On the road a_la_recherche_du_temp_perd

Publicado em maio 17th, 2012 | por Thiago Momm

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DRAMAS

Os dois se falam pelas janelas de conversa do Facebook.

A evolução do diálogo é sofrível. Ele se mexe demais, não tira as mãos de cima do teclado. Enquanto a resposta dela não vem, ele dá dedadas rápidas e audíveis nas teclas, sem digitar. Todas as tarefas em outras janelas abertas ficam suspensas, ele não consegue mais dividir a atenção. Como ela demora para responder, ele às vezes interpreta isso como desaprovação do que disse e começa uma espécie de errata. Então recebe repentinamente a resposta, aborta sua frase e vê o aviso de que estava digitando desaparecer. Se sente ridículo. Fica se remordendo pelos ditos e pelos não-ditos. Ri demais, de repente é muito formal. Está em transe, não consegue parar.

Mal dá enter e maldiz o que disse. Os dois começam a digitar juntos, ela cede a vez. As respostas dela agora vêm menores e em intervalos maiores. Ele aproveita a sobra de tempo para reler toda a conversa. Desesperador. Depois de um começo equilibrado, digitou bem mais que metade das frases. Está praticamente monologando. Refletindo sobre isso, aos poucos se acalma, cuida de emails do estágio. Fica mais lacônico, confiante, mas até a despedida nenhuma reviravolta.

Aí está um apaixonado do tipo mais lamentável. Como o protagonista adolescente de À sombra das raparigas em flor (foto), segunda parte de Em busca do tempo perdido, de Proust. Recusado por Gilberte, o rapaz se remói por dezenas de páginas na tentativa de esquecê-la. Sua autoanálise é de um alcance e de uma chatice impressionantes. Li o livro duas vezes e passei a caneta marca-texto em várias passagens que um dia espero entender.

Já fui desses sujeitos que, escanteados pela mulher, se apegam à dissecação d’alma descorneada, tentando se apaziguar com palavras, palavras, palavras

Há trechos de desilusão amorosa mais compreensíveis, caso de “E o mais cruel de tudo é que era eu mesmo o artesão consciente, voluntário, implacável e paciente do meu mal”, “A possibilidade imediata de uma reconciliação suprimiria essa coisa cuja enormidade não sentimos: a resignação” ou “E ao ver que me fugia essa ilusão sem que eu tivesse tido tempo de prover-me de outra, sofria como o enfermo que esvaziou sua ampola de morfina sem ter outra à mão”.

Sim, dramático. Em vários momentos, insuportável como bêbado de final de festa. A vontade é chamar o analista de Bagé para aplicar no rapaz um bom joelhaço, quem sabe dar a ele um livro do Pedro Juan Gutierrez. Inclusive era o que teria me feito bem uma época. Já tive, no MSN, situações como aquela do Facebook que inventei aqui. E já fui desses sujeitos que, escanteados pela mulher, se apegam à dissecação d’alma descorneada, tentando se apaziguar com palavras, palavras, palavras (“a geração de vocês”, bem disse um professor meu da faculdade, “não sabe sofrer em silêncio”).

Amores exagerados e contrariados fazem parte do abecedário sentimental. Quem está passando por um, que sofra até o fim. Mas voltar a isso com frequência pode ser, de certa forma, uma escolha, uma preguiça para se avaliar melhor. Azar tem limites: depois de certo ponto, ao longo dos anos, a coisa é conosco.Temos até onde nos inspirar: nos filmes, o convívio costuma ser desprezado, com o casal ficando realmente junto só próximo dos créditos finais. Viver essa adrenalina pode parecer mais emocionante que o cotidiano com alguém, mas depois não reclame de falta de vida real.

Pessoalmente, depois de descobrir os prós de namoros que seguem adiante perdi a paciência com desacertos e dramas. Talvez por isso minha segunda leitura de À sombra das raparigas em flor tenha sido um pouco menos empolgante. Certo que, 300 páginas depois da desilusão, o alter ego de Proust conhece as tais raparigas e se torna um pouco mais objetivo com Albertine. Ainda assim, drama demais. Na primeira leitura, há 11 anos, me identifiquei mais com o personagem.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



2 Responses to DRAMAS

  1. Marcelo says:

    De fato, o desenvolvimento sentimental faz parte do próprio desenvolvimento pessoal. Nada como aprender, sofrer e aprender novamente. Na ocorrência dos dramas, é difícil se tornar assim, digamos, tão objetivo, mas, o pós-dramático pode nos dar muitas respostas e, por fim, foi aquele drama – aquela dor, aquele sofrimento – que nos prepara para um novo, que, com toda certeza, terá características diferentes.
    Como você disse: “amores exagerados e contrariados fazem parte do abecedário sentimental”. Se perder neles, eternamente, não.
    E para lembrar um outro clássico, fico pensando: o que diria o podre e jovem Werther, ao descobrir a não obrigatoriedade do sofrimento???

  2. Foco says:

    Excelente o texto!! Já passei por essa situação e graças a Deus a gente um dia percebe o quanto é ridículo! O drama não irá trazer o ser amado, pelo contrário, vai repelí-lo cada vez mais. Sensacional, vou enviar o texto para o meu mailing.

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