On the road shm

Publicado em maio 13th, 2013 | por Thiago Momm

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FÚRIAS

Sair à noite, concordamos, os dois enjoados de cultuar as suavidades caseiras todos os finais de semana – quase todos, na verdade, mas isso há mais de dois anos.

Nosso culto tinha o tapete preto felpudo, o laptop, o sushi-delivery, o edredom, as almofadas, os seriados, o sexo, a sonolência. A quebra do culto tem o banheiro vaporizado, a pia desordenada, as persianas erguidas, as janelas abertas, as cervejas no freezer, as músicas eletrônicas no computador ligado ao som, volume 33 de 40. Abrimos as primeiras latinhas, descomprimimos. A música escarnecia dos livros nas estantes.

No posto de gasolina, quebro o gelo no chão de cimento e mergulho as pedras menores na vodca com energético: a madeleine dos baladeiros, todo um passado evocado.

Quase uma hora depois, estacionamento do clube em Jurerê. David Guetta só a partir do meio da madrugada. Clubbers dançam tribalmente atrás dos porta-malas, manezinhas calipígias desfilam em vestidos de secretária de conto erótico. Bêbados, eu e ela nos equalizamos com esse universo esquecido. Só não providenciamos os ingressos, vendidos na hora a preços obscenos pelos cambistas, mas não importa. São mais de 30 sábados sem nada parecido. Pagamos, pegamos fila, entramos.

A alegria de rever o mundo.

A angústia de rever possibilidades.

Lá dentro, no escuro cortado pelos feixes de luzes coloridas saindo do estroboscóbio, aversão ao cotidiano caseiro, cisma de recuperar naquela todas as madrugadas perdidas, saudade de inventar outros de si mesmo, contrariedade minha ao lembrar que ela, e dela ao lembrar que eu, pode/posso ser bem mais expandido, engraçado, ambicioso.

Sim, sim, sim, a solução era rir da simetria do conflito, focar o som, procurar amigos, propor uma noite livre – todas opções afastadas pela impaciência alcoólica. Então briga. Medonha. De destampar demônios do relacionamento inteiro, estranhos intervindo para manter a fúria em nível sociável, a discussão abrindo clareiras de constrangimento, o ridículo da desgraça ampliado pela euforia do público entoando um refrão.

Foram cinco dias de imaginações infladas e orgulhos hesitantes até nos reconciliarmos.

David Guetta, esse filho da puta nunca mais tocou no mp3 do meu carro.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to FÚRIAS

  1. Jerônimo says:

    O rompimento da bolha e o inevitável choque com desejos e medos adormecidos

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