PARA LÊNIN, SEM CARINHO

[Fotos Thiago Momm e divulgação]

“Venha assistir a um episódio de 40 anos do Big Brother”, diz o postal do Museu do Comunismo, em Praga.

Alguns museus insistem em oferecer tardes empoeiradas e soníferas sobre pisos que rangem. Outros sabem informar e entreter os visitantes apelando com muito bom senso para o uso da tecnologia, assunto explorado neste post aqui.

O Museu do Comunismo, porém, oferece algo ainda mais raro: personalidade.

Lugares afins deixam clara a aversão aos tempos comunistas. É o caso, entre outros, do Charlie Point, em Berlim, e do Museu da Resistência, em Tallinn. O primeiro é dedicado às tentativas dos berlinenses orientais de vencer o surrealismo dos 45 km de muro e vigilância que os separaram dos ocidentais entre 1961 e 1989. O segundo aborda a ocupação da capital estoniana pelo regime comunista soviético da Segunda Guerra até 1991.

Nos dois fica evidente o contraste entre a angústia dos tempos sem liberdade e o alívio da autonomia posterior. A atmosfera é de despacho. A mensagem é evidente: o velho cotidiano capenga não deve ser esquecido para que não se repita.

Na capital tcheca, porém, as lembranças dos amargos tempos totalitários (1948-1989) vêm temperadas com textos mais incisivos e cartões-postais bem-humorados. Não é corriqueiro encontrar o tipo de frase “Você não conseguia detergente para lavar a roupa mas conseguia sua lavagem cerebral” ou “Dinheiro, cartão de crédito e subornos ostensivos aceitos na nossa loja de presentes” estampado em qualquer museu.

Não é corriqueiro encontrar o tipo de frase “Dinheiro, cartão de crédito e subornos ostensivos aceitos na nossa loja de presentes” em qualquer museu

Como mostram três das imagens acima, o humor também chega aos ícones. “Fique íntimo da história”, diz o texto ao lado de um Stalin garanhão, um Marx aparando as unhas e um Lênin durante o seu banya, o banho tradicional russo.

Praga, lembre-se, foi das cidades que mais arriscaram o escalpo naqueles tempos nefastos. Primeiro secretário do partido comunista tchecoeslováquio, Alexander Dubček arriscou, em 1968, liberdade de imprensa e reabilitação das antigas vítimas políticas de Stalin. Ganhou em troca a visita de tanques soviéticos e a perda do cargo no ano seguinte. Estava aí a Primavera de Praga. Aliás, como lembrou o historiador Tony Judt em um dos seus últimos livros, se a juventude ocidental de 1968 fosse realmente tão revolucionária estaria por lá, não em Paris.

Nos fundos do Mc Donald’s

Agora, a cidade que se tornou sinônimo do melhor turismo no leste europeu e oferece uma das artes de rua mais criativas do continente escarnece daquela época.

No museu, o tom da exposição e dos souvenires mais que justifica a visita. Ao longo das salas se espalham bustos e outras quinquilharias do velho regime, uma antiga sala de inquérito, fotos da claustrofobia política e até mesmo um pedaço colorido do Muro de Berlim.

Nas legendas, a contrariedade com os velhos ocupantes do país é contundente, sem eufemismos. “Desde o começo, Lênin apelou a táticas de extrema perfídia e crueldade que se tornaram características de todos os regimes comunistas da época”, diz um trecho de um texto em um painel. “Após a queda do comunismo na República Tcheca, a média de idade dos cidadãos rapidamente subiu em cerca de cinco anos”, enfatiza outro.

Um cartaz comunista com uma mãe distribuindo comida a dois pimpolhos felizes está marotamente colocada ao lado de uma foto da vida real – a consumidora avaliando uma caixa de ovos sem ovos.

Ainda melhores são os souvenires e a maneira como o lugar se anuncia “orgulhosamente nos fundos do McDonald’s e próximo de um cassino”. Uma matrioshka raivosa e um Papai Noel com uma foice estampam diferentes cartazes do museu. Nos cartões-postais, o escárnio ao passado não tem fim. Além dos que se podem ver no slideshow no alto desta matéria, há “Naquele tempo havia pouco papel higiênico – por sorte, também havia pouca comida”, “Museu do Comunismo: abrindo tarde, fechando em breve, intervalo para o almoço irritantemente longo” e muitos outros.

Tanto humor pode soar uma subestimação pueril daqueles tempos tão nublados. Mas pode soar, apenas. Levar-se a sério demais, afinal, era um dos grandes pecados comunistas. Rir de algo tão drástico simboliza tempos melhores.

E inspira. Quando topei com um despertador com a figura de Stalin em um brechó, dias depois, me veio automaticamente o gracejo: “Não acorda de pesadelos”.

Acho que vou mandar essa para o curador do museu.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



3 Responses to PARA LÊNIN, SEM CARINHO

  1. João Batista says:

    Visitei Praga, lindíssima, com seus mistérios e prédios estonteantemente atrativos, músicas ao ar livre ao entardecer, preços convidativos, e uma irreverência própria dos “com cultura”, o que apenas acho que não precisa é “ficar explicando a ironia de um povo”, afinal seus leitores se não sabem o significado histórico de algo, devem procurá-lo por si mesmo. Adquirir conhecimento não dói. Ah, e sem McDonalds, por favor. (Ironia minha, “Ignorante”).

  2. Jonata says:

    Interessante verificar in loco o sentimento de um povo sobre a sua própria história.
    Mas dê um espaço para a imaginação…
    Pense que estais nos EUA e que o comunismo dominou o mundo…
    Agora se imagine em um museu que lembrava da época capitalista do citado país. Por certo que só teriam obras atacando o antigo regime, nos mesmos moldes das obras citadas por você. Afinal, quem ganha a guerra conta a história, não é mesmo?
    Não sei se já tivesse oportunidade de ler, mas sugiro a leitura de duas obras do historiador Éric Hobsbawn: a era dos extremos e como mudar o mundo. Terás informações muito interessantes para aprofundar esse suposto desleixo para com o lazer na época de Lenin. Mesmo que convicções pessoais influenciem a percepção de um estudioso, considero a análise de um historiador mais isenta do que a de um museu com propósito parciais. Em tempo, que fique claro que não estou defendendo o regime soviético.

    • Thiago Momm says:

      Jonata: li toda a série das eras do Hobsbawn mais os dois últimos livros dele, sobre o século 21 e sobre o seu posicionamento marxista. Ele é um gênio mas está longe de ser aclamado pelas suas cismas nesse campo – uma das grandes respostas a ele veio do também gigante Tony Judt em livros diversos.
      Não entendi que propósitos parciais teria o museu – que não o de traduzir o sentimento do povo tcheco quanto ao que viveram.
      E os EUA, concordo com você, são péssimo exemplo de capitalismo – vide índices divesros. Mas a Suécia e a Noruega também são capitalistas, o que ninguém gosta de lembrar. Me apetece estudar a história desses países. Sei lá por que, são vistos como exemplos irreais, mas experimentaram pobreza no século 20 e estão onde estão. Foram social-democracias, isso sim, mas capitalistas, e nenhum país socialista pode dizer o mesmo.

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