On the road estocolmo6

Publicado em julho 26th, 2010 | por Thiago Momm

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VIAGENS NÓRDICAS

Eu te odeio por não ter te conhecido antes.

Te odeio porque foi obviamente bom perambular de carro pela Europa nos últimos meses do ano passado, mas com você seria melhor. Você tinha que estar lá nas estradas e estrelas nórdicas, nos pequenos delírios e desabafos, nas poéticas e filosofias vagabundas, no sufoco de uma dúvida, na dor de qualquer coisa (se é que Samuel Rosa e Fausto Fawcett me emprestam essas últimas duas frases, de Balada do amor inabalável, dos anos 90).

Você é detestável porque não estava, por exemplo, naquele navio-albergue em Estocolmo comigo. Sim, o navio era um albergue. Ele ancorado e eu solto na vida, a 11.000 km de casa, contemplando o palácio real sueco a partir de janelas redondas à la Popeye, uma infinidade de luzes à frente; contemplando meus 29 anos e 11 meses de vida a partir da perspectiva de uma trip sem destino, uma infinidade de luzes atrás e à frente. E você não estava lá comigo na popa, na proa, no quarto aquecido, na cozinha do albergue, nas ruas nevadas, nos devaneios, nos passeios pelas ilhas. Eu realmente odeio você por isso. Muito mais do que você pode imaginar.

O balançar vagabundo do navio fazia ondular a iluminação da noite sueca. Em dezembro são 18 horas de escuro diárias. Era incrível, porque era quase como se as luzes fossem suavemente sopradas – ou minha cerveja belga preferida, Duvel, “Diabo” em flamenco, distorcia tudo, causava efeitos assim, como é que a gente vai saber? Mas lá estava mesmo o navio numa margem e uma parte espetacular de Estocolmo na outra, o mar Báltico no meio refletindo a cidade invertida na água. Incrível mesmo. A Duvel tem 8,5% de teor alcoólico.

Tudo bem que uma tal de Marisa Monte canta “Quem foi que disse que é impossível ser feliz sozinho / vivo cantando / a liberdade é quem me faz carinho” e que eu me acostumei à vida de anacoreta. Desculpa, falei difícil agora: anacoretas eram os monges que viviam solitariamente nos primeiros anos do cristianismo – e anacoreta sou eu, dois mil anos depois.

Eu dizia: tudo bem que a solidão às vezes tem valor inestimável; tudo bem que um iPod com 8563 músicas especialmente escolhidas para viajar pode ser ótima companhia. Mas desde que te conheço esse ficar sozinho passou a me parecer nada senão uma antiga espera por você, um longo preparo para nós dois, a demorada ante-sala de uma alegria maior.

Eu não queria me estender. Na verdade preferia não escrever nada, ou escrever algo compacto, quente e embalado como um yakissoba do China in Box – e não esse sushi despedaçado de final de festival aqui.

Não queria me estender para não colocar o peso de belas palavras sobre a gente. Sempre fui de falar e escrever bastante, até que na tua linda e sacra presença lembrei o valor de calar, tatear, ouvir, apreciar; de respeitar o andamento das coisas. Não à toa, me prometi não revisitar nenhuma cidade importante (inclusive aquela que você coloca acima de todas) sem a tua companhia.

E então espero.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



5 Responses to VIAGENS NÓRDICAS

  1. Patricia says:

    A partir de hoje serei uma leitora assídua desse blog. Amei esse texto, palavras essenciais!

  2. micha says:

    “…um longo preparo para nós dois, a demorada ante-sala de uma alegria maior. ” Virginiana que nasceu de 8 meses, não gosta, mas espera… texto perfeito pra conexão mais carinhosa ;)

  3. Fabio Navarro says:

    “A Duvel tem 8,5% de teor alcoólico.” e “,a demorada ante-sala de uma alegria maior.” são tão bem encaixadas dentro do texto que chegam a dar um anacrônico nó na espinha.
    Só elas causam esse tipo de reação. Texto sensacional….

  4. Carol says:

    Eu adoro esse texto, essa nova versão está ainda mais linda (se é que isso é possível).
    Mas também estou curiosa pra saber… quem é essa mulher?

  5. Daniele says:

    Ah louco… quem é essa mulher!?
    Mais um texto: “quebratudo” deste editor que admiro tanto!
    Valeu man!

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