On the road copo

Publicado em setembro 23rd, 2010 | por Thiago Momm

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ESVAZIAMOS?

“Eu sou assim meio… sem escrúpulos, mesmo”, diz o pitéu siliconado à sua frente no bar.

Entre goles de vodca com suco de laranja, ela conclui isso depois contar um patife episódio que envolveu falar no celular com o namorado enquanto um acionado ex descansava no travesseiro ao lado.

“Escrup… o quê?”, você sorri, se solidarizando.

A admissão do escrúpulo zero da moça muito mais comove que espanta. A maioria das pessoas não tem coragem de ouvir palavras assim saindo do próprio gogó.

Ou tem?

Outros bares, outras mulheres – quase sempre siliconadas. “É difícil eu me apegar a alguém”, “Você sabe, sempre fui mais fria”, “Não me vejo mais namorando” etc. Aos poucos, a polifonia das declarações compõe uma intrigante melodia. Não viveríamos a verdadeira era do gelo, o “amor nos tempos do messenger, espécie miojo sentimental, emoções baratas”, como escreveu o ídolo da Naipe Xico Sá?

Talvez. Mas é sempre bom evitar exageros.

“Você poderia ser pior?”

Fraca a carne sempre foi. Frias e desapegadas muitas pessoas (ou todas, em algum sentido) também sempre foram. O que talvez seja mais ou menos novo seja a falta de estímulo para remar contra isso  em nome não de caretice ou moral nenhuma, mas de um benefício que ignoramos cada vez mais. Lembram que Gabriel García Marquéz chamou a galinhagem de “a forma mais árida de solidão”, e Vinícius de Moraes, o amor de “a verdadeira malandragem”?

Aos oito meses de namoro você pode acordar um pouco enjoado da pessoa ao lado. A partir disso, a tendência agora é já terminar ou avacalhar o relacionamento. Perdemos aí a chance de, passados mais vários meses, uma outra manhã nos darmos conta do quanto aquela pessoa melhorou nossa vida; o quanto felizmente compartilha cada vez mais coisas conosco; o quanto nos deixa à vontade e, estando acima de todas as outras, tirou nosso cotidiano do chão.

Ao ouvir qualquer coisa ligada a sossego e namoro, tem gente que acha que você está de sacanagem. Sendo a bagunça toda tão boa, tão divertida a aleatoriedade toda, por que se deveria namorar, mesmo?

As boas intenções são as piores. Saia para jantar bem intencionado com uma mulher e talvez você leia nos olhos de muitas delas o pedido: “Você poderia ser um pouco pior comigo?”

Reencontrando algumas mulheres que não via há anos  o pitéu siliconado do primeiro parágrafo inclusive  lembrei do processo de pausterização do leite. Os namoros que elas tiveram entre os 16 e os 20 e tantos, justamente por terem sido bons, elevaram suas expectativas amorosas. Como mesmo os melhores namoros acabam, a temperatura baixou bruscamente e matou tudo que elas esperavam de alguém.

Disso tudo, sobra o miojo sentimental, que também não é esse apocalipse todo. Na galinhagem e individualidade, me parece, todo mundo mais ou menos se merece e entende.

Foto de Marcelo Depizzolatti
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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



6 Responses to ESVAZIAMOS?

  1. Juliana says:

    Muito bom! Acho que a galinhagem tem sua função por um período. Mas depois de um tempo passei a achar tão bacana meu namoro e suas rotinas…pena que acabou.
    Mas a vida é boa, é abundante….E isso que importa!

  2. Moacir Grande says:

    Pegar mulher não é tão difícil. Quero ver abrir o coração e se entregar numa paixão.

  3. Dani says:

    fazia tempo que não lia (talvez nunca tenha visto ou ouvido) algo que retratasse tão bem a realidade dos relacionamentos ou melhor, falta deles atualmente.
    é chocante mas real.

    tomara que isso mude e as pessoas passem a ser menos individualistas, pq tá difícil…

  4. Tamara Souza says:

    O que vejo nas pessoas, digo pessoas, por não falar somente da noite, e sim da vida como um todo, é “querer” acreditar na “sua” verdade, criada para esconder seus reais desejos! Quem não quer encontrar um grande amor? Mas é mais “pratico” falar que a vida assim…. está ótima…. ótima? Duvido!
    Muito Bom Dodô, verdade pura!

  5. Stella Rivello says:

    As pessoas desistem muito facilmente umas das outras. Infelizmente impera a teoria de que é mais fácil jogar tudo para o alto ao invés de usar os neurônios e um pouco mais do coração em busca da felicidade.

  6. Mel Savi says:

    E esse fundo de copo ali na foto? É lá que está a felicidade? :)
    Curti, Dodô!
    Cheers!

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