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Publicado em março 21st, 2011 | por Thiago Momm

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CENTRALISMO

Não é pouca gente que cai nas velhas pegadinhas “qual a capital da Austrália?” e “qual a capital do Canadá?”.

Mesmo quem não cai raramente lembra das respostas certas. “Só sei que nã é Sydney/Toronto.”

Canberra e Ottawa são as capitais australiana e canadense que excentricamente não calham de ser a cidade mais famosa dos seus países. Não são nem as mais populosas: Sydney tem 4,1 milhões de habitantes, quase 13 vezes os 320 mil de Canberra; Toronto tem 5,5 milhões, quase cinco vezes o 1,2 milhão de Ottawa.

No que depender do sósia de Leôncio e deputado do PMDB Romildo Titon, a pegadinha também terá Florianópolis. Para a pergunta “Qual a capital de Santa Catarina?”, a resposta, sonha, será alguma cidade entre Lages e Curitibanos.

Como os leitores do ramerrame político catarinense já sabem, os defensores da transferência se denominam centralistas, afinal acreditam que a nova capital deva ficar no centro do estado. O principal argumento para a mudança é a mobilidade urbana da ilha. Construir uma nova ponte e duplicar rodovias, alegam, seria muito oneroso.

É consenso que os centralistas não devem, literalmente, chegar muito longe. Mas estão na mídia.

Em um dos seus saudosistas e beletristas elogios a Florianópolis no Diário Catarinense, Sérgio da Costa Ramos separou um espaço para o assunto. Os centralistas, resmungou, “logo haverão de querer que os seus equivalentes norte-americanos troquem sua capital, quase litorânea, banhada pelo Potomac, por Topeka, no Kansas, ou Cheyenne, no Wyoming”. Depois, ofereceu a eles o poema Florianospi, do modernista Raul Bopp, que passou pela ilha em 1930.

Em duas notas, o colunista político do Diário Roberto Azevedo pediu “explicações mais robustas” para Titon e os seus. Uma nova capital, esgrimou, também não custaria poucas patacas aos cofres públicos.

Azevedo lembrou, ainda, que o assunto não é novo. Em 1989, transitou pela Constituinte, mas não foi além. “O argumento à época, que vinha de décadas, era a distância de Florianópolis para os municípios da Serra até o Oeste. A conclusão da BR-282 mudou, em parte, essa perspectiva. Hoje, a justificativa é de que os problemas de mobilidade da capital inviabilizariam a permanência da sede do governo.”

1915

Conversando com meu avô, Avelino, sobre o assunto, obtenho uma pepita. Já se falava na transferência da capital há pelo menos um século. A pepita não é exatamente essa, mas os documentos, obtidos em papel e CD por meu avô, com todo o detalhamento da proposta.

Na lei número 1083, de 2 de outubro de 1915, o “Coronel Felipe Schmidt, Governador do Estado de Santa Catharina” dispara: “Concedendo ao engenheiro Joaquim Breves Filho ou empreza que o mesmo organisar, o direito de promover a construcção de uma cidade no interior do Estado, em lugar determinado pelo Governo etc.”

A lei vai da página 62 à 66 de um documento. Joaquim teria um ano para propor detalhadamente um local, dois para apresentar o projeto definitivo da cidade e quatro para entregá-la. Em 1922 estaríamos mudados.

Nos oito artigos repletos de parágrafos, Felipe Schmidt é altamente específico quanto à construção da nova capital. A cidade teria 40 milhões de metros quadrados, dos quais 4 milhões teriam que ser nivelados com o objetivo, entre outros, de comportar “o trafego de carros e automoveis” (falar em mobilidade urbana…). A lei determinava, ainda, a edificação de “um confortável mercado público e de um hotel de primeira ordem”, casas para os funcionários públicos, biblioteca, hospital, teatro e outros.

O lugar, conta meu avô, estaria nos limites dos propostos hoje pelos centralistas. Seria em Palmeiras dos Índios, um município de 2 mil habitantes a cerca de 30km de Lages, e à época pertencente à cidade. Nesse vilarejo, aliás, nasceu a avó deste jornalista que vos escreve. “Um lugar livre de enchentes, por se tratar de uma elevação”, diz meu avô.

A proposta não vingou porque a construção da ponte Hercílio Luz deu novo gás à ilha como centro administrativo.

“O curioso”, segue meu avô, “é que a construção da nova capital não teria nenhum custo para o governo”. Sim, as contas ficariam a cargo da empreza com “z” de Joaquim. Como não existe almoço grátis, o cabra teria, entre outros mimos, inúmeros terrenos isentos de impostos e uma “concessão de 60 annos para exploração em toda cidade dos serviços d’água, esgotos, distribuição de força e luz e viação urbana por meio de tramways elétricos”.

Nasceria aí a nossa Brasília.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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