On the road dentro

Publicado em junho 2nd, 2010 | por Thiago Momm

25

LA POLICÍA BOLUDA

Nas férias do meio do ano, muita gente se joga para a Argentina.

É sempre ótima pedida, desde que por lá você viaje de ônibus (baratos, confortáveis, servem vinhos) ou avião e deixe o carro em casa.

Dirigi um Fiesta com placa de Florianópolis na Argentina. Não faça isso. Imagine que naquelas estradas das campanhas um panda dirige com o vidro aberto e um braço pra fora – mas num carro com a placa preta local. Você vem atrás com a placa brasileira. Você será parado. O panda, não.

Além dessa maldade da polícia argentina (tão bem contestada na pichação da foto de capa deste post, que tirei em Buenos Aires, “inseguridad es la policía”; ver abaixo na home deste site), há vários pré-requisitos para se dirigir pelo país.

A primeira coisa que você precisa é um cambão, barra de ferro ou aço usada para que um carro reboque outro. Ninguém mais usa isso. Eles usam. No Brasil, um cambão novo custa cerca de R$ 180, e mecânicos te improvisam um por R$ 120. Outra opção é me ligar. Depois da viagem fiquei com um cambão no porta-malas. A menos que eu me veja cercado por uma gangue de coreanos, não pretendo usá-lo.

Você também vai precisar de um segundo triângulo. Não me pergunte por quê. Providencie-o. Depois vá atrás da Carta Verde, permissão para dirigir pelos países do Mercosul. Corra até o Detran mais próximo. Por cerca de R$ 100 se consegue uma válida por 15 dias.

La coima, el soborno

Claro, nada disso o livrará de se incomodar com la policía boluda. Essas providências apenas o tornarão um pouco menos suculento. Eles gostam muito de blitz. Em duas semanas, eu e meus amigos fomos parados (não é hipérbole) mais de 15 vezes. À parte uma meia dúzia de caminhões brasileiros, tínhamos a única placa branca do país. Sarcasmos, arrogância, porta-malas revirado, torturas psicológicas. É irritante, mas permanecendo zen você sai ileso nas dez primeiras paradas. Até que estaciona para fotografar os Andes, nas proximidades de Mendoza, e voltando para o carro não liga o farol. É meio-dia. De acordo com a lei argentina, porém, você deveria estar com o farol aceso.

Nisso o policial rodoviário te para – o panda acabou de passar direto. Você fala castelhano. Isso não conta muitos pontos numa hora dessas. A língua que mais interessa é outra: propina.

Dois avisos: 1) O nosso “propina”, em português, é “gorjeta” para eles. A grana que os guardas de lá querem por fora se chama “coima” ou “soborno”; 2) A corrupção existe na polícia rodoviária, de azul. Os de verdes são os federais, sérios e competentes. Nunca fale de coima com eles.

La doble línea

O policial rodoviário que te parou por causa do farol apagado ameaça ficar com os teus documentos e te cobrar uma multa de 700 pesos (R$ 320) pagável apenas em um banco distante. Outra opção é uma multa leve, 110 pesos, paga diretamente para ele. Você paga. Vinte minutos depois, é parado de novo. O seu amigo começou uma ultrapassagem permitida, mas quando voltou para a pista da direita estava na faixa de linha dupla.

– Mira, mira: la doble línea.

É o que diz o policial. Se te multasse, ele apenas cumpriria a lei. Mas ele quer el soborno. E chega ao cúmulo de pedir que você abra a carteira para dar um confere (sério). Avisado, você escondeu a maior parte dos seus pesos. Na carteira, apenas 140. Piedoso, o policial fica com 90.

Alguns dias depois, você finalmente dá sorte: outro policial (sempre rodoviário) diz que o farol esquerdo, el foco izquierdo, está queimado. Você pergunta onde consertá-lo. Ele até dá uma dica, mas depois da multa – só que realmente multa: nada de grana por fora. Você promete pagar mas eles não têm controle sobre isso, a partir do que, claro, você traz a multa para o Brasil. E essa multa fica ali, no porta-malas, ao lado do cambão. Pelo menos um gol no final do jogo, deixando o placar de Policía argentina x Usted y sus amigos em 2 a 1.

