On the road mykonosdentro

Publicado em julho 14th, 2010 | por Thiago Momm

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PARANOIA FOTOGRÁFICA

Você sabe. O momento passou na sua frente e você o clicou. Não podia perder.

A quantidade exagerada de fotos no nosso cotidiano já nem chama mais a atenção. Mas se engana quem pensa que esse exagero é recente. O conto Aventuras de um fotógrafo, publicado nos anos 1960 pelo escritor Italo Calvino no livro Amores Difíceis, já tratava do assunto.

Antonini, o protagonista, é um homem angustiado com a impossibilidade de captar a essência das coisas. Obcecado, pensa que a única maneira de preservar suas vivências seria disparar no mínimo uma fotografia por minuto. “Só assim”, reflete, “os rolos de fotos impressas constituiriam um diário fiel dos nossos dias, sem que nada fosse excluído”.

Se a obsessão por fotos aproxima Antonini do nosso tempo, seu devaneio de constituir “um diário fiel dos nossos dias” o distancia. Sim, fotografamos bastante para termos, depois, a lembrança do que aconteceu.

Fotografamos principalmente, porém, para estilizar os acontecimentos. Publicadas no Facebook, as melhores fotografias contam – para os outros e para nós mesmos – a vida de um ângulo mais favorável, simples, conciso.

Mesmo nos tempos pré-internet, Calvino já conhecia muito bem esse sentimento de quem fotografa: “O espaço entre a realidade que tem que ser fotografada porque nos parece bela e a realidade que nos parece bela porque foi fotografada é brevíssimo”. Antes, no entanto, as fotos com a realidade melhorada chegavam em poucas pessoas; hoje, com um rápido upload (quem sabe um Photoshop) já estão no Feed de notícias dos nossos amigos e conhecidos. Sem dúvida, a tentação de fazer a vida parecer mais cinematográfica aumentou.

Na dúvida, fotografias

É discutível o quanto isso é bom ou ruim. Certamente, há alguns aspectos negativos. Um deles, claro, é simplesmente deixar de viver o momento. A ironia fina de Italo Calvino no começo do seu conto é definitiva sobre a questão.

Ele escreve: “Com a chegada da primavera os habitantes das cidades, às centenas de milhares, saem aos domingos levando o estojo a tiracolo. E se fotografam. Voltam satisfeitos como caçadores com o embornal repleto, passam os dias esperando com doce ansiedade para ver as fotos reveladas (…) e somente quando põem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado, somente então aquele riacho alpino, aquele jeito do menino com o baldinho, aquele reflexo do sol nas pernas da mulher adquirem a irrevogabilidade daquilo que já ocorreu ser posto em dúvida. O resto pode se afogar na sombra incerta da lembrança.”

Mas saber recontar nossa vida é preciso. A motivação de Gabriel García Márquez, ao escrever sua autobiografia, Viver para contar, se tornou famosa: “A vida não é a que a gente viveu e sim a que a gente recorda, e como recorda, para contá-la”. E recontar a vida pode ser difícil sem a ajuda de imagens. Nem todos temos memória, raciocíno, sensibilidade e sinestesia suficientes para recriá-la mentalmente com a riqueza de detalhes de um Garcia Márquez ou de um Marcel Proust. Na dúvida, fotografias. Elas nos ajudam a selecionar fatos, dão síntese e sentido à nossa narrativa.

Ainda há, porém, a questão da técnica. É grande o desapontamento de muitos ao compararem suas fotos às de profissionais. É frustrante ter à disposição centenas de imagens se nenhuma delas remete à beleza do momento real. É claro, na sua formatura ou na balada os profissionais estão por perto, mas e em diversos outros momentos? Fotos de alto naipe demandam olhar, estudo, dinheiro, esforço, às vezes quase uma obsessão nível Antonini para se tentar muitos cliques.

Obviamente, o resultado pode ser mais que compensador. Um dia você talvez traga de viagem aquela foto que parece uma montagem. O caminho até lá, no entanto, pode tornar suas lembranças reais mais rarefeitas: enquanto você aprende a fotografar, a captação extrafotográfica das paisagens diminui.

