On the road cores

Publicado em junho 26th, 2010 | por Thiago Momm

1

CORES DE SÁBADO

À medida que vivemos precisamos de mais para nos emocionar; isso é natural, mas não pode ser atenuado?

Algumas coincidências fazem de hoje um ótimo dia. É sábado, é junho, o tempo está excepcional: quem contemplou Florianópolis a partir de qualquer mirante final da tarde, por exemplo, viu uma paleta de cores muito mais complexa que na maioria dos dias do ano. A vivacidade dessas cores – do Atlântico tendendo para o ciano às gradações de fogo do por-do-sol – me remeteu a um assunto pouco comentado: o desgaste das nossas experiências.

Nossas experiências, claro, se desgastam com os anos; aos 15 captamos muito mais detalhes do cenário à nossa volta que aos 25 – como se mais novos registrássemos o mundo com a lente de uma câmera profissional e mais tarde com a de uma digitalzinha qualquer. Dirigindo pela manhã abri a janela e me deixei absorver pelos detalhes do asfalto, a polifonia da rua (muito mais agradável sábado que dias de semana), os diferentes focos do sol pelos bancos do carro. Há muito, justamente pelo desgaste da experiência, não captava as coisas com tantas nuances.

À medida que estamos mais dias no mundo precisamos de mais para nos emocionar. Nosso aspecto psicológico (e, consequentemente, a vivacidade com que enxergamos as coisas) esmaece. Isso é natural. Mas não pode ser atenuado?

A minha geração (tenho 30) e a seguinte têm muito mais possibilidades que as anteriores. Se para o seu bisavô imigrante uma viagem de navio foi a viagem da vida, seu avô talvez tenha feito algumas viagens com a aposentadoria (estima-se que, até as primeiras décadas do século 20, metade da população mundial nunca saía da cidade em que nascia).

Sob circunstâncias mais favoráveis, você provavelmente conhecerá o exterior antes dos 25 anos, dominará mais idiomas, explorará mais o planeta. Muito além do campo de viagens, também terá mais experiências sexuais, tecnológicas, alimentares, etílicas e assim por diante. É algo certamente positivo, mas às vezes parecemos cansados. Basta perceber como certas crianças de 6 anos se entediam com o excesso de opções de entretenimento para entender o que estou dizendo.

Por isso a importância de sábados vagarosos como o de hoje. É preciso deixar que a vida nos alcance. É preciso reavaliá-la muitas vezes antes de apenas seguir experimentando alucinadamente de tudo, estudando e trabalhando muitas horas por semana – e nas poucas horas fazendo escolhas irrefletidas. Uma vida assim só o tornará um adulto como muitos, repleto de manias e vícios. Não é por outro motivo senão o desgaste da experiência que as pessoas aderem a comportamentos repetitivos: beber, cheirar, ver pornografia virtual, agir de maneira estúpida com os outros, ser egocêntrico, ser um ogro no trânsito. Tudo isso é uma resposta inconsciente ao desbotamento da vida. Ela nos oferece diversas situações antipáticas e respondemos com mais antipatia ainda. Desistimos de procurar alternativas mais leves, interessantes, sagazes, recompensadoras a médio ou longo prazo, e repetimos comportamentos que apenas dão prazer ou alívio imediato.

Minha intenção, embora não tenha ficado clara, não era escrever um texto triste. Pelo contrário, é propor (embora eu deteste esse tom de auto-ajuda) que todos abram o obturador com que têm visto o mundo e captem mais luzes e detalhes de um dia incrível como o de hoje. São 18h35 e uma grande noite estrelada vem por aí.

Tags: , , , , ,


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to CORES DE SÁBADO

  1. Priscila says:

    E não é que nessa brincadeira de dar ibope acabei me tornando uma grande fâ e admiradora dos textos e reportagens desse jornalista que eu mal conheço?

    Suas palavras nos fazem viajar, despertam a imaginação… os textos nos proporcionam divertimento; as idéias, reflexão!
    Meus sinceros parabéns pela ousadia (ou seria cara-de-pau? talvez sinceridade…hehe) e comprometimento com a qualidade do que produz.

Subir ↑