No Mundo sutiã

Publicado em setembro 20th, 2013 | por Lucas Pasqual

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VENEZA DESPEITADA

Esgotado depois do primeiro dia de passeio em Veneza, você procura algum canto onde os drinks não custem mais de dois dígitos – fazendo mochilão pela Itália, tudo que você quer é gastar poucos euros num bom bar ruim.

Foi assim que eu e minha amiga encontramos o Bacaro Jazz, meio que por acaso. Nos perdemos nas andanças pelas ruelas estreitas, velhas e belíssimas da cidade, já sem saber quantas pontes havíamos cruzado e quantos canais ainda nos separavam do hotel. Veneza é assim, toda picotada. E lá estava ele, uma porta discreta e uma placa em giz anunciando o combo do happy hour: cuba libre + mojito = 8 euros.

Lá dentro, nada de discrição. Sutiãs de todas as cores e tamanhos decoravam o ambiente: pendiam do teto, eram expostos nas paredes e pregados em quadros. No balcão, apenas um quadro com as regras do bar – regra #1: o barman está sempre certo; regra #2: se o barman estiver errado, veja a regra #1.

No balcão, apenas um quadro com as regras do bar – regra #1: o barman está sempre certo; regra #2: se o barman estiver errado, veja a regra #1

Só depois descobrimos que o Bacaro Jazz é destaque no Trip Advisor também como restaurante, oferecendo delícias que variam desde carpaccio até frutos do mar com uma pegada bem italiana. Reza a lenda que é a cozinha que funciona até mais tarde em Veneza, duas da madrugada. Os ouvidos também têm trato especial com uma seleção impecável. David Sanborn, Norah Jones, Miles Davis, Ella Fitzgerald e outros gigantes do jazz justificam o nome do bar com louvor.

Veio o primeiro combo, depois o segundo e o terceiro, e só então conseguimos uma mesa. A essa altura já fechávamos os olhos a cada nova faixa do disco da Billie Holiday. Às 18h, preparados para o quinto pedido, o barman anunciou o fim do happy hour e da nossa alegria etílica. Hora de voltar para o hotel.

No dia seguinte, continuamos nossa expedição para desbravar Veneza. Cruzamos a Ponte di Rialto, comemos em um restaurante à beira do Grande Canal, fugimos dos pombos na Piazza San Marco, nos assustamos com o preço do passeio de gôndola, visitamos o Hard Rock Café e nos perdemos novamente. Mas os sutiãs do Bacaro Jazz não saíam da minha cabeça.

Chegamos às 16h, decididos a aproveitar todo o happy hour. Desta vez o bar estava menos movimentado e logo conseguimos uma mesa. Sentei de frente para a porta, e então pude observar que, acima da entrada, um mural de declarações romantizava aqueles metros quadrados. Inúmeros eu-te-amos, traduzidos em idiomas que eu nem sabia que existiam, pareciam dar um último suspiro na guerra contra os sutiãs.

Duas horas e alguns combos depois, quando nos levantamos para ir embora já meio tortos, resolvi perguntar ao barman se havia alguma história por trás de todos aqueles adereços. Ele mirou minha amiga ao responder com um sorriso sacana: “Toda mulher que vem aqui pela segunda vez deixa o sutiã que está usando. É um costume italiano”.

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Sobre o Autor

Jornalista mato-grossense criado pela avó. Dispensa botinas e troca café por chá gelado sem pensar duas vezes. Equilibra o vício declarado por post-its com citações de seus seriados favoritos e acredita que o mundo seria um lugar melhor se RuPaul chegasse às massas.



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