On the road itac4

Publicado em janeiro 30th, 2012 | por Revista Naipe

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LICENÇA

M. nasceu em Londres, onde trabalhou com ações dos 19 aos 26 anos.

A labuta o lanhou mentalmente de tal maneira que o homem se enfureceu, comprou um apartamento no centro londrino, arranjou um locatário e com a renda mensal veio morar em um reduto hippie aqui nos trópicos, onde mostra a turistas europeus os poderes da ayahuasca.

R., brasileiro, 29 anos, surfou, assistiu muitos filmes, escutou boa música, tocou violão, leu, começou a faculdade, abandonou, morou cinco anos pelo mundo a maior parte do tempo como barman e gerente, se banqueteou com mulheres a ponto de ter acessos precoces de melancolia e voltou ao Brasil, onde tenta se aquietar como jornalista.
T., brasileiro, 28, lamenta nunca ter morado fora, mas viajou muito por conta própria e como repórter de turismo de um grande jornal. Até decidir que odiava uma grande cidade, pedir demissão e voltar para Florianópolis, onde mora em uma casa silenciosa com vista panorâmica de sítio. Não por contraculturalismo, mas por contrapeso à sua ambiciosa formação urbana. Em São Paulo, desenvolveu rancorosas teses sobre uma população de expectativas emocionais limitadas pelos apertados playgrounds da infância, a multidão com a maior falta de traquejo que já viu, ou a pior forma de solidão é a companhia de um paulista, crédito Nelson Rodrigues.
Mas sem dúvida que la langue est le fouet du cul e mais tarde T. se flagrou reclamando da falta de seriedade profissional manezinha. “Um outsider, como eu”, diagnosticou seu pai, com meio sorriso.
C., norte-americana, 22 anos, inteligente sem alarde, pele indígena, olhos verde-hortelã, predileção por mulheres, brincos ripongas, hábitos frugais, corpo correspondente, estava de saco cheio do mundo e veio ensinar inglês para crianças em uma ONG no interior fluminense. Em albergue de Itacaré, Bahia, Brazil, 26 de dezembro de 2008, passeava pela cozinha com um short da seleção sueca, no que M., R. e T. a tomaram por uma dessas escandinavas que rodam o planeta sob o plano inconfessado de desmoralizar outros povos.
– No, I’m from US – ela corrige, os quatro mais tarde jantando no pátio pouco iluminado de um restaurante. C. e M. descobrem que R. viveu por mais de um ano nas suas cidades de origem. Assunto para muitos dias. Contrariando tendência de vida inteira, T. é o que menos fala. Primeiro, por nenhum acréscimo relevante no tópico cidades natais. Depois, a perda de 40% de audição no ouvido direito; o inglês menos avançado que o do resto da mesa; o sobrepeso ganho na viagem, concentrado no rosto, inflado como se constantemente ventilado de dentro para fora; uma adoração súbita por C.. Nada ajuda, e T. fica acuado, silencioso, alheio, em uma espiral de auto-recriminação e esquisitice.
Nos últimos 12 anos ele tivera o mesmo bom desempenho com o público feminino que R. – um índice surpreendente de feitos e outro não insignificante mas administrável de frustrações. Só que a consciência disso o exaspera: o presente nublado pelos parâmetros do passado. Quem sabe a viagem de 45 dias e 8 mil quilômetros pelo litoral brasileiro, essa com parada em Itacaré, não seja um rito de passagem, sua troca de pretensões casanovescas por caseiras a tempo de não se tornar uma paródia de si mesmo? No perfil The silent season of a hero, Gay Talese descreve o ocaso do grande jogador de beisebol Joe di Maggio.
“…DiMaggio estava cabisbaixo no carro de O’Doul de volta para San Francisco. Ele se ergueu, entretanto, quando O’Doul chegou em um posto de gasolina onde uma linda menina ruiva estava sentada em um banco, pernas cruzadas, lixando suas unhas. Ela tinha uns 22 anos, vestia uma saia preta apertada e uma blusa branca mais apertada ainda.
“Olha,” disse DiMaggio.
“Sim,” disse O’Doul.
O’Doul se virou quando um jovem se aproximou, abriu o tanque de gasolina, começou a limpar o para-brisas. O jovem vestia um uniforme branco sujo na frente do qual estava escrito o nome “Burt”. DiMaggio continuava olhando a garota, mas ela não se distraía das suas unhas. Então ele olhou Burt, que não o reconheceu. Quando o tanque estava cheio, O’Doul pagou e partiu. Burt voltou para a sua garota; DiMaggio afundou no banco da frente e não abriu seus olhos de novo até que eles chegassem em San Francisco.”
*****

