VOTAR É IMPRECISO

[Por Thiago Momm e Jerônimo Rubim, com fotos de Gabriel Rinaldi]

“Tenho 17 anos, ainda não sou desiludida com a política”, reflete a caloura de Arquitetura da UFSC Ana Carolina Nascimento, emendando um sorriso sardônico: “Mas não falta muito.”

O voto dela e dos universitários Bruno Espíndola, Andréia Canello e Carmelo Cañas para presidente valerão 0,0000008% cada em outubro. Mesmo assim, é época de eles ouvirem que têm em mãos uma arma capaz de mudar o país, que as eleições são a festa da democracia, que basta se informar para votar bem, votar com consciência.

Será simples assim?

As próximas eleições podem ser vistas sob perspectivas bem diferentes. Uma é a de que o Brasil comemora 25 anos de democracia e o eleitorado recorde de 131,5 milhões. Outra é a perspectiva anacarolina, comum a inúmeros eleitores. Votar regularmente não impede as novas gerações de se desiludirem com a política. No Brasil ainda é difícil ver a conexão entre o ato isolado de votar e as milhares de decisões políticas que se seguem às eleições. Tanto a escolha do candidato como o acompanhamento do seu mandato são tarefas pouco adaptáveis à realidade do cotidiano.

Mesmo nos países desenvolvidos é difícil ver as ações políticas como resultado das escolhas eleitorais: “[Hoje] não só perdemos o controle sobre nossa forma de viver, como as autoridades também o perderam para forças além do seu alcance”, escreveu um dos grandes historiadores contemporâneos, o britânico recém-falecido Tony Judt. O resultado é o desânimo com o pleito.

“Eu estava num churrasco em Canasvieiras e voto em Coqueiros. O Dário [Berger, candidato a prefeito de Florianópolis] estava muito na frente, então pensei ‘foda-se um voto’ e não fui”, conta Carmelo Cañas, estudante de Jornalismo da Estácio de Sá, sobre as eleições de 2008. A distância entre os bairros de Canasvieiras e Coqueiros é de quase 50 km. A distância entre suas expectativas políticas e o efeito do que digitaria na urna era maior ainda.

Ao ouvir declarações como a de Carmelo é comum nos fingirmos espantados, esquecendo que fazemos igual ou pior. Ele, na verdade, é mais bem informado que a média dos eleitores e outros universitários. Acompanha blogs políticos e fez um curso de política na Assembleia. Em vez de estimulá-lo, as informações acumuladas o desanimam. “Quando tinha 18 eu era alienado sem querer. Hoje [com 27 anos] sou alienado conscientemente”, explica. Na mesma toada, diz Ana Carolina: “Acho que, se eu me informasse melhor, avaliaria pior os candidatos.”

Pontos de vista assim são mais que justificáveis. “Há especialistas que defendem que a alienação política é a rejeição consciente de todo o sistema político”, escreve Marcus Figueiredo no livro A escolha do voto – democracia e racionalidade. A “alienação consciente” parte de algumas conclusões básicas: a de que não temos influência nenhuma no que o governo faz; de que as decisões políticas são imprevisíveis, incoerentes, aleatórias; de que as normas que regem as relações políticas são desrespeitadas; a de que votar é mera formalidade.

Piscina térmica pública

Simplificando a coisa toda, as campanhas cívicas insistem em pregar o voto consciente. Mas o que seria votar consciente? Digitar dois números estando perfeitamente informado do que eles representarão?

O mundo real é o mundo da informação incompleta e imperfeita – e de candidatos precários, com discursos que tendem para a vagueza. Mais que isso, é impossível prever os problemas que surgirão no futuro e as atitudes dos eleitos diante desses problemas. “As diferenças de postura dos políticos frente às questões sociais e econômicas cruciais em geral são tão sutis que, para discerni-las, seriam necessários conhecimentos que a grande maioria dos eleitores não tem”, escreve Marcus Figueiredo.

Na vida real, isso se traduz em votos como a da estudante de Nutrição da Unisul Andréia Canello, 20. Sua tia e sua sogra já foram vereadoras. Desde os 16 anos ela faz questão de ler sobre política e percorrer os 250 km entre Florianópolis e o seu colégio eleitoral, em Lages. Mesmo assim, no mundo das informações imperfeitas votou em um vereador a partir de conversas de última hora com o pai.

