On the road Under-One-Umbrella-Leonid-Afremov

Publicado em março 21st, 2013 | por Thiago Momm

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INÍCIOS

[Quadro Under One Umbrella, de Leonid Afremov]

Sim, sabemos, poucas coisas são tão estimulantes quanto nos recriarmos.

Daí a empolgação de cada começo com alguém: a tela nova, a paleta renovada, a chance de dar pinceladas mais incisivas, ser menos isso ou mais aquilo em relação aos últimos namoros, chegar a uma versão aprimorada de si que cativará tanto o outro como você mesmo. “A inconstância amorosa talvez seja a expressão imediata do desejo de mudar – não de trocar de parceiro, mas de se reinventar” (Contardo Calligaris refletindo sobre Closer).

O porém é que o quadro, por diferente que seja no início, tende a ficar enervantemente parecido depois. Uma nova namorada liquidifica nossas características, favorece nossa criatividade para explorar lugares incríveis da cidade, descobrimos trilhas, barzinhos e sábados melhores. A triste constatação é que essa criatividade se deve muito ao jardim das delícias que é o começo. Mais tarde, sua namorada invariavelmente espelhará este ogro simpático há décadas familiar: você.

Nosso eterno espanto idiota: nunca ficarmos à altura da idolatria dos inícios; agora a admiração dela vem mesclada de desencanto, o tesão de preguiça, o apego de comodismo

Nosso eterno espanto idiota: nunca ficarmos à altura da idolatria dos inícios. Reinvenção tem limites. Anos passam. Agora a admiração dela vem mesclada de desencanto, o tesão de preguiça, o apego de comodismo. Você atribui isso a uma má avaliação, acha que ela o subestima. Na verdade, ela o conhece bem, sim, até demais. “São, de fato, duas grandes armadilhas da intimidade do casal: ‘Você me conhece tão bem que o deleite da surpresa foi substituído pela paixão pedagógica de me transformar’. Ou então: ‘Você me conhece tão bem que consegue sempre encontrar em mim as razões da sua insatisfação’” (Calligaris, neste outro trecho comentando o livro Contra o amor, uma polêmica).

Daí que a chance de sair com outras pessoas não significa apenas variação sexual, mas identitária. Sair com alguém para quem você pode se reeditar e que o escutará sem a descrença dos eu-te-conheço. Vantagem inestimável dos relacionamentos abertos ou do tal do poliamor: ser vários, alternar-se, exercer a capacidade de reinvenção. Que pode, alguém lembrará muito bem, ser exercida também na boa e velha monogamia. Deve, aliás. Não se resignar, ser vários no mesmo namoro, evitar o conformismo, a fossilização.

Nisso o porém: tem quem fique contrariado com a mudança do outro, a tome por insatisfação com o que o casal se tornou, a veja como um potencial de instabilidade. A namorada amplia o grupo de amigos, traz entusiasmo demais dos novos lugares que frequenta, decide estudar fora, se mostra capaz de ir muito além do chiqueirinho do relacionamento. Gostar também dos outros que o outro pode ser: boa vontade rara; maturidade amorosa, talvez, o termo mais preciso.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to INÍCIOS

  1. Marcelo says:

    O amor existe ou seria apenas um empolgante início com uma constante acomodação?
    Acomodar-se, todos lutam contra mas, ao final, será inevitável. Não há nada como os começos. O que sempre ensinaram sobre o amor existe; porém apenas no início. Reinventar-se para o outro? Inventar um novo alguém? Ser outro para que o “amor” volte a acontecer? Uma estratégia, mas, talvez, seja melhor encarar a realidade,
    “[…] estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade excepcional: eram novos, cercava-os o mistério, excitava-os a dificuldade… Por que era então que quase bocejavam? É que o amor é essencialmente perecível, e na hora em que nasce começa a morrer. Só os começos são bons. Há então um delírio, um entusiasmo, um bocadinho do céu. Mas depois!… Seria pois necessário estar sempre a começar, para poder sempre sentir?…” (Eça de Queirós – “O Primo Basílio”)

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