On the road transitodentro

Publicado em novembro 22nd, 2010 | por Thiago Momm

7

LES MISERABLES

Como quase todo mundo em Florianópolis sabe, a recente declaração do colunista da RBS Luis Carlos Prates sobre “qualquer miserável ter um carro” reverberou nacionalmente.

Virou matéria na Record, e só no YouTube já acumula mais de 400 mil views – assista ao vídeo clicando aqui.

Como é usual com notícias pop, a coisa toda parece vir gerando mais furdunço que reflexão, mais raiva que bom senso. Poderíamos partir da polêmica, no entanto, para abrir debates mais inteligentes e relevantes.

Os três pontos principais do comentário de Prates foram: 1) Os pobres financiam carros demais; 2) Por saírem frustrados de casa, dirigem insanamente; 3) Compram automóveis sem nunca ter lido livros.

É óbvio que o colunista não foi muito feliz com o seu recorte. Não são apenas os pobres que financiam carros que não podem pagar; não há muitas evidências de que as classes média e alta dirijam menos frustradas por aí; aqueles que chamou de miseráveis também não são, provavelmente, os únicos motoristas pouco afeitos a livros.

O médico e o monstro

Na hora de criticar os mais ferrados, esquecemos a autocrítica. É como se fôssemos uma elite de primeiro mundo – culta, bem comportada, altruísta. Aqui em Santa Catarina, adoramos nos ufanizar que, dada nossa ascendência, nosso estado é uma cópia perfeita do que há de melhor na Alemanha ou na Itália.

Deveríamos fazer o dolorido exercício, nós classe média e alta, de nos sentir um pouco piores. Em vez de resmungar sobre o pobre que acaba de comprar um carro, nos compararmos com a elite de países que estão muito à frente.

Para começar, falta-nos cultura de transporte público. Engravatados europeus, por exemplo, utilizam metrô, ônibus, bicicletas. Aqui, mesmo nos poucos casos em que o transporte público é eficiente, nós não o usamos. O ônibus pode ser o especial, com ar-condicionado e assentos acolchoados. No Brasil, quem tem carro não quer ser visto no busão. O pensamento de que um ônibus cheio poupe a rua de 30 a 50 carros não passa pela cabeça de muita gente.

Sobre os pobres dirigirem insanamente, basta lembrar que boa parte dos motoristas mais prepotentes parece estar nos utilitários de luxo. Até estatísticas em contrário, não acredito que os carros mais baratos estejam envolvidos em quase todos os acidentes – podem estragar mais e a partir disso também atrapalhar o trânsito, o que é outra coisa.

Como escreveu o colunista da Folha de S.Paulo Nelson Ascher, no trânsito somos os personagens de Stevenson, o médico e o monstro, Dr. Hyde e Mr. Jekill. Se avaliados nosso comportamento no volante e fora dele, somos bipolares. “Pacatas velhinhas, moças de fino trato, pacifistas”, lista Ascher, se tornam pessoas bizarramente irritadas ao dirigir.

Vale, porém, lembrar que Prates também critica comportamentos das elites, e o que falou sobre pobres motorizados não foge muito ao que ouvimos em churrascos. Torná-lo alvo único dos nossos ressentimentos é meio simplista.

Jane Austen

Sobre os livros, finalmente, entendo – admiro, aliás – a coragem de Prates em contrapor consumismo e cultura. É um direito seu, ficar desapontado quando o dinheiro vem desacompanhado de leituras. Como acredito que os livros nos engrandecem e nos fazem viver melhor em sociedade, também espero que mais cultura vire mais dinheiro, e menos cultura, piores contas bancárias. Fico feliz que um colunista com tanto ibope como Prates fale abertamente de um tema tão controverso.

O problema, mais uma vez, foi restringir a crítica aos miseráveis. A elite como a mais letrada e espirituosa das classes sempre me pareceu algo mais de romance da Jane Austen que da realidade brasileira atual. Nas nossas casas mais ricas, que de vez em quando frequento, ou não vejo livros, ou vejo auto-ajuda e intocados catálogos de arte. De novo, há as exceções de sempre, mas a classe mais consumidora de livros (talvez alguma pesquisa que eu desconheço comprove) parece ser a média. Pelo simples motivo de que, não sendo o Brasil a maior das meritocracias, conhecimento aqui vira menos dinheiro e reconhecimento que em outros lugares.