Tags: , , , , ,


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



25 Responses to LA POLICÍA BOLUDA

  1. Lucas Pizzolatti says:

    Viajei de Florianópolis até Ushuaia de moto e realmente existe estes problemas citados pelo autor do texto. Quem fala ao contrário, ou é argentino enrustido ou nunca viajou para Argentina. Viajamos em sete motos, todos com as cartas verdes e os equipamentos de seguranças, inclusive com o código de trânsito da Argentina. Entretanto num trecho da patagônio os boludos nos pararam e pediram o “mata fuego”, insistimos e mostramos o código de trânsito, sem sucesso. Como já sabíamos desta estorção, pelos relatos de viajantes, fomos preparados. Não tem jeito, se tu não pagar, eles não deixam tu continuar a viajem, os guardas simplesmente disseram que se agente não pagasse, era para dar meia volta, e voltar pela estrada, não podíamos continuar adiante. Encerrando, cada um deu dez pesos e um de nós que não tinha nada na carteira, teve que dar a luva de moto. Vão viajar que verão esta realidade………..

  2. Thiago says:

    Sim, Elena, eu cometi duas infrações – uma leve (andar com o farol apagado meio-dia) e outra moderada (terminar uma ultrapassagem na linha dupla), mas o que está em questão obviamente foi eu não ter sido multado nessas duas primeiras vezes, mas extorquido. Isso é “educação e cultura”? Um policial literalmente colocando os dedos na sua carteira?

  3. Elena M.Weirich says:

    Olha, meu namorado mora em Buenos Aires e confesso que apolicia de lá não é em nada da foma que está criticando. Vou a cada dois meses prá la e JAMAIS, vi isso. E se por acaso existir por lá oque voce quer falar, é sinal que lá existe respeito. O policial cumpre o seu dever e se a pessoa estiver errada eles dao lição de moral mesmo. Oque falta muito aqui no Brasil pra muitos aprenderem. Cresça e aprenda um pouco de educação e cultura como los hermanos.

  4. Carlos says:

    tbm o cara anda com farol queimado, ultrapassa em faixa dupla e nao quer ser multado, tem mais é que levar multa mesmo.

  5. Washington says:

    Leia e veja o que nos espera…

  6. rafael says:

    Te informa antes de ir pra lá e segue as leis deles.
    Não vai se incomodar. Atravessei a Argentina ida e Volta do Chile. Ninguém implicou comigo e houve uma única sugestão de suborno que eu ignorei e não tive nenhum problema. Decerto tinhas cara de folgado, ou tava fazendo algo errado mesmo. A luz acesa é para que você veja de longe os carros que vem no sentido contrário em pistas simples. Isso ajuda bastante principalmente nas longas retas que existem por lá.
    Boa é a polícia de Florianópolis que mandou eu tirar o carro de lugar me ameaçando porque eu não quis compactuar com o flanelinha que certamente dava um por fora pra eles. Antes de falar dos outros, veja como estão as coisas na sua casa!

  7. Paulo Pennaforte says:

    Vários amigos já fizeram viagens pela Argentina e até relatam um ou outro caso, mas não esse caos aí.
    Bem, existem dois aspectos.
    Há coisas que são legislação. A Carta Verde é uma resolução conjunta do Mercosul e é obrigatória no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, ao menos. Questão de se informar antes.
    Outra coisa: antes de viajar, pegue o Código de Trânsito no Consulado ou internet. E leve junto. Algumas dessas coisas, como o pano para morto e 2° triângulo, são invenções para extorquir grana. E já existem há décadas.
    Há uns 20 anos um policial no Paraguai me pediu o 2° triângulo. Eu disse, educadamente, que consultara a legislação paraguaia antes de viajar e que, devido aos acordos do Mercosul, isso não era mais exigido [chute meu]. O cara desistiu.
    De resto, polícia é polícia em qualquer lugar do mundo. Seria interessante vocês falarem com os argentinos que vêm de carro ao Brasil para ver o que ocorre com eles. Eles vão falar coisas semelhantes.

  8. Thiago says:

    Não duvido que um carro com placa Argentina no Brasil deva passar por alguns perrengues, mas para nós mesmos dirigindo por aqui a coisa é uma baba: fiz 7,7 mil km até Jericoacoara, no final do Ceará, e a nossa polícia deveria estar no Facebook. Zero blitz, zero mostrada de carteira. Na verdade só havia alguns com radares meio atrás de moitas tentando pegar os incautos.

