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Publicado em julho 1st, 2011 | por Thiago Momm

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MEMÓRIAS DE UM GOIABA

E então havia Caroço e o sonho coletivo de levá-la para trás das pedras de Itaguaçu.

Claro, ninguém fazia muita ideia do que acontecia atrás das pedras de Itaguaçu. Eram o Cabo da Boa Esperança do século 15, e até o contorno bem-sucedido de Bartolomeu Dias houve naufrágios, tormentas, delírios, todo o pavor e a loucura das grandes navegações. Os que voltavam com extensos relatos eram recebidos com ceticismo; os que diziam ter bolinado Caroço, com desprezo: padeciam da pequenez humana afetada pela infinitude dos oceanos.

Eu nem para trás das pedras ia. A personificação do goiaba: Rider, cabelo tigela e camisas florais, um visual sem paralelos entre os amigos. Logo percebi a disparidade, e afoito como o Zelig de Woody Allen para se mimetizar, raspei o cabelo, comprei um par de Havaianas e investi numa série de camisetas da Billabong. Pronto. Já era esteticamente como qualquer um.

Afoito como o Zelig de Woody Allen para se mimetizar, raspei o cabelo, comprei um par de Havaianas e investi numa série de camisetas da Billabong. Pronto. Já era esteticamente como qualquer um

Mas faltava a personalidade. Os outros andavam de skate, estouravam rojões embaixo de gatos mortos, atravessavam o bairro via esgotos, fundiam seu mundo ao feminino em conversas madrugada adentro nos ladrilhos portugueses mal iluminados pelos postes, diante do mau cheiro da baía de Itaguaçu e aos sons avulsos de pneus, sem-tetos, vira-latas.

Enquanto isso, meu universo era o de Mario, o universo lisérgico que tantalizava adolescentes sem vida além das persianas como eu: os cogumelos, as tartarugas voadoras, a paranoia por moedas, a ilusão de montar um mini-dinossauro ou voar com um lençol amarelo amarrado no pescoço. Era infinita, aquela porra. Eram sete os mundos de Mario, e para explorá-los você não tinha, nos seus 13 anos, tempo para calçadas, cervejas mocosadas e jogos da verdade.

Um dia um amigo o converte às ruas, e logo há uma festa americana em que você escuta seis nãos mas volta para casa com a glória dos que tentaram. Uma semana depois, chega esbaforido em casa, abre o espelhinho do banheiro, lambe uma Close-up vermelha, corre duas quadras e entra no bananal onde a precoce ladina que arranca todos os bevês da região o espera. Pronto. Está abandonado o mundo dos nerds. Nos anos seguintes mulheres serão a sua religião, e por elas haverá intrigas, devoção, peregrinações, enlevo, fogueiras, redenções, liturgias, catedrais.

Entre elas obviamente há Caroço com seu bocão, sua autoconfiança e suas coxas evoluídas antes do tempo – o pôster da Playboy versão lolita, versão sua idade, desdobrado, aberto no meio da rua. Filme na casa de alguém certo sábado à tarde, cobertores xadrez espalhados, nenhuma luz além da emitida pela TV exibindo o patético O guarda-costas (um filme aí de 1992), você arrisca, com a mão direita, uma patolada na coxa esquerda de Caroço. Os dois seguem olhando a TV.

Nenhuma reação. Você navega a barlavento: a mão desliza do joelho até o vão central da calça preta de academia da Dits. É o caso de arriscar uma massagem na parte morna da calça com o mindinho e o anelar. Ela apoia a cabeça em você. Pela meia hora seguinte, o goiaba vive a apoteose da adolescência. Descobre haver coisas mais incríveis que os sete mundos de Mario. Semiconsciente, Caroço se esforça para não gemer, mas debaixo do cobertor suas pernas tremem, tremem e fecham. Eles nem beijaram, e ainda se passarão três anos para que ele coma alguém pela primeira vez. De qualquer maneira, há alguns dias só mexia num joystick de Super Nintendo, e agora talvez tenha descoberto o orgasmo das moças. Quer dizer, talvez não fosse um orgasmo, ele não era a pessoa mais indicada para reconhecer um. Enfim.

Em todo caso emocionado, no domingo ele espalha para o grupo mais próximo. Sim, o laranja que andava de Rider. O banana que levou seis nãos na mesma festa. O mazanza que lambeu close-up para beijar a menina no meio do bananal. A macharada se mostra incrédula e passa a incredulidade adiante. É claro que só quem pode confirmar o feito é a própria. É nela que a notícia chega no meio da tarde, bairro reunido em peso, pelo menos 20 cabeças sentadas na calçada.
Ela se levanta, caminha e não titubeia: um tapaço na cara do goiaba.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



4 Responses to MEMÓRIAS DE UM GOIABA

  1. Manoella Emerick says:

    Muito bom o texto, parabéns!

    http://www.despedidadosvinte.wordpress.com

  2. Raphael says:

    “Quem come calado, come de novo”. (2).
    Agora fala sério, mal cheiro da baía de Itaguaçu… Tá de sacanagem… Pra quem, como eu, cresceu em Coqueiros, Itaguaçu e Bom abrigo, aquele cheiro de maresia é um perfume que remete à lembranças indescritíveis…. De certeza eu fui um dos “outros” descritos no texto… Bons tempos!

  3. Eduardo Gutierres says:

    Lindo

  4. Luisa says:

    HAHAHAHAHAHAHAHA
    Muito bom!
    “Quem come calado, come de novo”. A lição que todos os homens deveriam receber na pré-adolescência.

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