Na dúvida, guarde dois conselhos que um fotógrafo da Folha de S.Paulo me deu: antes de cismar que você precisa comprar outra máquina mexa mais na sua, e apure o olhar contemplando fotografias, imaginando como foram tiradas. Quase infalivelmente você descobrirá que o limite está mais em você do que na câmera. Isso não é uma má notícia, é boa: o fator dinheiro, aqui, não é o mais importante.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



18 Responses to PARANOIA FOTOGRÁFICA

  1. Rodrigo says:

    Thiago,

    Se você pretende realmente discutir com bom senso estatístico (daí não entendo agora o menosprezo por uma possível “pesquisa inglesa […]” num comentário anterior), então comece por apresentar em que se baseia a estimativa da fonte sugerida. Eu não encontrei.

    No demais, ainda que não haja algum furo com a estimativa, temos que: 01-) o número de perfis no Facebook é 10 vezes menor que o da população mundial. 02-) Segundo a fonte apresentada, somente 20% das fotos tiradas em 2011 estarão publicadas no Facebook. É disso que você conclui que “está claro que TODOS estamos viciados em fotografar”?!?

  2. Rodrigo says:

    Thiago,

    Enfim, creio que se o seu texto tivesse como ponto de partida um apanhado mais modesto em relação ao universo dos atingidos pela “coqueluche fotográfica de ordinariedade exibicionista” eu compreenderia perfeitamente. O que não existe é tal coqueluche como regra universal e nem geral (penso). Os “fotógrafos dominicais” aumentam a cada dia, mas até isso não chega a ser um boom a ponto de podermos seriamente dizer que “está claro que estamos todos viciados em fotografar”. A paranóia (o vício, a obsessão) fotográfica até deve existir, mas trata-se de um caso atípico (como bem observou Calvino), não um ponto logo ali dentro do universo ainda restrito dos “fotógrafos dominicais” com ou sem Facebook. Sem mais…

  3. Thiago says:

    Meu caro: 4% das fotos tiradas até hoje. Temos mais de 120 anos de fotografia popularizada, já. O Facebook tem 7.

    Haha. Estamos parecendo dois velhos, meu caro, mas discutir bom senso estatístico é fundamental.

  4. Rodrigo says:

    Thiago,

    Risos, não perdi o meu tempo, pois em momento algum fiz do meu caso particular uma regra geral. Pelo contrário, usei um caso particular para demonstrar cabalmente que a regra universal é uma canoa furada. E mais, convido a cada leitor do blog, usuário do Facebook, a realizar o teste do número “mágico” de 500 fotos por perfil do universo de contatos (aceito até 100 perfis aleatoriamente) para testar tal regra como geral. No demais, tal estimativa de que 4% das fotos estejam no Facebook só me diz que 96% não estão. Não serve para demonstrar que “está claro que estamos viciados em fotografar”, ainda que do modo “fotógrafo dominical”, segundo Calvino.

  5. Thiago says:

    Rodrigo

    Perdi meu tempo (e você perde o seu) de citar casos pessoais. Você viu essa estatística que coloquei ali antes? http://bit.ly/qwd2u9

    4% das fotos mundiais já estão no Facebook, estima-se.

    Sem mais.

  6. Rodrigo says:

    Thiago,

    Fiz um teste simples com esse número “mágico” de 500 ou mais fotos por perfis em mais de 170 dos meu contatos no Facebook, como você sugeriu. Adivinha: apenas 11 alcançaram tal número que reflete(?), segundo sua opinião, que “está bem claro que estamos viciados [brandamente] em fotografar.” Nem 10% do meu universo de contatos talvez se enquadre no que Calvino chamou de “fotógrafo dominical”, esse de “vício brando”, segundo tal número “mágico” apresentado. Como disse, tal tese de vício, obsessão, paranóia fotográfica como um fenômeno de massa me parece uma canoa furada.

  7. Rodrigo says:

    Thiago,

    A meu ver você toma a si mesmo como medida de todas as coisas. No Brasil e não na (Sui(?)) a fome está presente na vida de milhões de pessoas. E é pra crer que essas milhões de pessoas têm perfis no Facebook com 500 fotos (70 da mesma sequência)?!?

    E de onde você tirou esse número mágico? No meu círculo de contatos a maioria das pessoas sequer tem 500 fotos, o que dizer 70 em sequência!

    Você associa paranóia, obsessão e vício aos fotógrafos dominicais quando Calvino (se) o faz (é) em relação a um caso particular; generalização indevida.