Como fez uma boa escola, com certeza o sujeito dentro do utilitário de luxo já leu um livro na vida – mas em inúmeros casos, garanto, leu menos que 15. Logo, não faz muito sentido unir livros e automóveis apenas ao falarmos dos pobres.

Senso de coletividade

A polêmica em torno do que disse Prates será só uma de muitas no novo momento brasileiro, tão bem-sucedido economicamente e ainda não tanto assim em outros aspectos.

Somos um caso curioso entre os países mais industrializados do mundo. As universidades americanas, francesas ou mesmo chilenas mais antigas têm centenas de anos, enquanto nenhuma universidade brasileira completou um século. Nos países mais ricos uma democracia plena e suas consequências estão enraizadas; no Brasil, temos 25 anos de democracia e um forte senso de fodam-se os outros.

Ou seja, em outros países a difusão do conhecimento e o senso de coletividade vieram antes; aqui, dinheiro e educação estão crescendo mais ou menos juntos. O país está apenas começando. É ótima oportunidade para discutirmos nossas feridas, e foi isso, ainda que do seu jeito truculento, que Prates fez com a sua declaração.

Tags: , , , , , , ,


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



7 Responses to LES MISERABLES

  1. Felipe says:

    Texto genial. Parabéns!

  2. Rock Catarinense says:

    o Sr. Prates tem sérios problemas, teria ele alguma chance de se interna-se para o resto da sua medíocre vidinha de faz de conta?!

  3. cucoliquio says:

    “forte senso de fodam-se os outros”. é isso aí aqui. infelizmente.

  4. João says:

    Roberta, o que o Prates falou sobre popularização do automóvel e crédito facilitado deixa claro que o “miseráveis” se referia aos pobres sim. Até porque a miséria cultural nunca foi empecilho pra comprar um carro e não foi “esse governo espúrio” que mudou isso.

    Quanto ao Prates, ele é um babaca preconceituoso com idéias absurdas e ideologia absolutamente retrógrada, mas o comentário dele não é completamente desprovido de valor. Criticar a aquisição de um carro como prioridade absoluta de uma família é válido. Criticar a falta de cultura do brasileiro médio é válido. Mas jamais dessa forma preconceituosa, que bota a culpa dos problemas do Brasil em quem mais sofre com eles.

  5. Juarez Jr says:

    Roberta completou..e bem a melhor critica ao texto de Prates..a miseria cultural e moral..engatinha com os brasileiros..
    ainda q contundente e exageradas palavras..Prates decide pegar na veia do ouvinte.. e NECESSARIO SE FAZ trazermos a discussao proposta pelo Autor..questoes devem ser revistas..”entre uma mamadeira e outra” rsrs … parabens primo

  6. michele d. says:

    ótimo, melhor crítica da crítica do prates que li até agora. tudo foi dito, não há mais nada para comentar.

  7. Roberta says:

    por que miserável tem que, necessariamente, significar pobres de dinheiro? por que não miserável de bom senso, ou de cérebro, ou de coração, ou de seja lá o que for? o que eu entendi dessa crítica dele é que pessoas preferem ser miseráveis e paga 50 conto pro tio da auto-escola passarem eles com êxito, sem sequer lerem a cartilha do trânsito. tendo ou não dinheiro, as pessoas preferem dar “o jeitinho brasileiro” de arrumar e conseguir as coisas, do que realmente fazer o que tem de ser feito. gostam de passar na frente dos outros por onde dá, ao invés de organizar tudo. aí que o trânsito vira o caos, aí que as pessoas se irritam, sendo pobres ou não, aí que o cara prefere pegar seu carro e sair sozinho, do que ficar parado no ônibus, no calor, em estradas mal planejadas enquanto o engarrafamento acontece. é tudo uma bola de neve que começou quando um brasileiro preferiu fazer do seu jeito, ao invés de seguir o fluxo.

Subir ↑