On the road DINAMARCA2

Publicado em janeiro 19th, 2012 | por Thiago Momm

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A AVENIDA DOS 30

E então 32. Hoje. Recomeçar é preciso. Dar nova chance aos outros eus. Porque somos vários, como aprendi lendo um antigo dramaturgo italiano nobelizado, Luigi Pirandello, e como desconfiei uma vez, discordando de mim mesmo.

A tendência, nós sabemos, é que o eu bundinha boie com cada vez mais facilidade, aos outros eus restando nadar lá embaixo e mandar para a superfície suas bolhas silenciosas. É nessas horas que sonho com plebiscitos oficiais. “Você concorda que ser um bundinha se torne a medida máxima dos tempos, ficando os grão-bundinhas com a respeitabilidade máxima e os menos bundinhas com fama de ressentidos anacrônicos?”. Assim consultado, nego talvez discorde. Mas é tacitamente concordando que a gente vive.

Vá entender.

“Hoje os jovens dizem: ‘Minha mãe é minha melhor amiga’. Que arte pode sair dessas pessoas?”, cuspiu outro dia no deserto a inquieta Camille Paglia, tipo de pessoa que chamamos enojadamente de intelectual. Inclusive foi do que enojadamente me chamou uma loira de pescoço fino e cabelo na altura dos ombros com quem tentei, por muitos meses, sem sucesso, a quarta base. Isso nos idos de 1996, eu 16, ela 15 e muitos pôsteres dos Backstreet Boys e dos Hanson nas paredes do quarto. Uma menina de nariz um pouco adunco, aos olhos do universo entre regular e feinha, mas com aquela carência de sexo oposto que as bonitas demais raramente exalam. Prazeres diferentes. O de benfeitor e o de apreciador.

Concentrado e com a luz apagada, sempre consegui ignorar a presença impressa dos efebos afeminados, me mantendo apto para o que viesse. Só veio a segunda base. Só que com aquela emocionante descoberta goiaba de que existe uma segunda pessoa no mundo disposta a puxar o elástico da sua cueca (naquela tempo, samba-canção). E foi cinco anos depois, uma tarde na academia de musculação em comum, que a reencontrei e falei empolgado sobre a faculdade de Jornalismo, livros, essas coisas, para ouvir de volta.

– Você é muito, ui, sei lá, intelectual.

Que mundo. Eu havia acabado de colocar 25 quilos de anilhas em cada lado do supino e de avaliar, nos espelhos, o desenho das minhas panturrilhas. Sartre fazia isso? Os livros lidos, uns seis a oito por mês, só estavam ocupando um tempo que antes pertencia ao Winning Eleven. Mas a mudança de hábito nem tinha sido por genuína vontade de saber: era mais a água batendo na bunda, a dor ensinando a gemer, o desespero de ter entrado na avenida dos 20 anos espantosamente ignorante de quase tudo o que os professores diziam – e na avenida dos 30, me alertavam, minhas panturrilhas não fariam muito por mim.

Que mundo. Eu havia acabado de colocar 25 quilos de anilhas em cada lado do supino e de avaliar, nos espelhos, o desenho das minhas panturrilhas. Sartre fazia isso? Os livros lidos, seis a oito por mês, só ocupavam um tempo que antes pertencia ao Winning Eleven

Aos 3 anos, John Stuart Mill leu Esopo no original. Aos 4, García Márquez disse “o belga não vai mais jogar xadrez” depois de ver morto um amigo com quem seu avô jogava. Eu, tudo que fiz foi grifar essas informações com caneta marca-texto amarela quando elas apareceram em livros na minha frente, na tentativa de parecer casualmente culto mais tarde.

Aos 6, conta minha mãe, briguei com dois moleques na escola e contei em casa: “Mãe, hoje teve uma briga de dois contra um. O problema é que eu era o um”. Uma frase beirando o banal. E isso provavelmente açucarada pelo amor de mãe, a lambeção da cria. Aposto que eu nem mesmo disse o “o problema”.

Corta de volta para os eus.

Leio no incrível Liberdade, romance do norte-americano Jonathan Franzen. “Essa não era a pessoa que ele pensou que era, ou a que teria escolhido ser se fosse livre para escolher, mas havia algo confortante e libertador em ser alguém real e definitivo, em vez de uma coleção de sujeitos potencialmente contraditórios.”

