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Publicado em fevereiro 11th, 2011 | por Thiago Momm

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BÍPEDES INGRATOS

Condição humana.

O que quer dizer esse maldito clichê de cadernos de cultura? Nunca entendi. Ou talvez tenha entendido muito bem.

“Condição humana” é um conceito geralmente relacionado à consciência “da morte”, “da brevidade da vida”, “da inutilidade do ser”, “do sofrimento humano”, “do absurdo da existência”. Diferente das focas, dos pumas e dos ursos polares, sabemos ter fim. Estamos cientes de que esfriaremos debaixo da grama de algum cemitério. Alguns inclusive admitimos que não há propósito definido antes, durante e depois desse resfriamento.

Logo, viver seria inútil, absurdo e sofrível – embora tenham esquecido de avisar esse moleque que fotografei em Bombinhas no último final de semana.

Mas é o atestado do escritor com grandes aspirações se mostrar perplexo e angustiado com a transitoriedade das trips individuais pelo planeta. A isso ele mistura uma série de aspectos miseráveis da vida e desova 420 páginas ácidas demonstrando quão capenga é existir.

– Sua intenção é flagrar a condição humana? – pergunta o crítico.

– Sim. Sem dúvida eu quis fazer um panorama do absurdo da condição humana – responde o escritor.

Será que exagero? A busca por “condição humana” no arquivo da Folha de S.Paulo traz 1193 resultados. Isso porque a procura digital só retorna até 1994. Quantos “condição humana” não deve ter sido impressos desde 1921!

Umbigocentrismo

“O absurdo da condição humana”. Sim, a palavra absurdo sempre está envolvida na conversa. As focas que se danem. Mas nós, morrermos?! Eu, aliás?! Acinte! Absurdo!

Não quero parecer um ogro. A acidez gerou livros ímpares como Memórias do subsolo, de Dostoiévski; Todos oshomens são mortais, de Simone de Beauvoir; O mal obscuro, de Giuseppe Berto; Servidão Humana, de Somerset Maugham. Uma breve seleção genial, mas que afunda o mais animado dos seres viventes no sofá.

No mínimo, são grandes romances porque perscrutam o quanto somos umbigocêntricos, e a partir disso potencialmente mesquinhos. Já não resumiu Fernando Pessoa no seu Livro do desassossego? “Vivemos quase sempre fora de nós, e a mesma vida é uma perpétua dispersão. Porém, é para nós que tendemos, como para um centro em torno do qual fazemos, como os planetas, elipses absurdas e distantes.”

Ele e outros grandes escritores, como os citados ali em cima, nos mostraram com uma incrível clareza a estranheza, o caos, o… (tudo bem, eu concedo) absurdo disto: vivemos em sociedade sendo, no fim das contas, fundamentalmente autocentrados.

Mas será que, egoísmo à parte, todas as nossas vidas cabem dentro do clichê da “condição humana”? Podemos colocar no mesmo saco a vida de um literato atormentado e a de um desanuviado surfista havaiano? Sendo mais enervado e complicado que a média, um escritor consegue realmente traduzir um cotidiano bem mais arejado que o seu?

Disse justamente uma escritora, Anais Nïn: “Você não vê as coisas como elas são. Você vê as coisas como você é.”

Fútil mas interessante

Como se sabe, os maiores escritores preferem escrever nas contramarés. Nos maus momentos. Sob angústias, desespero. A felicidade se vive, a infelicidade se transcreve. No que a vida do escriba retoma os trilhos, ele se vê com preguiça de pensar e publicar coisas impactantes.

Posso estar reduzindo as coisas, mas assim talvez haja, no cômputo geral da melhor literatura, uma leve distorção tendendo para o azedume. Poucos se atrevem a escrever um romance mais enaltecendo que problematizando nossa fútil mas interessante passagem pelo planeta. Quem se atreve comete auto-ajudas. Ou atinge um alto nível literário, como Tom Wolfe em Eu sou Charlotte Simmons – mas apanha por causa disso.

Trata-se de um romance sobre vida universitária. Há muita competitividade e baixeza entre os personagens, mas também muita curiosidade, muito tesão em viver. Isso rendeu petelecos dos envelhecidos críticos, não importando que o livro tenha qualidade (no mínimo quase) equivalente ao sério e consagrado A fogueira das vaidades, igualmente de Tom Wolfe.

[P.S.: semanas depois de escrever este texto topei com o seguinte parágrafo do alemão Dietrich Schwanitz em Cultura geral – tudo o que se deve saber (um livro altamente recomendável, longe da condescendência que o título sugere): “A sátira expressava as contravenções da ordem moral da sociedade por meio do esfacelamento das formas estéticas. Tornou-se o estilo dominante da literatura moderna do século 20, que salienta o terror político, a loucura, a alienação, o isolamento e as dores do corpo torturado. É isso que torna a literatura moderna tão deprimente.”]

Pare de reclamar

Lá em cima, fiz questão de falar em “propósito definido” na existência porque nunca entendi o que muita gente quer dizer com “propósito maior”. O que esperam? Que nos enviem mensagens do além dizendo o que fazer para que aí sim a coisa toda passe a valer a pena? A intensidade das nossas experiências, para nós mesmos, não basta?

Em Deus, um delírio, Richard Dawkins tem respostas incríveis para quem vê, na ausência divina, falta de referências morais (o “se deus não existe, tudo é permitido”, de Dostoiévski) ou de estímulo à vida.

No caso da moral, ele demonstra que diversos preceitos se formam por motivos muito além da religião; no caso do estímulo, ele chama nossa atenção para a beleza e riqueza biológica do planeta, da evolução, sugerindo que deveríamos deixar de procurar no além o que já temos por aqui. De qualquer maneira, muita gente insiste em suspirar de tédio existencialista e dar razão a Nietzsche quando nos chamou de “bípedes ingratos!”.

Peralta, Dawkins ainda lançou a campanha “There’s probably no god. Now stop worrying and enjoy your life” (“Provavelmente não há deus nenhum. Agora pare de reclamar e aproveite a sua vida”), em grandes cartazes colados nas laterais dos tradicionais ônibus vermelhos ingleses.

Para aderir, vá a atheistbus.org.uk.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to BÍPEDES INGRATOS

  1. RONALDO DAVID says:

    Mesmo à nossa revelia, aos que pensam introspectivamente e têm independência de pensamento racional, muito de religioso nos cerca, mas os pressupostos legimitimadores transcendentais mudaram de nome, apesar de não mudarem de função. Destituído o divino, há o contrato social em seu lugar, racionalmente elaborado, dando à indole particular normas, diretrizes à conduta, à condição humana como se deseja. (1)

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