On the road casanova2

Publicado em agosto 12th, 2010 | por Thiago Momm

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ALÉM DO MULHERIO

Complexo todo mundo é. Giacomo Casanova (1725-1798) foi mais que isso. É alguém a ser eternamente estudado.

Mas não só pela referência usual às mulheres abatidas. Não por ter se tornado sinônimo de “indivíduo mulherengo” (Aurélio), “indivíduo que se dedica com grande empenho a conquistas amorosas; mulherengo” (Houaiss) ou “indivíduo sedutor, que faz sucesso com as mulheres” (definição italiana original, compreensivelmente mais orgulhosa).

Não por ter tido oito filhos e agradecido a camisinha da época (lavável, reutilizável, feita com pele de carneiro) por não ver com mais frequência reproduzido “o seu rosto por toda a Europa”.

Não. Sua coleção feminina é quase modesta. Segundo seu biógrafo mais recente, o inglês Ian Kelly, Casanova transou com 118 mulheres. Tudo bem, já é um banquete muito maior que o de Woody Allen, que outro dia confessou “não chegar a dois dígitos de exemplares do sexo oposto, vários dos quais recorrendo a técnicas subliminares de hipnose”. Mas o currículo casanovesco não é excepcional, algo que por si só garanta um lugar privilegiado na história.

Depois de ler a biografia de Ian Kelly, Casanova – muito além de um grande sedutor (Ed. Zahar, R$ 49,90), e a própria autobiografia de Casanova, História da minha vida (apenas em inglês, The story of my life, a partir de US$ 12 + envio em amazon.com), fica fácil perceber que sua fama se deve a mais motivos.

O principal, claro, são as mulheres. Se a quantidade não impressiona, a variedade sim. Casanova perdeu a virgindade transando com duas irmãs, foi para a cama com mães e filhas (uma delas sua própria filha), se deliciou com freiras de um mesmo convento e assim por diante. Mas nada disso teria ganhado a proporção de lenda se ele não fosse nascido na República de Veneza, à época não mais no seu auge mas ainda um pouco o umbigo do mundo.

Na descrição de Kelly: “Veneza era a cidade mais densamente povoada da Europa, barulhenta, perigosa. Os produtos chegavam de madrugava, entre as 3h e as 6h, em meio à neblina. Os gondoleiros davam seus primeiros gritos matutinos pelas esquinas e pontes às 8h. Às 7h, os cafés já estavam cheios.”

Alpinista social

Estava aí o cenário para que Casanova, nascido filho de uma atriz, ascendesse socialmente (mesmo que parecesse, à Inquisição veneziana, “algo entre um parasita, um alpinista social e um prostituto”, segundo Ian Kelly). De Veneza, Giacomo partiu para o mundo. Formou-se em leis na faculdade de Pádua aos 16 anos (!) e se insinuou em muitas profissões: religioso, violinista, soldado, bibliotecário, tradutor, espião, filósofo, alquimista.

Até o final da vida escreveu 42 livros, além de peças, tratados filosóficos e matemáticos, libretos de óperas, libretos, poemas e obras sobre calendários, leis canônicas e geometria cúbica. Também deixou manuscrita a autobiografia, um caixote de 3800 páginas que a editora  inglesa Penguin, depois de muito tempo, zelo e suor, transformou em pouco mais de 500.

Não fosse suficiente, introduziu a loteria na França, frequentou as principais cortes europeias, protagonizou uma fuga espetacular da prisão do Palácio Ducale, em Veneza, pela Ponte dos Suspiros, e foi um grande viajante. Conheceu mais de 20 países europeus nos tempos em que um dia de viagem significava uma hora das nossas viagens hoje. Foram estimados 64.000 km em carruagens que mantinham, como a de Paris-Lyon, a média de 8 km/h.

Logo A história da minha vida, a autobiografia, é, entre outras coisas, um esmiuçado relato do que é viajar Europa afora no século 18. Os itinerários de viagens se resumiam ao Grand tour, que surgira por volta de 1660 e focava mais a França, a Itália e certas regiões da Alemanha e da Suíça. Muito mais inquieto que os grand tourists que o escreviam, Giacomo Casanova pegou carona, foi assaltado, viajou com nobres e cortesãos, navegou em navios de escravos para Corfu e Istambul. Invariavelmente, claro, assediando as mulheres ao seu lado nas escuras carruagens públicas.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to ALÉM DO MULHERIO

  1. Marcelo says:

    Muito bom. Mas parece que está sem final, é proposital? Ou virão posts sobre o tema ou a ideia era aguçar a curiosidade. Se sim, o intento foi alcançado. Parabéns, mais um post muito bom.

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