaco, o evento No túnel, anunciado como um “tubo de ensaio para um experimento sensorial de música extrema”. Eles já tinham conseguido até duas ambulâncias dos bombeiros, indispensáveis para as possíveis arritmias e mal-estares dos graves amplificados pelo túnel. Quando tudo estava pronto, o experimento foi proibido.

Os desvairados sons não seriam uma perfeita tradução de Florianópolis, mas de qualquer maneira um marco cultural para a cidade, lamenta Peter – que julga o ruído algo “necessário”, que não deveria nos “deixar tão nervosos”.Filho de pais músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, ele cresceu escutando Brahms mas aderiu ao hardcore e mais tarde ao noise, gênero composto principalmente de sons desconfortáveis. Hoje morador da Lagoa da Conceição, Peter, 33 anos, frequenta acupuntura. Voz baixa e pausada, ele explica seu apego pelos sons experimentais: “Nós temos que buscar a música contemporânea. A erudita é limitada. O computador tem muitas possibilidades. Se eu te mostrar o que dá pra fazer nele…”.

Orquestração do mundo

A trilha das cidades mudara; a dos músicos também. Faltava ainda que o ouvinte comum repensasse sua relação com os sons à sua volta. O ideal era que deixássemos de ser passivos e os colocássemos no centro do sistema sonoro. Foi o que John Cage provocou com o silêncio de 4’33’’: nos quatro minutos e meio da composição o músico não deveria tocar nada, a partir do que a plateia se inquietava e fazia ruído, tornando-se obrigatoriamente o centro das atenções.

Também valorizando o espectador ativo, o compositor canadense Murray Schafer falou em “poetização do ruído”, “maximização dos sons agradáveis e informativos e minimização dos sons indesejados ou sem significado”, “melhorar a orquestração do mundo”, “ouvir como um modo de tocar à distância” e “ouvir a cidade como a uma sinfonia de Mozart”.Quão possível é isso? Foi o que encafifou a Naipe, que para discutir o assunto alugou por duas horas a cabeça musical de um dos mais importantes pianistas do sul do país, Alberto Heller.“É possível construir uma sensação silenciosa [diante dos barulhos das ruas]. Mas isso é uma criação quase meditativa, e hoje nós treinamos menos a habilidade de nos construirmos”, afirma Heller.

O compositor canadense Murray Schafer falou em “poetização do ruído”, “maximização dos sons agradáveis e informativos e minimização dos sons indesejados ou sem significado”, “melhorar a orquestração do mundo”

Realmente não é fácil escutar Mozart no trânsito da Trindade, nas proximidades da UFSC, onde ele e a Naipe conversam. Ouvidos mais musicais como o dele, no entanto, rapidamente comprovam que os sons da cidade não são os mesmos para todos. Escutamos em diferentes planos, privilegiando esse ou aquele ruído, exatamente como focamos e desfocamos paisagens com os olhos. Para músicos, isso se traduz numa musicalidade diferente do carrinho de supermercado; a junção de sons distantes que harmonizam; a forte percepção das folhagens do outro lado da avenida, apesar do trânsito intenso no meio; além da surpreendente conclusão de que “a mistura de sons não é necessariamente ruim”.

Para os leigos, no mínimo é um treino para a sensibilidade auditiva. Geralmente é também um exercício psicológico com benefícios como aprender a distinguir barulhos externos e internos. Nada mais típico que o enervado permanente – que no interior se vê mais inquieto ainda e nos grandes centros urbanos tende sempre a colocar no entorno a culpa da sua intranquilidade.“Há muito romantismo nisso [de esperar menos ruídos]”, diz Heller. “Não é ouvir barulho e achar lindo. É lidar com os ruídos em vez de querer apagá-los, entrar no castelo com os demônios”.

  • Esta matéria é da Naipe 6. Clique aqui para ler a revista em sua versão online.

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