On the road Backpackers (6)

Publicado em maio 22nd, 2012 | por Thiago Momm

ALBERGUES

No primeiro dia, você pergunta na recepção do albergue se eles alugam toalha de banho. O magrelo alto de uns 25 anos com gel, barbicha e camisa faz balanço de caixa e coloca, no balcão, o aviso pronto a caneta: “Cinq minutes”.

A solução é matar tempo na internet, contando em emails sem acentos que você chegou bem, apesar de ter voado no avião mais detonado e polifônico do mundo. Mais algumas peculiaridades para cada destinatário e muito tempo se passa. Mas agora o magrelo da recepção está ocupado com outra coisa e coloca o aviso: “Dix minutes”.

Com o mesmo sadismo, o albergue mantém os hóspedes fora entre 11h e 15h e uma faxineira que desconta suas frustrações de sono, metrô, metrópole e vida nos desavisados. Café da manhã acabando, antes de raspar o prato você pede um segundo suco de laranja. “Pas de jus d’orange!”, berra a mulher, negando o suco e virando sua bandeja com força no lixo. Um dia, um russo que ela especialmente detesta a pega pelas mãos e a faz dançar. Os hóspedes aplaudem.

Albergues são o melhor lugar do mundo. Recuperam ou reforçam nosso senso coletivo. Nos injetam uma perspectiva cosmopolita na veia. Lembram que há protagonistas mais importantes que o conforto nas viagens

Mas estamos em Paris e isso é uma exceção. Albergues são o melhor lugar do mundo. Já me hospedei em pelo menos 40 deles. Albergues recuperam ou reforçam nosso senso coletivo; nos injetam uma perspectiva cosmopolita na veia; nos lembram que há protagonistas muito mais importantes para as nossas viagens do que o conforto.

Não se trata de enaltecer cobertores de exército, banheiros antigos, fiapos de esponja, detergentes aguados. Muitos albergues, inclusive, já estão pouco ou muito além dessa atmosfera franciscana. Um de Berlim só permite acesso aos andares com cartão magnético e oferece, entre outras pretensões, uma casa noturna no subsolo.

Nem lá, no entanto, o conforto se sobrepõe à sociabilidade. A regra de ouro dos bons albergues é estourar as bolhas pessoais. Em Arraial d’Ajuda, quartos, redes, varandas e cozinha ficam imediatamente em volta de uma piscina. Na Vila Madalena, em São Paulo, noites com samba aceitam visitantes e são promovidas no amplo hall de entrada.

Em vários albergues aqui ou pelo mundo, um único espaço condensa computadores, TV, videogame, bar, cozinha, mesas, pufes, sofás, estantes de livros, geladeiras que vendem bebidas, sinuca, pebolim, jogo de dardos, fotos e vários outros penduricalhos. Tudo de maneira vagamente organizada. O que importa é misturar interesses para misturar os hóspedes. Daí, claro, surgem o senso coletivo e a perspectiva cosmopolita. Em dois minutos, você, o indiano e a belga sentados próximos decidem sair para perambular juntos por Istambul. É a oportunidade de aprender sobre três países passeando por uma só cidade.

Voltando à questão do conforto, insisto que não se trata do enaltecimento da vida frugal. Albergues podem até nos tornar mais mundanos, menos entojados, mas, lugares de fauna variada que são, não têm isso como um propósito declarado. O que está implícito é dar mais atenção às pessoas que as coisas.

Já me hospedei, fora, em um hotel que herdou a estrutura de um antigo palácio. Toalhas de metros, café da manhã sob um pé-direito de mais de 15 metros, um lugar nababesco, saído de um conto do Fitzgerald. Mas estava apenas bom. Sim, o paladar agradeceu. Mas minha expectativa maior era angariar almas e sair pela cidade. Depois daqueles sorrisos corteses de bar de hotel, minha noite estava regada a bons vinhos e conversas respeitáveis. Um saco. Até os 30 ou 35 anos, vale exigirmos mais dos contextos que do conforto.

Tags: , , ,


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



Subir ↑