On the road Neuqen

Publicado em julho 29th, 2012 | por Thiago Momm

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MICROUTOPIAS

“O fim das utopias já não seria uma espécie de utopia?”, perguntou o professor.

Um pouco a contragosto, o outro concordou. As grandes utopias, disse, citando cristianismo e socialismo real como exemplos, só trouxeram catástrofes.

Falavam dois grandes nomes do jornalismo. Me remexi inquieto na cadeira. Não de contrariedade. De alegria, feliz como se premiado com cupons de sashimi. Não que eles fossem assinar embaixo do que vou dizer neste texto. Seria muita pretensão minha. Alegria, digo, porque legitimaram uma hipótese com a qual simpatizo há muito – mesmo sem traduzi-la tão bem quanto eles.

Sempre cismei com “microutopias”: crença na mudança de círculos menores, mais próximos de cada um; ações pela ampliação da ciclovia do nosso bairro, não ideias irreais contra a existência de carros; trocas simpáticas de conhecimento, não dirigismo cultural; preocupação em não desmerecer os avanços palpáveis que temos, para não perdermos parâmetros e estímulo; mais surtos de contraculturalismo, mesmo que não consigamos erradicar as rotinas burocráticas das nossas vidas.

Faz sentido falar em “microutopias”? Sim e não. Duas definições do Houaiss conceituam utopia como “qualquer descrição imaginativa de uma sociedade ideal, fundamentada em leis justas e em instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas com o bem-estar da coletividade” e “projeto de natureza irrealizável; ideia generosa, porém impraticável; quimera, fantasia”. No primeiro caso, o problema está em “instituições político-econômicas verdadeiramente comprometidas…”, uma expectativa muito mais para macro que micro. No segundo caso, o problema é com “irrealizável, fantasia”. Porque claro, quem restringe expectativas a universos menores tem certa chance de enxergar resultados. O oposto de “seja realista, exija o impossível”, a contraproducente pichação de 1968.

Acredito na mudança de círculos menores, mais próximos de cada um; em não desmerecer os avanços palpáveis que temos, para não perdermos parâmetros e estímulo

Mas há definições diferentes, como a do sociólogo húngaro Karl Mannheim (1893-1947) no seu livro Ideologia e utopia, de 1929. É o caso de um “projeto alternativo de organização social capaz de indicar potencialidades realizáveis e concretas”, contexto em que esperar menos não deixa de ser visto como utópico.

Alheias a isso, utopias como o socialismo real se mostraram cegas diante das individualidades, da complexidade das expectativas. Os sacrifícios de milhões em nome do todo só deram frutos para minorias, enquanto o capitalismo, mesmo repetindo isso em certa escala, fez progredir mais o todo – a ponto de, em muitos países, já podermos pensar mais em mudanças possíveis do que em revoluções.

Não quero, com isso, dizer que há algo irreparável em andamento. Sei que pequenas ações podem ser sinônimo de conformismo ou expectativas medíocres. Além disso, pela própria lógica de “micro” as microutopias estão restritas a seres tão dispersos quanto felinos ou ateus, pessoas que comparecem à mesma mobilização promovida via Facebook mas se dissipam em vários outras questões sociais – resultado inevitável daquela ausência de um grande objetivo comum.

Mas com as microutopias pelo menos debatemos em novos termos, sem clichês políticos anacrônicos. Não há mais A Causa, mas infinitas causas, com todos os prós e contras implicados. No fim, me parece algo razoavelmente positivo – e é algo que devemos, sem dúvida, às lutas encarniçadas do passado.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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