No Mundo coletivos_2

Publicado em setembro 20th, 2011 | por Revista Naipe

SACOLEJO CULTURAL

[Por Iana Lua, com fotos de Rafael Pira] 

Domingo, 19h, centro de Florianópolis. Uma chuva fina cai nos paralelepípedos que refletem a luz amarela dos postes. Ruas desertas, silêncio, um sobrado antigo.

Atrás da alta e pesada porta de madeira, uma ruidosa escada leva ao andar de cima – onde um japonês de cabelo roxo e camisa do Corinthians entrega as comandas para um show de rock.

Nas paredes, Rambo se exibe, Roberto Carlos sorri maroto e Johnny Cash mostra o dedo do meio. Nas pistas, oncinha e ankle boots, barba e óculos vintage, camisa pra dentro e barriguinha de chope. Tudo isso em um bar que se autojulga “honesto e aconchegante”.

É nesse cenário, o Taliesyn Rock Bar, que a Naipe confere o som dos curitibanos da Humanish. A banda saiu da sua cidade natal para passar 12 dias na estrada – dez shows, três estados, 3099 km. O primeiro CD foi lançado há um mês e eles já estão por aí rodando o país.

Sanduíches, colchonetes, internet

“Antes, pra uma banda independente fazer turnê, só se tivesse muitos amigos espalhados pelo Brasil”, conta Daniel Bruch, produtor da Humanish. Hoje, no lugar dos amigos estão os coletivos – grupos de pessoas que se unem para promover trabalhos culturais.

A turnê do Humanish, uma das maiores iniciativas dos ainda tímidos coletivos do sul do país, mostra o quanto é possível se fazer com vontade de agitação cultural + tecnologia digital. A viagem funcionou mais ou menos assim: em cada cidade, um coletivo alimentou e hospedou os artistas (leiam-se sanduíches e colchonetes espalhados pela sala), além de cuidar da divulgação e infra-estrutura do show.

A logística fica por conta do Circuito Fora do Eixo – fundado no Brasil em 2006 por um pessoal de Cuiabá. Inconformados com a soberania cultural do Rio e São Paulo, eles resolveram unir coletivos em uma rede colaborativa para ajudar artistas independentes. Hoje, o circuito é representado em todos os estados brasileiros e em quatro países da América Latina, num total de 106 lugares.

As turnês acontecem através da “brodagem sistematizada”– troca de favores disposta em complexas planilhas online. Você gasta 10 horas pra me fazer camisetas, eu gasto 20 horas pra divulgar o seu show. Resultado: você me deve 10 horas. Tá lá, explicadinho no Google Docs.

Tinha tudo pra virar bagunça, mas não vira. Porque houve profissionalização. O Fora do Eixo nacional conta com colegiados, regimento interno, instâncias deliberativas, direitos, deveres, atas. Mas nada seria possível sem a internet. É ali que todos prestam contas, trocam informações, fazem reuniões via Skype e tornam possíveis mais de 5 mil shows no país em apenas um ano.

Toddy ao tédio

Maranhão e Santa Catarina foram os últimos estados brasileiros a terem um coletivo representante do Fora do Eixo. Há quatro meses quem ocupa esse cargo por aqui é o Cardume Cultural, de Florianópolis, que de cara assumiu a responsabilidade de organizar o Grito Rock – evento simultâneo em mais de 130 cidades e que só na ilha já reuniu 4 mil  pessoas.

Originalmente, o Cardume era parte do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFSC. Após o sucesso do Ufsctock de 2010, resolveram ir além do movimento estudantil, aderiram ao Fora do Eixo e hoje contam com três pessoas trabalhando integralmente pelo coletivo.

Entre elas está Júlia Abertoni, que até o ano passado se julgava uma simples universitária: “Eu estudava História, morava em uma república e vivia festando. Agora eu faço só uma disciplina, moro com os outros integrantes do Cardume e durmo e acordo pensando no trabalho.”

Como a música é o que rende mais público, as outras artes ficam parasitando. “É mais fácil reunir pessoas num show de rock do que numa exposição”, diz uma das colaboradoras do Cardume enquanto pendura textos literários e pinturas na parede do Taliesyn Rock Bar. Tem de poesias a Escatológico, um texto que ludicamente sugere aos leitores que se pesem antes e depois de defecar para quantificar sua produção.

Conteúdos artísticos tão variados só poderiam resultar em um público igualmente diversificado. “Prefiro Toddy ao tédio”, diz a camiseta de um sujeito que foi para o Taliesyn apenas para desfilar o presente ganho no Dia dos Pais – um chapéu Panamá. Outro, de uns 60 anos, foi assistir ao jogo de futebol na enorme TV de plasma. Outro, de mochila e camisa pólo, confessava ter vindo na esperança de encontrar a beldade que o entregou o flyer. Uma menina tuitava sobre a noite. Uma patricinha tentava se ambientar. A Humanish passava o som tocando uma música tantalizante da extinta banda americana Morphine.

ALGUNS COLETIVOS

No Brasil

Circuito Fora do Eixo: rede que une coletivos espalhados por todo país.

Em Florianópolis

Cardume Cultural: representante do Fora do Eixo em Santa Catarina, é mais focado em música.

Sem Fronteiras: entre outras ações, salva domingos com o sagaz Picnic Inusitado.

Margot: faz experimentações com fotografia, texto, artes plásticas, cinema, vídeo.

Esta matéria é da Naipe 7. Para ler a revista online, clique aqui.

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