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Publicado em junho 26th, 2011 | por Thiago Momm

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ENVIAGRADO

Sim, eu dirigi perdido por São Paulo depois de tomar Viagra.

Deitado no carpete da sala, olho para os rodapés. A fila de 150 long necks de cervejas baratas vazias só se interrompe no banheiro e nos móveis. De resto, segue pelos 34 metros quadrados do apartamento. Não lembro por que começamos isso. Talvez tenha sido o ruivo, ocupante do sofá-cama da sala. Muito criativos, os ruivos.

Mas li na revista da National Geographic que a miscigenação vem acabando com a ruivez, a partir do que los pelijorros, the red hairs, les roux, esses excêntricos, podem desaparecer da Terra antes de 2060, a menos que se mudem para a Escócia e parem de se reproduzir com o restante do outdoor da Benetton. Não sendo o caso, em 50 anos estarão nos museus, talvez em espaços contíguos aos dos dinossauros. Coisa triste. Preferi não contar isso para o meu roommate avermelhado. É noite de sábado, vamos sair. Não deve ser fácil cair na balada se sabendo um dos últimos exemplares dos seus pares.

Com sorte devo comer, madrugada adentro, uma das mulheres da minha vida. Isso me apavora. Algumas vezes me apavorou. Freud disse haver homens que “quando amam não desejam, e quando desejam, não conseguem amar”. Em outras palavras, tem homens que ficam menos homens justamente diante das mulheres que amam, e não amam justamente as mulheres que lhes dão as mais memoráveis sem-vergonhices na alcova.

Não encontrei o texto em que Freud colocou isso. Uma pena. Deve ser interessante. Sempre fui desses caras que preferem não visualizar as amadas nos ladrilhos em frente à privada. O universo do onanismo, para mim, sempre foi principalmente o das não-amadas. A distinção é ridícula, eu sei. Nos últimos anos me dei conta disso e fiz o possível para combatê-la. Tive resultados. Namorei mulheres que eu não amava, mas desejava e admirava; com a mesma autocrítica, consegui desejar e ver de um jeito mais mundano mulheres que me sacudiam afetivamente.

A gente aprende, enfim. O que também não quer dizer que ficamos imunes a um novo erro. Eu e o ruivo entornamos meia dúzia de long necks, as enfileiramos no rodapé e saímos de casa.

A little less conversation

Com grandes sacos de lixo pretos, a faxineira tira todas as cervejas das paredes. “Vocês esqueceram de lavar”, diz. “As moscas vieram. Sou obrigada a jogar fora.”

Ela recolhe as cervejas, eu recolho as lembranças da noite passada. Havia um inferninho. O teto era baixo, e o som, estourado. Nem eu nem o ruivo nem uma das mulheres da minha vida pertencíamos exatamente àquele lugar, mas estava bom. Ela dançava amolecida por algumas caipirinhas.

Ela recolhe as cervejas, eu recolho as lembranças da noite passada. Havia um inferninho. O teto era baixo, e o som, estourado. Ela dançava amolecida por algumas caipirinhas.

Se isso facilitava as coisas, eu ainda precisava superar a goiabificação diante dela. Nós já havíamos permutado beijos compridos, mãos nas partes, noites alcoólicas e muitas palavras. Milhares de palavras. Palavras demais. Uma quantidade tão grande que, em vez de gerar entendimento, muitas vezes tinha efeito contrário. Maldita geração psicanalizada. Um dia, no carro, A little less conversation, do Elvis, tocou no rádio. Ela não pareceu ter percebido a ironia.

E nisso éramos amigos há cinco anos, com uma dúzia de tentativas isoladas e não muito bem sucedidas de ir além – a grande ilusão perdida da faculdade. Houve a vez do Corsa embaçado, saída de alguma formatura, os dois breacos, eu intimidado, sem pegada, uma navegação por dentro do sutiã e só.

Houve a vez em que ela me convidou para subir mas mudou de ideia. Houve a vez na pista da balada em que eu não sentia manifestações na minha calça jeans, e bêbada, decepcionada pela falta de encoxadas no balcão, a ladina disparou:

– Nunca esqueço daquela história engraçada que você contou de uma broxada sua!