  8. Thiago says:

    Rodrigo

    “Cá entre nós um grande número de pessoas ao redor do mundo sequer tem condições materiais de fotografar”. Isso é mais uma realidade da Suazilândia que nossa. Você já viu quantos celulares tiram fotos e quantas pessoas os usam para isso? Você já viu quantas pessoas têm mais de 500 fotos (com 70 da mesma sequência) no seu Facebook? A reação das pessoas ao falar disso é um sorriso de identificação – muita, muita gente sabe exatamente do que se trata. Ou você nega que a existência da máquina digital e dos álbuns virtuais tenha mudado nossa relação com as imagens?

    Mas vamos esperar que uma pesquisa reveladora a respeito saia por aí. Como uma daquelas: “Pesquisa inglesa mostra que mulheres gostam mais de compras do que homens”. Daí lemos, sorrimos sozinhos e agradecemos a ciência.

    E de novo, estou falando de um “vício brando”. Ninguém está vendendo o som de casa pra comprar cartão de memória, até onde eu sei.

  9. Rodrigo says:

    Thiago,

    02-) O que seu texto não demonstra (e nem o conto original pretende; ótimo diga-se de passagem) é a inferência de casos particulares (como o do personagem Antonino) para uma regra universal ou mesmo geral.

    Está bem claro no texto que nós NÃO estamos viciados em fotografar. Para um Antonino viciado em fotografar no Facebook há milhares de fotógrafos dominicais, segundo termo do autor.

    Por essas e outras que é preferível ler o original que o comentador. Passar bem…

  10. Rodrigo says:

    02-) Por perífrase ou citação direta, etc., não me parece haver uma inferência válida no texto que permita a passagem de casos particulares (seu, dos personagens da referida obra de Calvino, usuários do Facebook) para uma regra universal que permita afirmações (a meu ver disparates) do tipo: “está bem claro que nós estamos viciados em fotografar”. Cá entre nós um grande número de pessoas ao redor do mundo sequer tem condições materiais de fotografar, o que dizer então de adquirir um vício (obsessão, paranóia ou outro termo semelhante tomado num sentido descolado, poíetico ou coloquial). Tomar a si mesmo, personagens de um livro e usuários de redes sociais (não todos diga-se de passagem) como “nós” me parece um reducionismo até ingênuo da realidade. Enfim, “contra fatos não há argumentos” diria Aristóteles, nem pensatas literárias acrescentaria eu.

  11. Rodrigo says:

    Thiago,

    01-) Valer-se de teorias psicológicas para escrever um texto não o converte automaticamente num “boletim psicológico”, o mesmo vale para teorias literárias no que diz respeito a “pensatas literárias”.

  12. Thiago says:

    Rodrigo

    “Somente quando põem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado (…). O resto pode se afogar na sombra incerta da lembrança”, escreveu Calvino. O que eu disse é apenas uma perífrase disso.

    E nenhuma dessas afirmações tenta realmente enquadrar a tal “paranoia” como algo oficialmente reconhecido (algo como fizeram com bipolaridade, hiperatividade e afins). Está bem claro que estamos viciados em fotografar e que isso pode não ser tão positivo, mas é só – o texto é uma pensata e o revistanaipe.com não é um boletim de psicologia, certo?

  13. Rodrigo says:

    Thiago,

    01-) Certamente a Psicologia também pode oferecer teorias interessantes acerca de Obsessões e Paranóias (inclusive as fotográficas, creio).

    02-) A afirmação “é discutível o quanto isso é bom ou ruim. Certamente, há alguns aspectos negativos. Um deles, claro, é simplesmente deixar de viver o momento” é sua. Volto a dizer, ainda que tal ocorresse com a maioria (o que não sei se sequer é o caso), ainda assim não seria uma regra universal tal como foi afirmado por você.

  14. Thiago says:

    Rodrigo

    A teoria não é minha, é do Italo Calvino.

  15. Rodrigo says:

    Thiago,

    01-) No que diz respeito ao título, talvez um psicólogo tivesse mais a acrescentar que sua opinião apenas.

    02-) Certamente não é a sua incapacidade (real ou fictícia) de “viver” o momento fotografando a demonstração disso como regra universal.

    03-) O mesmo vale para as “demandas” de fotos de altos naipes.

    04-) Por fim, já que gosta de citações: “o invejoso emagrece de ver a gordura alheia” – Horácio.

  16. Luiz Eugênio says:

    Muito bom…

  17. Tassia says:

    Quero sua técnica de tirar fotos!Adoro todas! ;)

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