On the road 3porcento

Publicado em setembro 28th, 2011 | por Revista Naipe

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COMPRE MAD MEN

Leio uma matéria sobre seriados nacionais de baixo orçamento feitos especialmente para a internet.

Em um episódio do gaúcho Tem um cara nos seguindo, um amigo fala ao outro do seu apego a um salgadinho. Esse apego o transtorna. O vídeo tem seus momentos.

Outro seriado, 3%, é feito em São Paulo. A produção é muito mais ambiciosa: dezenas de pessoas estão vestidas iguais, de cinza, escutando um líder em uma plataforma. A cena parece uma metáfora de uma seleção de trainees. “Agradeçam aos senhores do lado de cá por deixar vocês passarem para o lado de lá. Digam ‘obrigado’, senhores”, discursa o líder, que segue: “Mas vocês têm apenas uma chance para passar para o lado de lá.”

Procuro uma almofada para colocar entre mim e a tela do computador. Constrangimento. Aquele pensamento anacrônico-apocalíptico-simplista brasileiro, que vai sobreviver à última barata do país, chegou ao YouTube. Em um processo mecânico, os candidatos seguem em fila, tratados como gado. Uma menina pede para ir ao banheiro. Ouve um não.

A inspiração da cena parece ser 1984, de George Orwell. Temos inclusive a protagonista que pensa diferente, que não adere ao fluxo.

Sem dúvida nos sentimos gado em processos como os de trainee. Mas daí a dizer que temos “apenas uma chance para passar para o lado de lá” e que até banheiros são proibidos – bem, daí é o caso de criar aquele velho inimigo único que tantos precisam para justificar suas frustrações.

Ou não há frustração nenhuma, apenas cinismo: para passar sua mensagem adolescente, o produtor de 3% conseguiu R$ 250 mil do Ministério da Cultura (baixo orçamento?!).

Nenhuma leitura iria melhor a esse diretor, aliás a todos nós, do que O culto do amador, de Andrew Keen. Empresário pioneiro do Vale do Silício, um dia Keen se deu conta do embuste que é o endeusamento de jornalistas, cineastas, publicitários, músicos amadores se proliferando na internet.

Alguns resmungos carregados demais à parte, o livro corrige uma década de avanço não diagnosticado da nossa hipermetropia.

Ou não há frustração, apenas cinismo: para passar sua mensagem adolescente, o produtor do seriado 3% conseguiu R$ 250 mil do Ministério da Cultura

Cai o nível das produções, cai o nível de exigência do público – e todos se entendem. O ciclo é cruel: 1) Baixamos de graça o seriado (filme, disco, livro) feito por profissionais de verdade. Há menos dinheiro para o próximo, equipes diminuem, a qualidade despenca. 2) Os amadores entram nas brechas com as suas produções. 3) O público não reclama. Tanto por falta de referências (nos cinemas, há recordes de remakes preguiçosos) como porque logo ele mesmo também vai, “finalmente”, mostrar o seu talento na internet.

Pior ainda, há todo o lindo discurso democrático por trás. Não enxergar as maravilhas do amadorismo (não elogiar a inspiração literária daquela sua amiga médica no Facebook) é mau humor, elitismo cultural e assim por diante. Mas imaginem um repórter que, além de ignorar a base do jornalismo, nunca venha a ter um mísero chefe – não uma caricatura de 3%, mas apenas alguém que está há mais tempo na profissão e tem coisas úteis a transmitir.

“Já que eu não passava em nenhum teste, fiz uma série para mim”, zomba um dos atores de Tem um cara nos seguindo. Pois é. Enquanto isso o premiado Mad Men, talvez o melhor seriado que já existiu, teve o início da quinta temporada atrasado por questões financeiras.

Todos acham Mad Men genial, ninguém quer pagar. Eu também assisti aos 52 episódios filmados de graça. Mas o remorso é demais, e me comprometo aqui a comprar, até o final do ano, a série completa. Me cobrem. Façam o mesmo.

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6 Responses to COMPRE MAD MEN

  1. Fezinha says:

    AI gente…vamos comprar Mad Men :)

  2. Júlia Eléguida says:

    Acho que me expressei mal com o tal “jabaculê”, usei no sentido de me intrometer na conversa alheia, muito mais pela sonoridade da palavra do que pelo significado. Tenho que evitar esta mania de inventar outros significados para as palavras, pois o meu texto não era para ser uma provocação a ti, escreves sobre o que quiser, e sim um reforço ao texto, nesta busca pelo que gostamos e sentimos prazer. Estou aqui nesta angústia pela próxima temporada de mad man, e já sinto os sintomas, dei a inventar palavras.

  3. Thiago Momm says:

    Ô Júlia
    Pô, muito bem colocado, mas que loucura falar em “jabaculê”, hein? Eu teria assistido por algum interesse pecuniário? Esquisito. Enfim. Minha série favorita (e de muita gente), Mad Men, está parada pelos motivos que estão no texto – indiretamente, a glorificação de concorrentes amadores. Claro, cada um consome o que quiser, mas vale a pensata, não?
    De qualquer maneira, em geral sou muito mais do teu posicionamento, mesmo: sem tempo para as coisas ruins. Pode procurar que tu vai encontrar muito mais dicas que antidicas na Naipe.
    Abs!

  4. Júlia Eléguida says:

    Eu me metendo no jabaculê alheio, mas se o negócio é ruim, para que ser forçado a assistir a tudo? Se um livro é ruim, mal escrito, eu reconheço nas primeiras páginas, não preciso perder o meu tempo, para saber que o fim não será redentor. Neste mundo, desde que o tio gutemberg inventou a imprensa, e a cultura não é mais privilégio para poucos, há um cabedal de conhecimento que eu sinto necessidade de sorver, e não da mais para perder tempo com o ruim. Vá a um restaurante e coma uma comida horrorosa, duvido que você queira repetir. Hedonista sim, e queremos sempre o melhor.

  5. Thiago Momm says:

    Ô, meu caro Moacir. Vi três episódios, meia hora a menos de vida. Aliás mais, somando o outro seriado. Elite mundial? Tanto faz. Nunca há só uma chance, e segue soando conspiração adolescente. E aquele “obrigado, senhor”? Ê Brasil!

  6. Moacir Grande says:

    Você assistiu a 10 segundos de 3% e se achou no direito de criticar? O seriado fala sobre uma elite mundial, escolhida por seleção dos 3% melhores, não tem nada a ver com uma seleção de trainées. Deixe de ser preguiçoso e ao menos assista tudo antes de proferir qualquer sentença.

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