On the road young_goethe_in_love

Publicado em abril 27th, 2012 | por Thiago Momm

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ÉTICA DE MICARETA

Uma quantidade razoável de tolos acredita que, em diferentes eras anteriores à de Zuckerberg, a humanidade foi invejavelmente amorosa.

Amor sempre foi só o melhor pretexto que o ego encontrou para se disfarçar, ser menos denunciado e tirar férias remuneradas de si mesmo. Isso não quer dizer que não possa ser algo terno, pungente, um comensalismo enternecedor, “uma onda alta sobre as ondas” (Neruda), “o milagre da civilização” (Stendhal), mas daí a apostar na existência de amor desinteressado, que não busca benefícios de formas diretas ou enviesadas, “amor a nada, feliz e forte em si mesmo” (Drummond), vai uma grande distância.

Os que acreditam nesse último caso costumam ser os mesmos que creem na existência, em dias distantes, de apaixonados mais nobres e numerosos que os atuais. Mas o que há de mais bonito entre nós é só essa crença, mesmo. Ou sua persistência: em 984, conta o historiador norte-americano Peter Stearns, um livro lamentava que o amor já fora mais espiritual, mas que “hoje”, quando um homem ama uma mulher, “não tem outra coisa em mente a não ser uma maneira de erguer as pernas dela”. Aos saudosistas também se recomenda A arte de amar, de Ovídio (43 a.C.-17/18 d.C.), para perceber que amor, na Roma antiga, significava antes sexo em série, vaidade, perfídias, dissimulações, enfim, antes toda uma ética de micareta que um sentimento de enlevo. Estava mais para a quarta definição do Aurélio hoje para amor, “inclinação sexual forte por outra pessoa”, do que para a segunda, “sentimento de dedicação absoluta de um ser a outro”. O que viemos a chamar de canalhice (i.e., a diferença entre nossas expectativas declaradas e nossa animalidade aplicada) já estava perfeitamente descrita dois milênios atrás.

Em 984, um livro lamentava que o amor já fora mais espiritual, mas que “hoje”, quando um homem ama uma mulher, “não tem outra coisa em mente a não ser uma maneira de erguer as pernas dela”

E a época mais romântica da história? Minguavam os bárbaros, o Renascimento redescobria nossa veia poética e séculos depois, em 1774, Goethe publicaria Os sofrimentos do jovem Werther, romance que seria ícone do amor romântico. Leitores copiavam as calças amarelas e os casacos azuis do protagonista, quando não seu suicídio. Associar isso a um mundo invejavelmente amoroso, no entanto, talvez seja ir longe demais. Napoleão, por exemplo, disse a Goethe ter lido Os sofrimentos do jovem Werther oito vezes. O próprio Goethe, embora não tivesse o costume de invadir países, invadia vidas alheias: se apaixonou por cinco esposas, duas delas de amigos. Uma inspira o poema Suleika; a outra, o romance As afinidades eletivas. Essas obras, mais poesias amorosas e a saga de Werther, davam a Goethe o prazer de ser mártir e escritor enquanto esperava pelo prazer de se dar bem – que veio, para fúria de pelo menos um marido. É esse finório alemão, com quem seria um prazer dividir cervejas e fanfarronices em uma taberna, o criador do herói desde então reverenciado como sinônimo de um amor ingênuo, sacro, incondicional, que supostamente faz dos bosques mais lugares para idílicos piqueniques do que para uma bem dada atrás das árvores.

Os livros românticos se espalham e essa “literatura mais fartamente difundida propõe a partir de então modelos de conduta, traça itinerários espirituais, ilustra o novo sistema do amor” (Alain Corbin, historiador francês). É a primeira metade do século 19 e aí está o auge do amor romântico, a época que melhor representa o modelo pelo qual muitos suspirarão: “O amor (…) exacerba as reações devidas à vergonha, estabelece novos procedimentos de deliberação. A palavra, que seria demasiado escandalosa, por muito tempo é substituída pelo olhar, pelo sorriso, no limite pelo toque; a perturbação, o rubor, o silêncio insistente valem por respostas.”