Então esse dia chegara. O misto da vaga vontade de com a forte impossibilidade de. “Puta exagero”, T. pensa, rindo de si mesmo. Mas não recusa a sobremesa e sai do restaurante abaloado. R., que já o vira mais magro, avalia seu rosto e sua barba não feita: “Meu velho, tu tá parecendo um internauta árabe punheteiro de sótão.”

Todos vão de carro até a orla da praia principal. T. sapeca no iPod, a pedidos gringos, músicas brasileiras. Como novos moradores do país, C. e M. já se distanciam dos cartões-postais sonoros nacionais e perguntam até por Moptop.
– …and then there was this guy in Salvador… – conta C., falando abertamente de um date rape. Na casa de família em que estava, ela teve a confiança traída por um dos moradores, um sujeito atarracado de 20 anos. Em passeio de começo de noite pela praia eles entraram na água, onde a parte de baixo do biquíni dela foi arrancada à força. Se isso motivara sua dileção por mulheres ou apenas a reforçara, ninguém quis perguntar. Uma confissão tão rápida já era inusitada o suficiente.
À conversa avançada se somam a música, a bebida e a noite baiana estrelada com o dimmer no máximo. Os quatro vão dormir inquietos, prometendo conexões eternas.
Na noite seguinte, o albergue promoveria um esquenta e despacharia os hóspedes em peso – bêbados, marijuanizados e com as almas acesas – para uma festa. Ao final de uma rua de terra, à beira da praia, arames lisos amarrados em tocos de madeira delimitam a entrada do lugar, um quintal de areia macia e coqueiros inclinados com um quiosque ao centro.
“Um forró psicodélico” é como R. define o som ao vivo. Ele sacoleja efusivo, descalço e sem camisa diante do palco. Segura pela tampa, com o indicador e o polegar, uma garrafa de dois litros um pouco amassada contendo poção alcoólica no lugar do refrigerante. Daí o espanto quando esse sem-teto está sendo procurado por uma modelo global.
Não que ela fosse desconhecida de R. Já havia sido abordada por ele em um rafting à tarde. Sua magreza razoável estava num maiô preto, e para remar, mergulhar de uma pedra alta ou contemplar o rio – para tudo ela destoava da plebe mantendo a cabeça erguida, o fino pescoço esticado, o pequeno rabo de cavalo amarrado com força, o sorriso condescendente alongando os olhos cinza. Ela era a eleita; seu pai e sua irmã mais nova, o séquito.
– Sua filha poderia ser modelo – comenta R., para o pai.
– Ela é. Saiu de Porto Alegre há tempo. Um ano em Londres, agora cinco em Roma.
Assim foi, e no off-road, na volta para o centro de Itacaré, houve a abordagem direta. Semana rápida de férias na Bahia, namorado na Itália. Em deferência ao português ainda hesitante do londrino M., a conversa é em inglês. T. entende quase tudo mas, de novo, não morou em Londres, ficando sem senha para um grande trecho de conversa.
*****
No forró psicodélico, ao terminar de dançar com um desconhecido a supermodelo fica sozinha e procura por R. Descobre que ele está na frente do palco.
M. se atraca com uma brasileira, no que C. e T. ficam sozinhos e criam uma bolha. A quase invisibilidade dele na noite anterior a interessara. Talvez porque assim ele pouco lembrava um ogro que arranca biquínis dentro do oceano. T. olha em volta: várias mulheres que ela deve julgar interessantes, se o seu GPS estiver programado para localizar alternativas.
A conversa cresce, os assuntos fluem, eles descobrem opiniões, livros e seriados em comum.
– It’s amazing to be here – ele diz, preenchendo o primeiro silêncio em muitos minutos.
– The place is really awesome.
– No. I mean, here – ele emenda, sorrindo da maneira menos canalha possível e delimitando, com os braços esticados, as palmas das mãos viradas uma para a outra, o espaço dos dois.
Ela apoia a mão direita no pescoço dele, acaricia sua orelha com o dedão e o encara com um olhar que talvez pergunte algo como “posso tentar sem muito entusiasmo?”.
E ela mesma responde.
Nada das línguas da pornografia, agoniadas como lagartos em disparada pelo mato, um gesto que em motéis recentes ele se flagrara ridiculamente emulando. Voltando aos passos iniciais se extrai mais das coisas. As duas línguas se experimentam do jeito detalhado e hipersensibilizado da adolescência. Desde que uma médica interrompera um beijo desses perguntando a T. se os dois iriam “dar uma de namorados” no cinema, ele vinha beijando cada vez mais com os braços, o quadril e o acervo mental pornô do que com a língua.
Quando C. e T. param, se olham e avaliam o resultado. Na sua bagunça mental de bêbado, T. esbarra em vários pensamentos aleatórios, o último “Não importa se você merece: mantenha”, que C. interrompe com o português carregado.
– Você sabe que eu quase só beijei garotas?
– Sim, imaginei. Mas por que…
– Não, não. Só pra dizer que estou bem.