    Na Argentina eles foram boludos e eu meio banana, mesmo. Os leitores que já dirigiram mais por lá têm toda a razão.

  9. Joao Carlos Truppel says:

    Há 3 anos viajo via Paraguai, Argentina, Bolívia, Perú, Chile…..sempre na volta, na região de Posadas os policiais pedem propina….simpliismente nao pago e pronto….peço pra me darem a multa por escrito pra pagar em banco…jamais pago…..no Paraguai fazem a mesma coisa…inventam ultrapassagem que nao aconteçeu…..é só ficar calmo e nao pagar……uma filmadora e ameaça de ligar pra embaixadas ajuda a intimidá-los…….

  10. carlos says:

    solução é não irmos,nós brasileiros para lá, e esperar que eles não venham para cá, poluir nosso litoral, pior ainda é que as autoridades de lá sabem da corrupção e fazem vistas grossas, e as daqui sabem , mas não fazem nada! até quando?

  11. jorge says:

    Até parece que no Brasil não existe suborno e que a polícia não vai extorquir os viajantes, sejam com placa da Argentina ou do próprio Brasil. Se imagine na seguinte situação: vc viajando de carro, pelo Rio, com R$ 20.000 no carro. Reze para ser assaltado e não para a polícia te pegar. Se um ladrão te rouba,vai te deixar a pé na beira da estrada. Se a polícia te pegar, vai te matar e forjar um assalto para ficar com a grana, pois não pode simplesmente te roubar e deixar ir embora. E vcs ainda tem coragem de falar da polícia da Argentina??? Parece que vivem em outro país que não é o Brasil. Parece que vivem na Europa ou EUA. Da próxima vez usem um pouco mais o senso crítico antes de simplesmente sair falando mal. Se enxerguem e olhem um pouco para os próprios problemas do Brasil. Quando nos olhamos no espelho temos a chance de melhorar. Isso é bem mais difícil, mas também é mais recompensador que simplesmente sair falando mal dos outros.

  12. Maycc Camilo says:

    Lendo seu depoimento não puude deixar de relembrar minha viagem e anos pelos países da América do Sul e sempre os Argentinos nos parando e querendo “propina” mas te digo uma coisa. Este ano não tiraram sequer um misero R$ 10,00 reais, alegamos sempre que estávamos em estudo e que se quizesem que multassem pois pagaríamos no próximo posto de atendimento. Claro que não deixaram de tentar sempre tinha um novo posto policial e um guarda sem escrúpulos. Quer multar, multa então….mas dinheiro pra ladrão não dou, me lasco que que não dou , não dou…

  13. Roberto Schwartz says:

    Cara, fui vítima do mesmo golpe na saída de Mendoza, com um carro com chapa do Chile, extorquido por estar com o farol desligado ao meio dia , com um sol brilhante no céu de brigadeiro. Não é à toa que na Transparência Internacional a Argentina é considerada ainda mais corrupta que o Brasil. Brasil 69º junto com Cuba e Argentina 105º uma tristeza para um país tão bonito.

  14. Marcelo says:

    O post é interessante. O “soborno” conhecido. Mas, quanto à lei Argentina, lá ela deve ser cumprida. Descontente? Vá passear em outro lugar. Não defendo as leis deles, mas, temos que respeitar. Muito menos, defendo o maldito “soborno”, mas ele existe em todo o mundo. Sei de histórias desse tipo de prática até nos Estados Unidos. Uma dica: ao invés de Argentina vá para o Urugiuai, experiência própria, pessoas gentis (desde o consulado em Floripa, pois lá também devemos ter uma permissão para entrar com veículo) até os atendentes da duana e policiais. No mais, é seguir a lei e fugir do “soborno”. Creia, os Argentinos quando vêm pra cá passam, com certeza, pelo mesmo problema. Aliás, experimente viajar dentro do Brasil, e se indigne com o “soborno alla brasileira”. Em fim, uma prática terrível, mas que não é exclusividade da Argentina.

