No Mundo luzvermelha1

Publicado em dezembro 15th, 2011 | por Revista Naipe

QUEM TEM MEDO DA LUZ VERMELHA?

[Por Anônimas, com ilustração de Leantro Pitz]

O nariz da loira explora a curva entre o pescoço e o ombro do quarentão enquanto os dois se esfregam no ritmo do sertanejo universitário. Não fossem os pole dance eretos no palco, aquela poderia ser uma pista de dança qualquer.

Mas havia o insistente cheiro de 212 Sexy no ar, lembrando que lá a conquista é uma tarefa feminina: são sempre as bocas aveludadas que iniciam a aproximação. É por esse momento que todos esperam, exceto as três garotas que cochicham num canto, descobrindo como funcionam as coisas em uma das mais famosas casas de show da cidade.

Sim, a Naipe levou três universitárias lá. Vinte e um aninhos cada, elas toparam eufóricas o convite para mostrar a visão de quem nunca havia pisado em nada do gênero. A maior preocupação, claro, era a roupa – o que vestir num lugar desses pra não ser confundida? Não imaginavam que seriam solenemente ignoradas pela ala masculina. O homem que mais lhes deu atenção ao longo da noite foi o garçom. Desde que chegaram no lugar, lá estava ele querendo saber o que as senhoritas gostariam de beber. Um pouco emocionadas, elas pediram vodca com refrigerante. Amadoras.

Quando os três narizes torcidos entraram no salão da pista de dança, farejaram um lugar bem distante da esperada atmosfera Moulin Rouge. Parecia uma casa noturna como outras. Mas os três queixos caíram quando a atenção se voltou para a clientela: “Nossa expectativa era ver muitos carecas, alguns ‘normais’ e nenhum gato. Mas tinha um gordo careca, muitos ‘normais’ e vários caras gatos: cinco olháveis e dois que dava até pra fazer um desconto”, analisou uma delas, entrando no clima.

Chiquititas 

Quando começam a curtir a vibe meio balada, elas são levadas pela gerência para conhecer as entranhas do clube. Descendo as escadas do camarote, à direita, uma porta esconde o corredor apertado onde ficam as salas para showzinhos particulares. Os narizes universitários se metem em uma que acaba de ser usada. Sofás pretos, paredes espelhadas, almofadas vermelhas. No chão, três toalhas brancas emboladas.

Alguns passos depois, no fim do corredor, uma porta aberta revela um lugar à parte. O 212 Sexy dá vez a um suave aroma de comida no fogo. O som da TV deixa a música vinda do salão em segundo plano. É lá que muitas das funcionárias moram. “A novela já começou?”, pergunta a gerente para a garota que come em uma mesa de 12 lugares. “Ainda não.”

Adiante ficam os dormitórios das dançarinas. O longo corredor de madeira e os 20 quartos equipados com armários e beliches lembram um cenário de Chiquititas. Nas paredes, os cartazes que alertam sobre não correr, não gritar e não brigar também parecem os de um orfanato, exceto pelo que indica o excêntrico horário de silêncio: das 5h às 14h.

As profissionais não pagam hospedagem e alimentação. A única obrigação é a de estarem prontinhas, lindas e cheirosas no salão às 21h.

Devassas

De volta ao camarote, as voluntárias da Naipe pousam os terceiros copos vazios na bandeja do garçom boa-praça. Uma delas se aproxima da ruiva maquiada até os cotovelos que está ali de bobeira, apoiada no parapeito.

Beijinho, beijinho, clima de comadres, a mulher conta da sua vida de viagens entre Curitiba e Florianópolis, sabe como é, para dar uma circulada. Anunciou que logo faria um show. “Vou colocar um vestido vermelho para ficar igual aquele desenho da Disney, sabe?”, se referindo à boazuda Jessica Rabbit, de Uma cilada para Roger Rabbit. Por cada strip, ela leva de uma a três centenas de reais.

Beijinho, beijinho, clima de comadres, a mulher conta da sua vida de viagens entre Curitiba e Florianópolis, sabe como é, para dar uma circulada. Anunciou que logo faria um show. “Vou colocar um vestido vermelho para ficar igual aquele desenho da Disney, sabe?”

E as atrações da noite finalmente começam. No palco, uma odalisca de meia-tigela faz movimentos preguiçosos, nem strip nem dança do ventre. As universitárias, esperando performances à la Demi Moore, quase bocejam: “Rebolar assim, até eu”. Em seguida, é a vez de uma colegial que abaixa a calcinha igual as meninas de oito anos antes do banho, deixando aquele anelzinho enrolado no chão. Para compensar, surgem na sequência duas adeptas do Madonna style de sedução. Para tirar o fio dental, roçam a estreita tira de tecido para frente e para trás no vão das pernas, provocando expressões de dor no rosto de nossas meninas.

Depois da Jessica Rabbit do Desterro e de uma dançarina pudica que, encarrapitada no pole, sobe o vestido tomara-que-caia, vem o grande momento da noite: o sorteio de devassas. A administração pesca dois números de comanda aleatórios e “os sortudos levam a devassa na faixa!”. Os prêmios sobem no palco: uma morena madura com cabelão volumoso e uma ninfetinha que as universitárias juram conhecer de algum lugar. “Se eu fosse um cara,  estivesse de boa aqui e ganhasse uma devassa por conta da casa, seria o dia mais feliz da minha vida”, reflete uma das observadoras.

As devassas, elas sim, dão um show convincente. Ordenham o pole, fazem caras e bocas, se tocam, se esfregam. A mais novinha é sorteada primeiro. Sozinha no palco, tira a lingerie branca e, granfinale, derrama a cerveja da promoção pelo corpo.

Reflitam

As convidas desenvolvem, em silêncio, sob o brilho da vodca, teorias antropológicas. “Chegamos lá achando que o trabalho das garotas ali era uma coisa muito última opção, mas no fim vimos que não deve ser uma vida tão dura assim.”Mais tarde repensam. Mesmo sabendo que as funcionárias não pagam moradia e alimentação, ganham porcentagem das bebidas, só trabalham de segunda a sexta, escolhem os clientes e ainda abocanham toda a grana que faturam com eles, a profissão não parece lá muito atraente: “Como nos disseram, não é um dinheiro fácil, é um dinheiro rápido”. E suado, concluem: “Que tipo de vida é essa em que você tem que estar sempre depilada? E a menstruação? Sério, reflitam.”

O quarto copo de bebida se vai na bandeja do garçom-queridão. O clima meio baixaria de fim de noite, comum a todas as baladas, começa a tomar conta. Em uma das poltronas do camarote, um homem com ares de executivo experiente se roça – meio desmaiado, meio acordado – no colo da devassa dos cabelos volumosos. Ela pede ao garçom que traga uma água para o ébrio senhor claramente sem condições de desfrutar o banquete, mas insistente.

É nessa altura da noite que o editor da Naipe chega – tal qual pai que espera as filhas na porta da night – para buscar as três universitárias. O cheiro forte de perfume adocicado toma conta do carro. Preocupado, ele quer saber se elas estão bem, se tudo transcorreu como o planejado. A resposta vem em forma de gritinhos histéricos: “Adoramos!”, “É o máximo!”. As três universitárias de calça jeans, blusa e sapatilhas (foi esse o look escolhido, afinal) berram em uníssono:

– A gente pode voltar outro dia?

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