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Publicado em setembro 19th, 2012 | por Thiago Momm

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JOANETES

Mário Prata tem uma crônica sobre um amigo exigente que sempre cisma com alguma coisa nas namoradas: joanete, orelhas grandes, cabelo pixaim, mãe religiosa, “menas” no vocabulário, nenhum livro lido na vida, olhadas para cima durante o orgasmo e assim por diante.

“Sei não, Carneirinho, sei não”, diz o Prata ao final do texto, sugerindo que o problema do seu amigo era dirigir pela pista sexual errada.

Malícia do Prata. Maldade. Independente de sexualidade, nesses tempos de bufê all-you-can-eat parecemos quase todos cada vez mais chatos, mais fechados nas nossas bolhas, menos aptos com a humanidade alheia, menos habilidosos em fundir nosso cotidiano ao de alguém. Pelo menos foi o que concluí em uma matéria depois de consultar livros, crônicas, psicóloga, psicanalista, ensaios, universitários bêbados e ecos da minha própria andança bandoleira pelo mundo. Confira o texto aqui.

Cansado do bufê, um amigo deste surrador de teclados parou um dia para refletir seriamente sobre antigos relacionamentos e nessa escarafunchada d’alma chegou numa rara autocrítica: ele era um quasímodo que valorizara devidamente os méritos de poucas namoradas. Implicava com elas.

E elas eram mulheres incríveis. Biscoitos finos. Delicinhas inteligentes atenciosas que souberam pausar o mundo em volta para amá-lo sem economias mas também sem exageros. Lindas meninas de Florianópolis que não pertenciam nem ao universo das patricinhas genéricas nem ao das alternativas rancorosas. Almas com aspirações, desabafos e dúvidas como a dele. Em geral, aliás, pessoas muito mais sensatas que ele. Sabiam ouvir, sentir. Reclamavam menos sobre o mundo.

Claro, nem todas se encaixavam nisso. J., uma namorada antiga, tinha o rosto comparável ao de Audrey Hepburn, mas enquanto Audrey dominava cinco línguas, sua ex-namorada suspirava “ai, ai” no lugar do que para as pessoas costumam ser frases.

E eram mulheres incríveis. Almas com aspirações, desabafos e dúvidas como a dele. Em geral, aliás, pessoas muito mais sensatas que ele. Sabiam ouvir, sentir. Reclamavam menos sobre o mundo

B., uma menina de 22 anos também nesse nível de beleza, canalizava toda sua inteligência no Twitter, onde parecia uma furibunda leitora da Carícia discutindo sobre Justin Bieber. Dominava bem as palavras, mas nem por isso deixava de assustar. Caso bem diferente era o de R., culta, tranquila, consumidora incansável de literatura clássica – que no entanto insistia em andar pela casa com calcinhas de avó.

– Até por elas eu me reapaixonei, e ainda mais pelas outras. Visitei os perfis no Facebook e fiquei pensando se não era o caso de criar um evento pra reuni-las e pedir desculpas.

– Hum.

E falou de M., uma linda professora de pilates filha de professores universitários, independente, elíptica nas conversas por inteligência, não por mau humor. Falou de P., uma dentista espetacular que calava os moleques e velhos à toa pelo saguão do seu prédio. “Era muito bom estar com ela. Muito mais do que pela gostosa que ela era. Cheiro, identificação, intimidade. Na época eu me incomodava porque na locadora ela sempre fugia da prateleira estrangeira dizendo ‘hoje não estou a fim de pensar’. Cara, se eu penso em uma boa comédia europeia eu me chateio de as pessoas fazerem isso. Mas pensa no filme francês pretensioso que dá errado. Ela não tinha razão? Qual o crime de gostar de uma comédia romântica pop? Ela nem conversava com os personagens durante o filme, nada disso.”

C. era uma linda loira responsável com rabo de cavalo que andava desiludida com a vida, mas tinha um bom senso incrível a respeito de tudo, e passados dez anos tinha o mesmo corpo dos 19. A. era uma engenheira que amava correr e era tímida, mas aos poucos se revelava o contrário. “E que rosto. Eu sei que já falei muito de rostos. Mas é que eu vejo num rosto sutil muito mais promessa de felicidade que num corpo bonito. Desculpa, estou sendo brega.”

E dá-lhe Facebook.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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