On the road por do sol 019

Publicado em outubro 18th, 2012 | por Thiago Momm

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FELICIDADE

[Foto: Thiago Momm]

Evapora tão facilmente a felicidade que alguns pensadores franceses parecem querer extirpá-la do dicionário.

No livro O culto da emoção, que exploro um pouco mais neste texto aqui, o filósofo Michel Lacroix (1946-) elogia nossas emoções liberadas como um bem-vindo “tempero da razão”. Mas rapidamente, logo passando a milhares de poréns. No geral, hoje seríamos nada mais que desesperados por adrenalina incapazes de contemplar e absorver, que evidenciamos até no simples ato de esquiar um desespero por experiências. Quando depois vem alguém desprezar o que escrevem os intelectuais, não fica difícil entender por quê.

Em A idade de ouro – história da busca da felicidade, livro incrivelmente erudito e fluente, o historiador George Minois (1946-) ensina como se faz. Da bibliografia de mais de 500 títulos aparentemente esmiuçou todos, e baseado neles compõe um quadro histórico da nossa eterna perseguição à malditamente etérea palavra felicidade. Um trabalho muito acima da média. Com qual porém? O azedume. George, o Implacável. Sua opinião é sempre um guindaste. “O horizonte está completamente encoberto por grandes nuvens negras”, escreve. Sua compilação de posicionamentos alheios soa bastante próximo do equânime, mas a cada final de passagem Minois deixa claro, com acidez variada, quão desditosa considera nossa passagem pelo planeta.

Para ele, uma felicidade mais dosada é mediocridade, e um filme como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001), “a arte de saborear os pequenos nadas da existência”. Estranho rancor de quem fustiga, nas 400 páginas anteriores ao comentário, os grandes sistemas de pensamento. Se as maiores intervenções no nosso nome tendem a resultar em desastre, que resposta melhor que cultuar por antítese, como Amélie, o prazer de mergulhar os dedos em grãos ou de imaginar a quantidade de orgasmos estão sendo atingidos neste momento em Paris?

Para George Minois, uma felicidade mais dosada é mediocridade, e um filme como O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001),“a arte de saborear os pequenos nadas da existência”

Mas não se deduza daí que a leitura não vale a pena. Pelo contrário, tem ares de clássico. Podemos enfatizar George, o Grande. O name dropping do livro não é uma deliberada tentativa de impressionar. Antes, resulta em um painel extremamente amplo e consistente de diferentes épocas, sem apelar a casos isolados para representá-las. A felicidade pela ótica religiosa, filosófica, medieval, utópica, iluminista, burguesa, contraculturalista, contemporânea.

Já os gregos haviam perdido o paraíso: é o sonho pela idade de ouro, antípoda do presente, a crença quase infantil de que houve um tempo com uma fixação miraculosa do que vivenciamos de melhor. Mas os gregos não suspiravam sozinhos. “Mitos similares”, lembra Minois, “existem em todas as culturas, na índia, na China, na América pré-colombiana, tanto quanto na Islândia, nas sagas escandinavas ou em antigos textos anglo-saxões”. Também o cristianismo tinha sua felicidade remota, claro, a de Adão e Eva antes da queda. Para piorar, ainda prometia pepitas para o futuro, o mundo melhor da outra encarnação em contraste com nossa existência, patético interlúdio. Na ironia do nosso amigo francês: “Vamos resumir: uma vida terrena de sofrimentos certos por uma eternidade de felicidade hipotética. Centenas de milhões de homens e mulheres aceitam a troca, sem nenhuma garantia”.

Felicidade coletiva ou individual? Eis um dos muitos paradoxos que surgirão. Liberdade e igualdade, lembra Minois, não se bicam. Leiamos diferentes utopias e isso ficará claro: nas sociedades iguais não se tolera a iniciativa individual, nas livres não há igualdade. A felicidade pela via libertária e pela via igualitária, portanto, se contrapõem. Com a primeira, a felicidade de alguns significa a infelicidade de outros; com a segunda, o ideal coletivo sufoca os valores individuais – vide o Admirável Mundo Novo, de Huxley, e tantas outras utopias publicadas já no século 19, caso de Le monde tel qu’il será (O mundo como ele será), em que o escritor francês Émile Souvestre prevê a espécie humana planificada pela genética. Outros não anteveem coisas melhores. Um enxerga na sociedade sem guerra nem doenças “o vazio, o tédio, o suicídio”; outro (em 1903), excesso de lazer transformado em drogas e pornografia. Enfim, um desgracê.

“A felicidade humana é obrigatoriamente limitada, impura, incompleta, indissociável da infelicidade”, sintetiza à certa altura Minois. Para o pensador francês La Rochefoucauld (1613-1680), “não somos nunca tão felizes nem tão infelizes como imaginamos”. Raras opiniões comedidas. A maioria tem palpites mais polianos ou catastróficos. Devemos adaptar nossos desejos à ordem do mundo, prega o historiador grego Diórgenes Laércio, bom exemplo do primeiro caso. Santo Agostinho é um representante do segundo: a vida “são as angústias mortais, as agitações do espírito, as decepções, os medos, as alegrias frenéticas, as querelas, as disputas, as guerras, as traições, os ódios, as inimizades, os logros, as adulações, a fraude, o roubo, a rapinagem, a perfídia”, e a lista segue.

Desde os gregos os pensadores se esgrimem. A felicidade de obter ou a de não desejar. De ter riquezas ou renunciar a elas. Uma vida mais terrena ou mais abstrata. Um mundo mais bucólico ou com mais progresso, ainda por vir.

