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Publicado em outubro 10th, 2012 | por Thiago Momm

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A FALTA DE FITZGERALD

Está previsto para o final deste ano um novo longa-metragem de O Grande Gatsby, romance de 1925 do escritor norte-americano Scott Fitzgerald (1896-1940) que teve sua principal versão filmada em 1974, com Robert Redford e Mia Farrow no elenco, Francis Ford Coppola como roteirista.

O romance é considerado o mais importante de Fitzgerald e figura no top 100 da Modern Library como o segundo melhor de todos os tempos. A história gira em torno do milionário Jay Gatbsy, embora quem a narre seja o seu vizinho e veterano da Primeira Guerra Nick Carraway, um ponto de vista que reforça o mistério em torno do personagem-título. O tema do romance é, sobretudo, a prosperidade da elite americana regada a álcool, festas, ideais aristocráticos e a firme resolução de jamais envelhecer. “A juventude, infelizmente, não é uma condição permanente da vida”, disse certa vez Fitzgerald.

Se nos EUA ele já foi um tipo incomum de escritor, no Brasil seria quase impensável. Tendemos a recompensar melhor os artistas que descrevem a penúria e melhor ainda os que as vivenciam. À parte o fato de ter ficado no vermelho em certas épocas por alcoolismo, festas sem-fim e, mais tarde, pela doença de Zelda, sua mulher, Scott Fitzgerald não se encaixava muito no perfil. Segundo registro dos seus impostos da época ele – além de escritor um grande colaborador de Hollywood – ganhava o equivalente a algo entre US$ 20 mil e US$ 40 mil mensais hoje. Há, porém, divergências sobre a conversão, como se pode ler neste texto sobre a vida econômica do autor.

Com os ricos e muito ricos como tema, o autor deixou muito mais que estereótipos. Se os seus personagens revelam frustrações ou mesmo, eventualmente, uma existência maldita, isso acontece pelos sopros fortuitos do acaso, por serem demasiado humanos, não para suprir expectativas vingativas do público em relação aos endinheirados. Os aspectos positivos de ser “um eleito” também estão, para quem não ler com olhos viciados, tanto em O Grande Gatbsy como em Suave é a noite, Os belos e malditos, Este lado do paraíso e os 24 contos de Scott Fitzgerald, uma seleção de Ruy Castro, a coletânea que melhor representa, em português, parte dos aproximadamente 160 contos escritos por Fitzgerald.

“Vou lhe contar sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você. A riqueza faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros”, escreveu Fitzgerald

Os contos, aliás, compõem um amplo painel sobre o universo dos muito ricos. Há o preço pago pela cupidez no irônico Um diamante do tamanho do Ritz. Há o conto que diz: “Vou lhe contar sobre os muito ricos. Eles são diferentes de mim ou de você”, já que a riqueza, entre outras coisas, “faz com que sejam suaves naquilo em que somos duros”. Nem por isso os ricos dos contos são uma coisa só.

Em ordem cronológica, as histórias evidenciam as mudanças de perspectiva de Fitzgerald ao longo dos anos. Os escritos no começo da década de 1920, portanto nos seus 20 e poucos anos de idade, trazem os picos de idílio, sutileza, auto-confiança, bem-estar, festas, riqueza, cosmopolitanismo e contentamento com a vida, contrastados por alguma melancolia e tragédia. Nos contos de meados e final da década de 1930, época em que Zelda foi internada e Fitzgerald pagava o preço dos excessos alcoolicos e notívagos, a alta sociedade aparece mais distante e amaldiçoada. É algo que ele não consegue evocar afetivamente sem algum rancor.

Ao publicar Gatbsy em uma coleção, a Folha de S.Paulo trouxe Danuza Leão falando muito bem, na orelha do livro, em “euforia e vazio” na história. Uma crítica recente do romance publicada pelo literato Nelson de Oliveira no jornal também aponta a complexidade do livro, mas, vá entender, na hora de titular o texto o redator se saiu com a simplificação “O Grande Gatbsy cria retrato amargo do sonho americano”. Se com tudo que escreveu Fitzgerald quisesse apenas passar a ideia de amargor, não seria um dos maiores escritores americanos de todos os tempos.

Quanta falta não faz, portanto, um Fitzgerald em Jurerê Internacional. Só alguém como ele daria conta de traduzir o universo milionário sem extremismos. Isso porque, mais que complexificar os bem-nascidos, Fitzgerald também tinha tintas vivas sobre aspectos psicológicos universais.

Em uma cena do casal Anthony e Gloria, protagonistas de Os Belos e malditos, o fim do ápice do romance dois dois ganha um trecho memorável: “O idílio deixou-os, fugiu para outros amantes; procuraram-no certo dia e havia desaparecido sem que soubessem como”.

Ou esta passagem, mais ambiciosa: “É aos 20 anos que o impulso real da vida começa a reduzir-se, e somente para as almas simples as coisas têm, aos 30, o mesmo significado e sentido de dez anos antes. Aos 30, o tocador de realejo é um homem mais ou menos desgastado que toca realejo – embora já tenha sido um tocador de realejo! O estigma inequívoco da humanidade atinge todas essas coisas impessoais e belas que somente a juventude percebe em sua glória impessoal”.

Cirúrgico. Um retratista da elite com poucos concorrentes à altura. Scott Fitzgerald, senhoras e senhores.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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