On the road caleidoscópio

Publicado em junho 25th, 2013 | por Thiago Momm

2

EGOTOUR

Meu problema é avaliar os 30 com critérios dos 20.

Isso traz saudosismo. O saudosismo exige um ouvinte. O ouvinte exige bebida. A bebida exige que eu abra mão da noite em andamento para reverenciar as antigas.

Ontem, a ouvinte foi uma conhecida do Facebook, uma estudante de Nutrição com o rostinho sutil de coelho pelo qual os amigos dizem que eu sou obcecado.

“Focar nas coisas dela” foi o meu mantra depois de interfonar, porque venho sendo um nostálgico insuportável. No carro e na primeira hora de boteco, nada errado. Oscilei entre a curiosidade e a cortesia, ouvi o máximo e intervim o mínimo.

Na quinta long neck de cerveja, os primeiros sinais de auto-boicote. “Todo mundo tem dentro de si um parasita que age contra os seus interesses”, diagnosticou William Burroughs. O meu parasita se acende com dois litros de álcool. Comecei a narrar antigos feitos turísticos, festeiros e sexuais, impondo um longo tour guiado pelo meu próprio passado. O tour se estendeu, Rostinho de Coelho se desesperou.

Quanto mais insinuo satisfação com o antes, mais deixo evidente minha insatisfação com o agora. Pareço idolatrar o passado porque desdenho o presente. Foi um bom passado, verdade. Aos 15 abandonei o agasalho de tactel de time de futebol e o espírito pega-ninguém que vestia junto. Desde então sou um desses inquietos que, uma série esperada de fracassos à parte, beija uma desconhecida no meio de um voo, no banheiro misto de um albergue ou nas escadarias do Louvre, e dirige pela madrugada, terminada uma despedida de solteiro, fantasiado com a roupa cinza do Batman da TV.

Quanto mais eu insinuo satisfação com o antes, mais deixo evidente minha insatisfação com o agora. Pareço idolatrar o passado porque desdenho o presente

Enfim, me tornei um “colecionador de começos” (Pascal Bruckner), um apaixonado pelo transcendente no transitório. O que eu não sabia era o quanto, anos depois, tudo aquilo não exatamente evaporaria, mas se tornaria mais um parâmetro que uma lembrança agradável. Ter feito mais exige que se siga fazendo mais. Cabelos brancos precoces e bochechas gordas parecem mais dolorosos para aspirantes a Casanovas e Marco Polos. Devem doer menos em quem usa agasalhos de tactel.

Então os meus acessos de nostalgia podem ser insuportáveis, mas foi justamente um desses que, no boteco, a estudante de Nutrição teve que suportar.

Ficava cada vez mais irritada. Espetando com o canudo os morangos no fundo da saquerinha, só queria escapar daquele petulante autocentrado de 31 anos. Tentou algumas vezes interromper meu egotour, sem sucesso. Até me dei conta disso, mas por que não parei? Porque havia algo nefasto naquele lugar. Todo mundo era mais novo, também os garçons obviamente universitários. Minha imagem no espelho, esperando pela vez no mictório, não ajudava: uma blusa de lã gola v, começos de pequenos ninhos de fios brancos e sim, as bochechas gordas, como se assopradas de dentro para fora.

Voltando do banheiro percebo que a minha mesa é a única com frios, saquerinha e cervejas artesanais, em vez de um navio de batatas-fritas e cervejas nacionais xixi de gato 600 ml. Olhando em volta me senti como Cash, personagem de um conto do John Cheever, com “a impressão de que as pessoas no outro quintal são fantasmas de alguma festa naquele passado onde ficaram todas as suas afeições e desejos, uma festa da qual ele foi cruelmente excluído. Sente-se como um espectro em uma noite de verão”.

Mais que um espectro, um espectro culpado. A culpa de monologar, ser compulsivo, monotemático. De saber que deveria escutar mais, me deixar levar. A companhia de uma mulher bonita deveria me salvar, mas o parasita insistiu que, sendo o passado muito superior, mais valia viajar ao centro de mim mesmo. Não valeu, claro, e agora, duas da manhã, subitamente disparo perguntas. Quero saber de festas, aulas, estágio, viagens – como se um monólogo dela depois do meu formasse um diálogo.

A virada é muito artificial para funcionar. Ela dá respostas curtas e impacientes.

Diante do prédio dela, desliguei o carro e ofereci a mais contrita das versões de mim mesmo. Inutilmente, claro. Ganhei um não, não, a gente vai se falando. Em seguida, dirigi para casa desconfiando que o sentimentalismo latino do Buena Vista Social Club, no mp3, estava de sacanagem. Me prometi fazer diferente nos próximos bares.

É pouco provável que eu faça.


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



2 Responses to EGOTOUR

  1. Rafaela says:

    Hahahahah tão tu essas palavras!
    No início duvidei um pouco quando li “ouvi o máximo e intervim o mínimo” mas logo confirmou-se o que eu esperava! Rsrsrs
    É sempre bom te ler, parece q estamos sentados numa mesa de bar (com cervejas artesanais).

    Abraços amigo (ps: não esquenta com as bochechas)

  2. Marcelo says:

    Kakakaka…
    Mas, pra 31 o desespero não é, ainda, plausível.
    Você me fez lembrar daquela vez da dentista… kakaka…
    Muito boa!!!
    A rostinho de coelho deve ter virado uma raposa depois desse egotour.
    Fala sério, na volta você riu do que aconteceu não? Ou no mínimo disse: “paciência, vamos pra próxima”.
    Ta aí, essa é a vantagem de beirar os 31 – desdenhar o presente -. A se eu tivesse aprendido isso antes… hehehe, mas só se sabe quando estamos perto dos 30.
    Nos resta compreender isso; enquanto alguns nunca largarão o agasalho tactel.

Subir ↑