Existe a felicidade grama do vizinho, que em diversos momentos históricos se concentrou na ideia de ilhas. É o caso, como lembra George Minois, “da ilha do Amor (Camões), a ilha do ‘bom selvagem’ (Daniel Defoe), a ilha de Eutanasius (Eminescu) ou ilha ‘exótica’, um país de sonho de belezas secretas, a ilha da liberdade, do jazz, do descanso perfeito, das férias ideais, dos cruzeiros em transatlânticos de luxo, à qual o homem moderno aspira sob a miragem da literatura, do cinema ou simplesmente da sua imaginação”.

“A felicidade humana é obrigatoriamente limitada, impura, incompleta, indissociável da infelicidade”, sintetiza à certa altura Minois. Para o pensador francês La Rochefoucauld (1613-1680), “não somos nunca tão felizes nem tão infelizes como imaginamos”

Um dos conselheiros de felicidade mais razoáveis é Bertrand Russell (1872-1970), rara opinião distanciada. Seu livro A consquista da felicidade é “uma espécie de manual prático da luta por uma vida feliz. Nada de grandes princípios”. Auto-ajuda para inteligentes, sem metáforas tolas. Conselhos concretos, tirados da sua experiência.

“Na primeira parte, ele examina os obstáculos à felicidade e indica os meios para eliminá-los. Inicialmente, há as preocupações egocêntricas: os que se culpabilizam são egocêntricos ou megalomaníacos, não conseguem ser felizes porque estão centrados demais em si próprios. Esses devem se convencer de que a felicidade é desejável. Além disso, há os que sofrem do ‘mal byroniano’, os intelectuais que cultivam a melancolia por pensarem que, tendo descoberto a inutilidade do mundo, devem obrigatoriamente ser infelizes. Para esses, o remédio é a ação. Há aqueles obcecados pelo espírito de competição que causa esgotamento nervoso; pois que se acalmem (…). Há aqueles que sofrem do sentimento de perseguição: estejam convencidos de que os outros não os consideram importantes o suficiente a ponto de desejarem prejudicá-los”. E assim por diante. Muitos dardos no minúsculo círculo de 100 pontos.

Hoje, como sabemos, estamos sob a era da felicidade obrigatória, consumista, de vitrine, zuckerberguiana. Um mundo que se anuncia o tempo todo contente sem ter certeza de que é feliz, talvez para não pensar na resposta. Aqui intelectuais sorriem e se permitem seu momento autocongratulatório lembrando anunciar há muito tempo que estamos na merda, afundados em antidepressivos e presos a uma espiral de falta de bom senso.

Mas e o lembrete de Anais Nïn de que “você não vê as coisas como elas são, você vê as coisas como você é”? A dor de cotovelo intelectual é abordada por Pascal Bruckner (1948-), o mais equilibrado dos três franceses que abordo mais aqui. Embora diga, em A euforia perpétua – ensaio sobre o dever da felicidade, que a modernidade “elevou a um grau tão alto as esperanças humanas, que não tem como não decepcionar” e que “ser moderno é ser incapaz de assumir o destino que nos é imposto”, Bruckner também lembra que “poderíamos fazer uma análise do meio literário e intelectual francês sob três ângulos, do despeito, da mesquinhez e da calúnia. Quantos ódios irremediáveis, querelas retumbantes motivadas a princípio pela irritação e pelo ciúme, porém mascarados com andrajos políticos ou filosóficos? Por serem igualitárias, nossas sociedades democráticas são invejosas e favorecem a cólera diante do menor dos privilégios concedido a alguém (e da forma particularmente intolerável de privilégio que é a sorte)”.

Não esperemos, portanto, que a melhoria de muitos aspectos da vida ganhe a aprovação e gratidão dos pensadores. Quem disse que acréscimos de um tanto de felicidade também não implicam mais reações contrárias? Evoluir é mexer nos vespeiros pessimistas. Defender a felicidade tem algo de suspeito. Os filósofos Alain de Botton e Luc Ferry, cultos e notórios por escritos mais otimistas (caso de Consolações da Filosofia, de Botton, e Aprender a viver, de Ferry), são um tanto malditos no meio.

O menos transigente Bruckner se notabiliza pela precisão das frases. Ele cita menos autores que Minois, mas seu senso para condensar séculos de debates em um bombas de seis ou sete palavras é impressionante (do autor, não perder também O paradoxo amoroso). No que você julga o homem um rancoroso, ele se sai com esta: “O segredo de uma boa vida é fazer troça da felicidade, jamais procurá-la como tal, acolhê-la sem perguntar se é merecida ou se contribui para a edificação do gênero humano; não retê-la, não lamentar sua perda”.

Se a inquestionável ideia central de A euforia perpétua é conhecida (ser feliz hoje é uma obrigação, e infeliz, uma ofensa), Bruckner a explora de maneira contundente. É o raro tipo que leu tudo e mantém conhecimento mundano de sobra. Para o bem e para o mal, há mais cinismo nos seus ensaios do que nos escritos de Botton e Ferry.

No final das contas, talvez não vivamos tempos piores que outros. Como lembra George Minois, a felicidade sem contraste pela frente acaba se tornando tédio. Por esse parâmetro, não estaríamos mal. Voltar do tédio para a felicidade é o desafio de cada um, mas o fato de tantos vivermos esse dilema diz algo a favor dos tempos.

E sim, temos que tentar ser felizes enquanto o universo segue repleto de problemas. Como lembra Bruckner, não faz sentido esperar por condições melhores. Somos sempre felizes “a despeito de”.

Defender a felicidade é mais que suspeito, é sempre um tanto tolo. Rende textos mais fracos e fama duvidosa, ainda mais entre os franceses. As melhores defesas são mesmo os milhões de contentamentos e bem-estar não-escritos – algo que simplesmente ninguém é capaz de compilar.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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