*****
É a Noite dos Acontecimentos Incríveis. Depois de mais algumas músicas ela o abraça e pergunta se ele quer dar uma volta; já na rua de terra, fora da festa, eles ficam encharcados por uma tempestade repentina.
Um grande acontecimento porque os dois se refugiam debaixo da borda do telhado de uma casa de madeira. C. dá tímidos conferes na bermuda de tactel do seu parceiro hasteado, mas turistas fugindo da chuva começam a passar. T. reconsidera a situação. É difícil manter o papel de homem sensível transando em pé, a bunda virada para a rua. Para bravatas posteriores, não obstante, a possibilidade soava promissora.
Enquanto ele titubeia ela resolve pelos dois que ali melhor não, e eis que eles caminham sob o aguaceiro abraçados até o carro, estacionado a pouco mais de meio quilômetro.
Ar quente ligado, Céu no iPod (um reforço à atmosfera light), T. engata a primeira, solta o freio de mão e abaixa o banco do carona, onde ela está. Sem pedidos, C. tira a blusa azul clara empapada. Também se livra das Havaianas. Depois, prende o cabelo. Ela tem os braços magros e a barriga chapada à maneira dos naturebas, não por exercício mas por aparentemente nunca ter feito duas refeições ruins no mesmo mês. Os hioides saltados destacam um colar simples. Os vidros embaçam. As roupas restantes dela e todas as dele vão para o tapete do carro de um jeito até rápido mas polido, os dois trabalhando juntos em cima de cada peça. Ela pede camisinha. Ele pede pelo amor de deus. Mas não tem jeito. Por favor, ela insiste, com um beijo rápido como reforço do pedido.
O embriagado T. pega a Jontex na carteira. Camisinha e muita bebida podem não combinar, mas a coisa ainda piora bastante se você passa desajeitado para o outro banco. No pouco espaço ele não consegue ficar ao lado dela, como planejara, e acaba com seus 78 quilos (quase meia arroba a mais que seus 72 regulares) em cima daquela beldade de 50, com quase 1,70m.
Meio barro, meio tijolo. Vai, não vai. Mais para não. O constrangimento se sobrepõe à música, aos bons ventos da noite, a tudo. C. atribui a culpa a si mesma, explica sempre ter sido um desastre com os homens. T. diz “licença” e despacha a camisinha. Isso feito, arremete e evita o desastre. A coisa acontece. De um jeito confuso, sem a confiança e a calma pretendidas, mas acontece, e com o sabor da imprevisibilidade. Ele pergunta se ela está ok. Um sim vem com a cabeça. Terminam. O iPod já toca outra coisa.
No albergue, T. entra no quarto escuro. São pouco mais de 5h. Dos seis beliches, quatro estão ocupados. M. ainda não chegou. R. dorme com uma camiseta nos olhos.