  15. Adriano says:

    Já fui várias vezes à Argentina. Só tive problemas com os gaúchos de entre rios! esta terrinha na fronteira é uma desgraça!
    De Buenos Aires para o Sul. não percebei nada disso em nenhum momento, muito pelo contrário.
    Nas raras vezes que fomos parados foram sempre educados e solícitos. basta cumprir a lei e pronto!
    Aqui no Brasil a nossa polícia é muito pior…acredite!

  16. Rodrigo says:

    Cansei de viajar pela Argentina (e ter que deixar propina algumas vezes). O mínimo que vocês deveriam ter feito é consultar a legislação local. Os policiais lá são uns boludos, mas vocês foram ingênuos, né?
    Regras básicas:
    1) Viajar com todo o equipamento obrigatório;
    2) Respeitar as leis;
    3) Não ter pressa;
    4) Levar cigarros e café no porta-luvas (os policiais viram amigos com “presentes”);
    5) Não sucumbir ao teatro do “seu carro vai ser rebocado”. Se você tiver paciência, depois de 10 minutos eles se rendem e pedem propina;
    6) Andar só com o dinheiro necessário para o “pedágio” na carteira. Faça a sua parte na encenação, nem que seja para “ajudar os pobres infelizes” a comprar um botijão de gás para o fogareiro da guarita…

    E lembre-se: os amigos boludos estarão de prontidão, na volta da viagem, e vão se lembrar de você. Faz parte do folclore de viajar de carro pela Argentina, é só ter paciência, uns trocados, e não perder o bom humor.

  17. Lauri says:

    Pior que isso, foi o que passei. Após estar tudo correto, me pediram o tal de pano branco, questionado, respondeu-me que era para cobrir cadáveres em caso acidente. Meu amigo, o sujeito pede isso, já pergunta quanto querem pra nem perder tempo. Mas jurei pra mim, meu carro nunca mais passa por lá…

  18. André says:

    Aqui eles vem pra cá e fazem um monte e nada acontece,somos obrigados a pagar I.P.V.A eles andam aqui com os carros todos irregulares e nada,a policia daqui é muito boazinha.

  19. roberto says:

    No meu Blog ROBERDEX tem fotos que comprovam a minha passagem pela Argentina. Foram 2 viagens de mais de 20 dias cada, com Land Rover com placas de Florianópolis. Só marchei com 10 pesos como ajuda pra comprar água para um posto policial. O cabão obrigatório custa 20 reais no lado Argentino e a carta verde paguei 40 reais por 30 dias valendo 3.000 milhões de pesos de seguro. No Chile , na cidade de La Serena, policiais de moto servirão de batedores para me comduzirem até a beira da praia. Pelo visto dei sorte nas viagens, abraços
    Roberto

  20. Ronaldo Daniel Basto says:

    Eu tinha conhecimento que os argentinos eram cretinos, mas não imaginava que era tanto, aparecem aqui no nosso litoral catarinense depois, com a maior cara dura, parecem todos uns santinhos do pau oco, que vergonha o que eles fazem com a gente lá dentro da Argentina, eles vêem para cá tratamos eles bem até demais.

  21. Sérgio says:

    Em maio entrei em Puerto Iguazu para visitar as cataratas argentinas, e depois seguir até Alba Posse, pegar a balsa e entrar no RS por Porto Mauá. Saí das cataratas pelas 12:30hs, com um sol de rachar, e não me lembrei dos faróis. Resultado: andei uns 10 km e fui pego. Foi bem essa história, tinha que pagar a multa em outra cidade, ou “pagar” com eles mesmo. Morreram aí R$ 50,00. Levei 2º triangulo e kit 1º socorros, mas não levei cambão, mas essas coisas não foram solicitadas. Fui parado mais umas 4 vezes e só pediam a carta verde (paguei R$ 30, por 10 dias), além dos faróis e “cinturón de seguridad”.

  22. Julio Cuevas says:

    Estive varias vezes na Argentina, por vários dias, inclusive 20 dias com camionete com placa de Florianópolis, e a única vez que me pararam argumentei e não levaram, saí ileso, no Brasil tb fui achacado que nem lá. Em tempo apesar do nome sou brasileiro e de floripa.

  23. Tamara says:

    Muitooo Bomm! lembrei de ti contando! “La doble línea” hahahah

  24. Thiago La Vega says:

    hahaha… la inseguridad es la policia!

  25. Murilo Souza says:

    hahahah Viva la era de la boludez.

Subir ↑