On the road jeri2

Publicado em agosto 4th, 2010 | por Thiago Momm

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ENQUANTO ISSO

Quem já viajou bastante se distrai fácil porque tem muitos lugares dentro de si.

Os souvenires mentais das cidades visitadas voltam à mente, e é fácil parecer sorridente ou melancólico fora de hora: no que a vida corre abaixo de 10 graus em Florianópolis, você lembra de Jericoacoara (CE), onde a temperatura agora oscila entre 26 e 31 graus.

Jericoacoara, sempre ranqueada por aí como uma das melhores praias brasileiras, é composta de seis ruas principais cortadas por 15 ou 20 vielas. Mas por “principais” não entenda nada parecido com a avenida Beira-Mar, em Florianópolis, ou a Atlântica, em Balneário Camboriú. Sem placas, as ruas de Jericoacoara são chamadas informalmente: do Forró, Principal e assim por diante. O carteiro conhece a maioria dos moradores. O município de Jijoca de Jericoacoara tem 20 mil habitantes. A parte das praias, parque nacional aos cuidados espreguiçados do Ibama, é chamada apenas de Jericoacoara e concentra 6 mil.

Sem iluminação pública, as ruas de Jericoacoara convidam a passeios noturnos com lanternas. Antigamente, usavam-se velas coladas na base de garradas de plástico. Uma loja da Havaianas tem paredes inteiras de vidro e o seu chão é todo de areia. Inúmeras pousadas de estrangeiros oferecem lounges ao tão adorado e detestado estilo hippie-chic.

Uma padaria começou a fazer fama há muitos anos por abrir das 2h às 6h oferecendo deliciosos pães de banana, e depois ganhou concorrência de outra aberta o tempo todo. Às 17h, a uma breve caminhada dali ocorre o maior ritual: subir a duna do por-do-sol para acompanhar a lenta descida do sol ao mar – em Jericoacoara, a tarde desaparece diretamente no Atlântico, com o sol tragado pelo ponto de água mais distante alcançado pela vista.

Conheci Jericoacoara em 2007. Foi minha primeira viagem como repórter de Turismo da Folha. Bati algumas fotos medianas, outras horríveis. Ainda não tinha o mínimo domínio de fotografia. Era apenas um jornalista empolgado com a chance de viajar a trabalho e, claro, um embasbacado com Jericoacoara. Em um dos textos para o jornal – acredito que um pouco melhor que as fotos – esse embasbacamento ficou traduzido:

“Assim que desembarca no aeroporto de Fortaleza, o turista tem pela frente 300 quilômetros para o norte até Jericoacoara, no litoral cearense. Duzentos e oitenta deles em pista não-duplicada e eventualmente esburacada. E os 20 restantes em dunas que costumam recusar carros comuns e aceitar buggies, camionetes, jipes e a jardineira, um ônibus colorido e polifônico com viagens diárias entre a capital e Jeri.

Naqueles primeiros 280 quilômetros, milhares de carnaúbas e coqueiros se intercalam com povoados onde se reunir em cadeiras de plástico na frente de casa para conversar e observar quem passa é uma espécie de esporte.

Naqueles 20 quilômetros restantes, há trechos em que as dunas são tão irregulares que lembram o avesso de caixas de ovos. Palhas de coqueiros são colocadas em algumas trilhas para que os veículos não atolem. Só o que ilumina esse canto de mapa brasileiro é a profusão de estrelas, bem mais visíveis que nas metrópoles e megalópoles pela falta de iluminação e de poluição locais. Estrelas cadentes, inclusive.”

Voltei a Jeri em 2009 em uma viagem de mais de 7 mil km de carro pela costa brasileira com um amigo, o outro editor da Naipe, Jerônimo Rubim. Era a parada final da viagem.

Não foi bom. Foi surreal, excepcional. Saí de Jeri com uma ideia permanente do que pode ser outra vida dentro dessa. Entre aqueles lugares que carregamos, Jericoacoara é para mim mais importante que Paris ou Istambul.

Conversei com um ex-jogador grego de 26 anos que foi banido do futebol pela Fifa depois de trocar socos em campo três vezes, a última delas com um juiz. Em Jericoacoara, aquela esquina esquecida do planeta, ele encontrou seu lado zen: caminha descalço, abriu uma pousada e recebe jogadores europeus famosos.

Em um canto de Jeri um outro amigo meu de Florianópolis soube de uma casa para alugar por R$ 500. Vista frontal para o por-do-sol. Um quarto, sala ampla, pegada rústica. Sendo um mané acostumado aos preços jurerêinternacional das coisas, ele perguntou: “R$ 500 por dia?”.

– Não. Por mês – respondeu o dono.

Uma madrugada, subi com uma braziliense linda a duna do por-do-sol. Não eram 17h, mas 2h. Com a concorrência irrelevante das luzes de algumas casas, as estrelas brilhavam com muito mais intensidade que qualquer outra noite que eu me lembre. O teto do mundo também parecia mais baixo. Sentamos, de frente para o mar, no começo da descida da duna. Temperatura na casa dos 20 graus, vento leve.

Será que aquela casa ainda está para alugar?

 

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



3 Responses to ENQUANTO ISSO

  1. Tassia says:

    Só pela leitura já morri de vontade de tá lá!

  2. pedro says:

    Vai para la!!!

  3. Jorge Baggio says:

    hahah muito bom Thiago! grande abraço!

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