*****
Nem 10h, ainda. M. entra pilhado no quarto e acorda seus dois novos amigos brasileiros. Nem aí para os outros hóspedes, abre a porta verde dobrável que dá para o jardim. O sol chega nos colchões. “Filhos da puta”, diz sorrindo, com muito sotaque.
– Me and C. were having breakfest together. She just told me about you two.
Claro que ela relatou apenas o básico. Alterado pelos acontecimentos, T. não acrescenta nada. Apenas senta na cama e, olhos mal abertos, sorri com as suas bochechas gordas. Depois sorri mais, também não vai deixar dúvidas de que aconteceu.
“Filho da puta”, repete o gringo. “E esse aqui é outro”, diz, apontando para R., na parte de cima do beliche. “Falando com a modelo ontem.”
R. não quer se pronunciar. O trauma é muito recente. Insistimos, e aos poucos, entre muitas conjecturas do que a madrugada poderia ter sido, ele a relembra.
A modelo gaúcha-global o procurava para estar com ele, mesmo. Lento, bêbado e vaporizado, no entanto, R. mal reagia. Ela o convidou para os espaços mais afastados da festa. Isso antes da chuva, sob o marulho e os coqueiros tortos de Itacaré. “Daí o nativo me pegou assim”, disse à certa altura, juntando suas duas cinturas para ilustrar o caso. Nada. O mazanza estava inerte, num misto de alucinação, letargia, ceticismo.
Mesmo desanimada, ela ainda ofereceu carona no táxi, explicando que o albergue dele ficava a caminho do seu hotel. Ao entrarem no carro, aí sim chovia, no que um nativo próximo também ganhou carona. “Até”, foi a palavra derradeira da modelo antes de seguir corrida com o baiano que talvez tenha apaziguado sua fúria de férias – se não a considerou magra demais.
Na recepção do albergue, T. e C. se abraçam e saem juntos para uma casa de sucos. Ela não parece frustrada, pelo contrário. Tem o seu jeito contido mas alisa o antebraço dele entre colheradas no açaí com banana. Só que logo depois do meio-dia ele tem que partir. A subida pelo litoral continua. Há reserva em outros albergues. E por motivos óbvios R., parceiro de trip, descarta o prolongamento da estadia em Itacaré. “Por que você não vem?”, T. pergunta a C. como cartada final.
Ela está indecisa, aflita. Tem voo de volta para o Rio em três dias. Finalmente, recusa. Feita a despedida, sai para a praia. T. e R. entram no Fiesta e partem. Depois, ficam sabendo por email do londrino M. que C. voltou da praia angustiada, correndo, disposta a mudar todos os planos. “Tentei ligar, cara, mas o celular de vocês estava fora”, escreve o inglês.
C. e T. mantêm contato mais tarde. Mas tudo arrefece. Ele a convida para ir a Florianópolis, escreve emails precipitados. Ela retoma a rotina, começa a sair com uma menina, prefere não complexificar as coisas.
Hoje são, um para o outro, apenas mais um contato no GTalk.

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One Response to LICENÇA

  1. Guilherme Pedroso says:

    me amarrei cara.

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