TV DE PLASMA OU EDUCAÇÃO?

[Por Carolina Dantas]

Estamos no meio do caminho entre duas Copas do Mundo da FIFA. Em 2010, a África do Sul foi sede do evento de futebol. Em 2014, é a vez do Brasil, e quatro anos depois é a da Rússia.

E qual é a semelhança? Todos são países em desenvolvimento e parte do BRICS (formado por Brasil, Rússia, India, China e África do Sul). Qual é o cenário mundial? Uma economia mundial em crise, com países europeus sem dinheiro para investir em infraestrutura esportiva.

O Depois do Apito Final é um projeto que nasceu para tentar contar a história da África do Sul, a primeira a aceitar o desafio. Eu e meu colega, Gian Kojikovski, estamos na Cidade do Cabo (uma das cidades-sede em 2010) gravando o documentário. Antes, passamos por Joanesburgo. Entrevistamos especialistas e diferentes pessoas que participaram da organização, projetaram os estádios ou simplesmente assistiram aos jogos. Buscamos entender se o cenário econômico e social sul-africano mudou após a Copa, ou se simplesmente três bilhões investidos em estádios de futebol não fazem diferença para um país.

Podemos resumir que a África do Sul é um país em constante mudança, que está crescendo e que tem muito mais infraestrutura que o Brasil. Em nenhum momento vimos qualquer trânsito que possa se comparar ao de São Paulo. Mesmo em Joanesburgo, que foi uma das cidades-sede principais do evento. As estradas são largas e comportam o grande número de carros da população, que raramente utiliza o sistema público de transporte. Além disso, o governo investiu em transporte coletivo para a Copa: construíram uma estação de trem entre o Soccer City e pontos-chave da cidade, melhoraram as estradas. Neste ponto, não podemos negar, a organização foi implacável.

É importante para um país com tantas desigualdades investir em Copa do Mundo? Investir três bilhões na busca por mais igualdade social na África do Sul poderia ter sido a escolha do governo sul-africano, mas não foi isso que aconteceu

A dúvida é outra: é importante para um país com tantas desigualdades investir em Copa do Mundo? A desigualdade racial histórica passou a ser financeira, e agora a situação é como no Brasil. A discriminação continua, só que brancos e negros se respeitam. Mesmo assim, permanecem nas mesmas classes financeiras da época do Apartheid. Nos restaurantes mais requintados de Joanesburgo, vê-se gente branca comendo, enquanto os negros são os garçons. Quando se procura um médico, um advogado ou um empresário, geralmente não se encontra negros trabalhando. E nas partes mais pobres, não se vê outra raça que não seja a negra.

Investir três bilhões na busca por mais igualdade social na África do Sul poderia ter sido a escolha do governo sul-africano. Melhorar as escolas e hospitais, ao invés de comprar TV de plasma para a população se divertir por um mês. Mas não foi isso que aconteceu.

Por mais que não tenha sido essa a escolha, foram três bilhões que deram visibilidade ao país e encheram de orgulho e vontade todo o continente africano. Foi importante para a população poder afirmar: “nós conseguimos financiar isso”. A maioria das pessoas que conversamos foi positiva com relação à imagem que a África do Sul conseguiu transmitir durante o evento. Para todos por aqui, é importante também o mundo entender que não existem mais leões e elefantes andando pelas cidades, que o povo está buscando reagir aos resquícios do Apartheid, que os índices de violência não são mais os mesmos e, principalmente, que a África é um continente com muitos recursos e oportunidades de investimentos para o exterior.

Outra ideia pouco discutida ainda pela imprensa brasileira é se os estádios estão sendo planejados como uma estrutura que dê mais privilégios à cidade. É incrível como os sul-africanos souberam utilizar os investimentos para melhorar o ambiente em que vivem. Por exemplo: ao lado do Cape Town Stadium existe um enorme parque muito bem arquitetado para o lazer e o bem-estar da população. Entre os arquitetos entrevistados, está Henning Rasmuss, que nos fez a seguinte pergunta: “será que os brasileiros estão preocupados em entender o que podem ganhar com a Copa do Mundo para as suas cidades?” Pensar em urbanismo faz parte da Copa do Mundo. Ter um deadline para finalizar a construção da infraestrutura também.

O documentário Depois do Apito Final é uma compilação de entrevistas e dados que vão explicar as questões políticas e econômicas na África do Sul durante e após o evento em 2010. Entender o que existiu por aqui pode ser a chave para o que pode acontecer no Brasil. E não venham com a ideia de que é bobagem: são bilhões de reais. É dinheiro público em jogo.

Se for assim, que o Brasil receba algo além do belo futebol que pode acontecer em campo.

Para saber mais sobre o documentário, leia o blog no ClicRBS e curta a fanpage

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