O resultado: “O vereador que eu elegi queria usar o dinheiro da Festa do Pinhão para construir uma piscina térmica pública na cidade”, lamenta Andréia – que teve o mérito de acompanhar quem elegeu. Para Marcus Figueiredo, mesmo eleitores “capazes de processar informações políticas relevantes talvez não achem racional despender tanto tempo e energia nessa tarefa”.

Não bastasse, a informação não tornaria o voto infalível. No livro The Political mind (A mente política, ainda sem tradução no Brasil), o linguista e cientista político George Lakoff diz que “98% das nossas decisões ocorrem inconscientemente, sob a influência de emoções que nem sequer desconfiamos possuir”. Para Lakoff, é hora de pensar em um “novo iluminismo” e deixar de ver a razão como uma máquina de calcular objetiva e apaixonada.

No caso das eleições, como bem sabem os marqueteiros, narrativas que exploram biografias e valores falam mais eficientemente ao eleitor do que dados. “O eleitor muitas vezes escolhe o candidato que mais o permite sonhar”, diz a doutora em Ciência Política Suzana Lupi, que não considera isso necessariamente ruim: “Tem que ter um espaço de liberdade [de imaginação] na decisão do voto.”

Confuso

Para Alberto Carlos Almeida, diretor do Instituto Análise e autor de A cabeça do eleitor – estratégia de campanha, pesquisa e vitória eleitoral, o que decide são as informações mais prontamente disponíveis. “Para a maioria das pessoas, em primeiro lugar vem a avaliação do governo. Esse é o fator mais importante”, diz Almeida à Naipe, prevendo a vitória de Dilma Rousseff no primeiro turno como mais uma prova dessa teoria.

Também levamos em conta, ao votar, fatores como identificação partidária, status socioeconômico, perfil dos candidatos, propostas eleitorais e outros motivos. A identificação partidária não é a bússola mais confiável no Brasil. Dadas as regras eleitorais, os partidos precisam se aglutinar para conseguir votação suficiente. Isso se traduz em bandeiras confusas. Nos EUA, republicanos e democratas têm alguns valores claramente distintos, pelos quais o eleitor pode se orientar.

Resulta disso que em geral, no Brasil, é melhor se falar em simpatia do que em identidade partidária. A única identificação numerosa, afirma Alberto, é com o PT. Mesmo assim, sabe-se hoje que votar em candidatos do partido não é garantia da aplicação de certos valores. Os partidos são fluidos e traem com facilidade seu passado – logo, traem os eleitores que se identificavam com eles.

Nessa salada, Bruno Espíndola, 22, estudante de Fisioterapia da Udesc, está confuso. “Os três principais candidatos [presidenciais] têm falhas, não vou votar com segurança. O PT já está há tempo demais no poder. O Serra é corruptível. A Marina tem a melhor história, tem diferencial, mas só tem 10% [das intenções de voto]”, avalia.

Ou seja, é foda.

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Para se tornar um animal político

A cabeça do eleitor – estratégia de campanha, pesquisa e vitória eleitoral, de Alberto Carlos Almeida;  Record, 308 pág., R$ 42,90.

A decisão do voto – democracia e racionalidade, de Marcus Figueiredo; UFMG, 240 pág., R$ 35.

Reflexões sobre um século esquecido – 1901-2000, de Tony Judt; Objetiva, 504 pág., R$ 59,90.

Eleições na estrada – jornalismo e realidade nos grotões do país, de Eduardo Scolese e Hudson Corrêa; Publifolha, 280 pág., R$ 29,90.

Akropolis, a grande epopéia de Atenas, de Valerio Manfredi; L&PM, 248 pág., R$ 15.

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One Response to VOTAR É IMPRECISO

  1. Carmelo Cañas says:

    Muito massa a matéria.

    Parabéns ae rapaziada…. a revista tá boa. Tá indo fundo nos assuntos que merecem reflexão.

    Abraço…. Cañas

    Sugestão: uma hora dessas tentem analisar da mesma forma com que analisaram a política o “irracional” mundo do fanatismo futebolístico.

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