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Publicado em março 26th, 2013 | por Thiago Momm

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Lo-li-ta

Há tempo sofre o universitário pela lolita do condomínio. Por sorte é um Humbert Humbert de apenas 22, e ela, uma lolita de 16-quase-17.

Tarde na piscina. Roupas sendo passadas pela moça da faxina diante do Vídeo Show e ela sai do apartamento, os pés nos pisos gelados, a alça da parte de cima do biquíni deslocada para comparar tonalidades no espelho do elevador, a vizinha mais velha entrando no quinto, o biquíni escarnecendo do jaleco em fevereiro indo trabalhar. Lo-li-ta abre o portão de alumínio, caminha pela pedra São Tomé, deita na espreguiçadeira, liga o iPad.

Humbert confirma a chegada dela lá de cima e desce com a toalha no ombro, o protetor ainda não passado, o xerox da faculdade. Ninguém mais aparece. Nenhum vizinho agourento.

A primeira hora vai quase toda no xerox. Para ela, no iPad e depois de bruços pensabunda, os dedos da mão direita chapinhando uma poça morna formada pela erosão na pedra. Mas então lolita levanta, segue para a ducha e dali para a piscina. O mergulho dela aprofunda o dele nas especulações sobre os dois. As tardes de sexo no chuveiro frio, as áreas branquelas, os bicos desbotados, as dores no joelho, as risadas de como é difícil fazer no box. De volta à superfície, Humbert se deprime com o fato de ser apenas um vizinho covarde atrás de 50 folhas A4 com ideias estéreis (ele e as folhas), mas tem malandragem acumulada o suficiente para reagir. Sai dali e cai na água.

De repente se falam. Para surpresa dele, porque sabe que um acesso nefelibata geralmente significa desistência da realidade; significa também, talvez, projetar uma situação absurdamente perfeita para lamentar menos a perda iminente da situação apenas real.

Mas só falou qualquer coisa e pronto. Comentou “muito boa, a água”, ela disse “uma delícia”, ele ignorou a réplica de pornochanchada que veio à cabeça, apostou em generalidades, chegaram ao tema festas. O verão era sinônimo de churrascos frequentes, músicas apavorando os apartamentos alheios e claro, fúria nas reuniões do condomínio. “Nunca sei se os moradores estão putos com o volume do som ou com a alegria dos outros”, comenta Humbert, afoito para juntá-los na mesma faixa etária.

“Meu pai é o síndico”, sorri lolita. Ele diz que ela está de sacanagem. Ela responde sempre pedir para o pai pegar leve: também faz festas, concorda que o prédio tem muita gente mal-humorada.

Lindamente assim. Empolgada, lo-li-ta fala de um aniversário no prédio no último sábado.

“O som escancarado há umas três horas. No apartamento, no décimo segundo, acho, não aqui embaixo. Então ligaram pro meu pai, que teve que ir lá falar com o aniversariante. Tudo de boa, mas o cara bêbado falou sabe o quê?”

Ele olha para a água. Fecha as mãos em concha, faz marolas.

“Não.”

“Que o problema não era do condomínio. Que o problema era da humanidade.”

“Para.”

“Sim, assim mesmo, ‘da humanidade’. O cara disse pro meu pai: ‘O problema é da humanidade’. Quem é o sem-noção que diz isso?”

“Sim, quem?”

Um prédio vizinho agora faz um pouco de sombra na área da piscina. Ela dá um tchau efusivo, gostou de ter falado com ele, sempre o achou interessante, apesar de meio sério, alguém que parece ter vivenciado qualquer coisa horrorosa. Ele fica mais um pouco, se seca, pega o xerox e vai.

Na subida até o 1203, a bermuda preta de tactel pingando um pouco no elevador, Humbert reflete inconsolável sobre o que a faculdade de Direito vem fazendo com ele.


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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