É o que diz Xico Sá. Não existe Macho Smiles ou coisas do gênero. Ser homem é provar, a cada dia, que não se é inútil. Não importam as milhagens acumuladas. Você é o que ela experimenta. De resto, parece apenas um cara cheio de histórias.

Uma semana antes do inferninho, no entanto, o melhor dos climas havia se instalado. As conversas estavam menores e mais fluentes; parecia haver trégua, serotonina e futuro. Então houve a noite no apartamento dela, o abajur com motivos japoneses como a única luz da sala, surf music genérica ao fundo, eu bafejado pela devida autoconfiança, o chico bento mostrando a que veio nessa vida. Não finalizamos? Não finalizamos, mas sem problemas. Foi dela o nervosismo e o pedido para que não fôssemos adiante. Minha parte tinha sido cumprida.

Guindaste químico

Saída do inferninho. Tudo muito confuso. Completamente bêbado, me apavoro com a possibilidade de paumolescência. Digo que vou à farmácia comprar Trident. Atravesso a rua, volto enviagrado. Ela entra no meu carro. Lembro que o maldito guindaste azul precisa de meia hora para começar a trabalhar. Para minha surpresa, as coisas começam a funcionar sozinhas, declarando independência da indústria farmacêutica.

“Vamos embora”, digo, porque estamos nas proximidades da Augusta, um lugar desaconselhável para se ficar de calças arriadas dentro do carro. Na verdade cogito ficar, mas ela sempre foi mais aristocrática que eu em aspectos sexuais, e de qualquer maneira é melhor que um suadouro tão sacro e esperado não aconteça com joelhos batendo no porta-luvas. “Claro, vamos embora”, ela diz, uma frase que me faz sonhar com um planeta justo, feliz e saudável. Até dos decalques de lua e estrelas fosforescentes do teto do meu quarto de criança eu lembro, não sei muito bem por quê.

– E o ruivo? – ela pergunta.

Não é 2060, ruivos ainda existem e não se pode deixá-los a pé por aí sem aviso prévio. Ou se pode, mas com educação. “Passamos pela frente da saída devagar”, digo, “e caso o ruivo não esteja por ali, ele que se foda e pegue um táxi”.

Mas é claro que ele está. Tanto ele como a roommate da minha cocotinha, uma dupla conspiratória disposta a adiar a nossa há muito adiada fornicação amorosa.

Não sei se a bula nos alerta a respeito, mas todo consumo de baga sexual deve vir acompanhado do seu uso. Se você não direciona o sangue para o seu enlevado destino, o corpo formiga de sangue sem rumo. A maior parte, aparentemente, resolve circular pela testa, que lateja como um dedo recém-topado na pedra. A cachaça, nesse contexto, faz o resto do trabalho: tudo se torna enervante e labiríntico, e dirigindo, você logo entra à direita em vez de entrar à esquerda.

Também não demora para que você entre na avenida errada, insista no erro e o amplie. Sendo escassos os protestos dos bêbados nocauteados no carro, você logo chega a outro bairro, e outro, e outro, cada vez mais longe de casa. Você se pergunta como voltar mas só ouve algo dizendo “reto, reto, reto”. Para o alto e avante. Quando resolve parar em um posto de gasolina para finalmente pedir informações, seu apartamento já está a mais de 40 minutos dali.

Quando estaciono na frente do prédio dela, os números verdes do relógio digital do carro marcam 6:38. As padarias já têm suas mesas nas calçadas, pacatos velhinhos saem dos prédios com para caminhar com os seus cachorros. O sol de domingo entra pelo vidro da frente e deprime os quatro. “Acho que vou ter que te convidar pra subir outro dia”, ela sorri sardonicamente.Em casa, abraço o vaso do apertado banheiro e, segundo o ruivo, passo mal com sons que remetem a algo próximo de um panda apanhando com uma corrente de bicicleta. Complicado. O sono vem confuso, intranquilo, culpado. Às 13h acordo e a faxineira me fala sobre as garrafas nos rodapés. O efeito do Viagra pede que eu olhe melhor para ela. Consigo ignorá-lo.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



2 Responses to ENVIAGRADO

  1. Luiz Neves says:

    Muito boa

  2. Rosi says:

    Thiago Momm em seu melhor estilo, adorei!

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