No que Franzen bate de frente com a defesa de Raul pela metamorfose ambulante. E no que concordo muito com o gringo. Deve haver incontáveis vantagens em ser alguém mais harmônico, menos dividido, menos um ringue de sujeitos potencialmente contraditórios.

Mas e agora, José, se a gente não escolhe o que é? Meus eus não só se manifestam o tempo todo como potencialmente porra nenhuma: eles são e têm o orgulho de ser bastante contraditórios. Uma merda.

O eu mais na superfície hoje tem aversão a esse churrasco de sunga branca, tênis de mola e sertanejo universitário com volume para cinco quadras que é o Brasil; em texto, se permite o uso do “eu”, mas um pouco envergonhado, buscando o que há de útil para os leitores nesse apelo à primeira pessoa; na vida social, tem se policiado para escutar mais aos outros; aprecia a vida caseira e espartana; se sente enganado quando compra a maioria das cervejas e chocolates nacionais; gosta de mulheres com bundas pequenas e acha que toda carnuda está fadada a se tornar uma futura Fred Flinstone, aquela mãe de família com cabelo curto e vestido revelando os braços roliços; este eu busca o convívio de pessoas alternativas, e quando essas mostram horror a Michel Teló ou micaretas, dificilmente se atreve a discordar.

Mas no fundo ele discorda um pouco. Que direito tem o eu-32 de projetar sua idade sobre os mais novos? O eu-23 estava na massa; teve todo o conforto de pegar a mesma corrente que milhões de pessoas, e ainda assim soube ter peculiaridades, misturar Dostoiévski com Asterix e Só Pra Contrariar na mesma madrugada no boteco; algumas vezes foi um esquisito fazendo isso, mas teve a dignidade de nunca abandonar os livros; foi muito além das expectativas do tímido eu-14, viajando por tudo, criando uma improvável fama de canalha bem-sucedido, sabendo a hora de se fingir burro, colecionando centenas de histórias improváveis e politicamente incorretas que o mundo banana tem prazer em podar.

O eu-23 entendia Mencken: “Imoralidade: a moralidade daqueles que estão se divertindo mais.”

Se me ouvirem falando mal de Ai se eu te pego (e vocês vão ouvir), favor mandar meu bundoso eu-32 para a puta que pariu

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



7 Responses to A AVENIDA DOS 30

  1. Bruno says:

    Quando terminei de ler “Liberdade”, pensei que não tinha gostado do livro. Alguns dias se passaram e eu não conseguia tirar os personagens da cabeça e imaginar como a vida deles teria seguido em frente. Assim criei um novo conceito para avaliar se gostei ou não de um livro.
    Belo texto!

  2. Luiz Deretti says:

    Estou nos eu-50, e todos os eus que você comentou, estão vivos dentro de mim. Uma maravilha ser todos eles.Parabéns pelo texto.

  3. Nilson says:

    O meu eu-23 sonha eu chegar aos 32 escrevendo bem desse jeito.
    Parabéns, Thiago.

  4. Thiago says:

    Cheers, Marcelo! Em breve tem mais, a ideia é dar sequência sempre com essa pegada.

  5. Marcelo says:

    Parabéns!!!
    Outro dia eu comentei em um post de uma das meninas que aqui escrevem: o eu nunca é o eu-solitário. O meu-eu, e me atrevo a dizer, nosso-eu é formado por diversos eus com influências diversas de outros eus.
    Seu texto é extraordinário. O meu eu-27 se identica totalmente com o seu, talvez nossas influências tenham sido semelhantes. Mais uma prova de que somos conjunto de um todo. Em fim, parabéns, nós (eus) não estamos sozinhos. hehehe. Talvez seja por isso, a dificuldade que temos de nos conceituar. Somos um conjunto contraditório de eus. Esse sou eu, somos nós – “eus”.
    Parabéns novamente!!!

  6. Thiago says:

    Que honra, Mr. Gabriel, pela leitura. Pois é: o senhor é bem menos casmurro que eu. Mas bora virar um projeto texto-foto aí que eu já rejuvenesço!

  7. Gabriel Rinaldi says:

    O meu eu-28 chegando no meu eu-29 ainda joga Winning Eleven.

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