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Publicado em setembro 25th, 2012 | por Thiago Momm

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ARMADILHA

“Don’t grow up, it’s a trap” (“Não cresça, é uma armadilha”), está escrito em letras grandes em uma foto que circula pelo Facebook.

Muito sensato. Aliás, irretocável. Fosse alcaide, eu fixava uma placa com a frase em cada esquina. Quem sabe com variações, “Crescer é superestimado”, “Cuidado, crescer é irreversível” ou “Só cresça se não tiver nada melhor para fazer”.

Talvez o que disse Oscar Wilde n’O Retrato de Dorian Gray: “A tragédia da velhice não é que alguém seja velho, mas que haja alguém jovem”. Talvez Simone de Beauvoir: “A velhice é a paródia da vida”. Ou Scott Fitzgerald, que no romance Os Belos e Malditos delimitou os 20 anos como a época em que “o impulso real da vida começa a reduzir” e um dia suspirou que a juventude, “infelizmente, não é uma condição permanente da vida”.

Sim, eu sei. Crescer tem benefícios. Poréns fazem crescer. Idade nunca deveria ser motivo de vergonha. Insistir em (se) enganar sobre os anos vividos é um desespero patético. Contrariar-se com o crescimento pode ser um romantismo traiçoeiro. Os mais novos deveriam ser menos reverenciados e prepotentes. Tudo verdade, mas nada que modifique o fato de que crescer pode ser uma bad trip irreversível.

Um dos piores sintomas: perder o contato com as ruas. Você é novo, 14 anos. Molecada reunida na frente do prédio ou em permanentes explorações pelo bairro. Tudo importa, cada metro da cidade tem vida. Do cheiro de grama recém-cortada à irregularidade dos paralelepípedos. Muito lúdico? Pode ser também uma adolescência no caos de um grande centro urbano. O importante é que se caminha muito mais, há muito mais contato com a cidade, absorção de minúcias.

Corta para a vida adulta. Pela mesma rua em que despendia horas você agora passa rápido de carro, ansioso para chegar a um compromisso. Pior ainda em dias bonitões, aquele céu aberto dizendo que em algum lugar alguém deve estar aproveitando melhor.

O sinal fecha, você abre o vidro e observa. Há toda uma cidade acontecendo a pé. Qual a última vez que você usufruiu de uma praça? Talvez as pessoas ainda entrem nas padarias, comam sem pressa, caminhem sem objetivo. Há relatos

O sinal fecha, você abre o vidro e observa. Há toda uma cidade acontecendo a pé. Qual a última vez que você usufruiu de uma praça? Talvez as pessoas ainda entrem nas padarias, comam sem pressa, caminhem sem objetivo. Há relatos. Aliás, talvez eu mesmo tenha feito isso outro dia. Plena terça-feira, acho. Mas com tanto trabalho acumulado que a Culpa dividiu a mesa comigo.

Tentei acalmá-la com um folhado e um expresso. Não rolou. A Culpa é um bicho feio. Um gremlin versão gigante. Quando você assume tarefas maiores, a cada 10 minutos o bicho incomoda. “Namorada e filme na segunda à tarde? Isso só na faculdade”, diz.

Outra coisa? Sociabilidade. Novo, todas as semanas você tem dois futebóis, um tênis, um curso de línguas, a balada, a universidade, as matérias optativas em outros centros, o estágio. Ou seja, há um tanto de contato real com 79 daquelas centenas de amigos do Facebook. Resultando no quê? Em variações do cotidiano. “Depois de uma idade os anos ficam mais parecidos”, me disse um amigo escritor de São Paulo. O gremlin não diria pior.

Sim, tudo isso é forçar um ponto de vista. É bem possível que qualquer dia eu me contradiga. Refeições caseiras, músicas do iPod, sexo, muita coisa é melhor mais tarde do que na segunda década de existência.

Mas hoje é dia de espinafrarmos os crescidos. Como o chefe dos advogados de um escritório onde estagiei. Reunião no começo de semana, ele se pôs a discursar sobre produtividade. Certa altura, disparou: “E essas pessoas caminhando à toa pelo Centro à tarde? Nada para fazer?”

Desde então, nunca mais consegui acreditar nessa gente crescida toda por aí.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to ARMADILHA

  1. Jerônimo says:

    Voilà. Agora falta um belo texto sobre a beleza de envelhecer, será que alguém se arrisca?

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