Um amor mais puro? Talvez não. Talvez esses delírios românticos resultassem dos delírios da abstinência, que Millôr bem disse ser “a mais anormal das perversões sexuais”. Se hoje um homem, sem falar nada, sorrir e olhar muito para uma mulher no shopping, ela irá se certificar de ter um segurança próximo, certa de estar sendo assediada por um pervertido. No século 19 os humanos pareciam continuar os mesmos velhacos utilitaristas de sempre, mas contidos, disfarçados. Amavam sob as pesadas nuvens católicas, suavam remorsos, faziam o possível. E se entre os menos religiosos também havia pudor, era como estratégia. Pelo menos é a visão de Stendhal no livro Do amor (1822), que contém um entusiasmado capítulo a respeito. Para começar, o pudor “empresta ao amor o socorro da imaginação, isto é, dá-lhe vida”. Depois, “em matéria de pudor, nunca se exagera”. Mais ainda, esse inconsolável escritor francês, que não consegue esquecer uma tal de Mathilde e com certeza estragaria aquela nossa cervejada fanfarrona com Goethe, argumenta que “o pudor proporciona prazeres agradáveis ao amante; leva-o a crer que algumas leis se transgridem por ele”. Ou seja: mulheres, finjam uma pudicícia generalizada – vai deixar tudo mais gostoso.

No século 19 os humanos pareciam continuar os mesmos velhacos utilitaristas de sempre, mas contidos, disfarçados. Amavam sob as pesadas nuvens católicas, suavam remorsos, faziam o possível

De fato, tantas convenções para disfarçar a pressão nas partes baixas se mostrou eficaz. A imaginação libidinosa sem dúvida foi mais longe naqueles tempos do que sob o anestesiante webonanismo do século 21. Nossos antepassados podiam sentir culpa demais, mas talvez tenham mais a nos ensinar sobre sexo do que sobre amor.

Enfim. O amor romântico não significava, portanto, ausência de interesses mascarados, de umbigocentrismo. No Livro do desassossego, Fernando Pessoa não parece falar de nenhuma época específica quando diz: “Vivemos quase sempre fora de nós, e a mesma vida é uma perpétua dispersão. Porém, é para nós que tendemos, como para um centro em torno do qual fazemos, como os planetas, elipses absurdas e distantes.”

E o amor nos tempos de Zuckerberg? À parte nos perdemos um pouco no excesso de possibilidades reais e virtuais, não vai mal. Pelo menos, agora encara a si mesmo. “Agimos durante muito tempo como se um único obstáculo de natureza moral, política ou religiosa impedisse o amor de desabrochar em seu esplendor. Os obstáculos caíram e o amor mostrou sua natureza: ambivalente, admirável e lamentável”, diz o ensaísta francês Pascal Bruckner no seu quase onisciente O paradoxo amoroso, livro de 2009. Ele reforça: “A tragédia clássica opunha uma ligação impossível a uma ordem cruel; na tragédia contemporânea, o amor é morto por ele mesmo, morrendo de sua própria vitória. É exercendo-se que ele se destrói, sua apoteose é seu declínio.”

Para Bruckner, “fala-se demais do amor como ele deveria ser e não suficientemente de como ele é”. Mas talvez isso esteja mudando: vide, nos casamentos, o esforço dos padres para mesclar aos seus discursos ufanistas conselhos (constrangedores) sobre o ramerrame, a rotina, as remelas, o sexo.

Estamos cada vez mais sinceros, a ponto de já admitirmos, uns para os outros, que o lindo momento presente do namoro não o impede de ser potencialmente traiçoeiro e gerador de futuras lembranças desdenhosas, quando não de algum bom vídeo novo na internet. Também estamos mais escancaradamente autocentrados, diminuindo as elipses absurdas – e muitos dos nossos relacionamentos funcionam! Não em termos de duração e profundidade, não se avaliados com parâmetros antigos, mas em termos de breves eternidades, diálogos abertos, menos recriminações, finais menos dramáticos. Pouca gente leva a sério qualquer filme ou música com ecos de jovem Werther. O amor idealizado, hoje sabemos, é apenas a sorte eventual de não se conquistar alguém. Uma vez conquistada a pessoa, a coisa valendo, fica claro que nos relacionamos a dois sem que cada um escape de si mesmo. Aí é fazer o melhor que se pode.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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