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Publicado em agosto 23rd, 2010 | por Thiago Momm

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MONOGAMIA SERIAL

“Ainda pode existir compromisso no mundo – mas não do tipo que dura quarenta anos.Se estivermos preparados para o compromisso que as pessoas estão dispostas a oferecer, vai ser melhor para todos”, escreveu o jornalista inglês Tony Parsons – não à toa, em crônica compilada num livro chamado Disparos do front da cultura pop.

A ideia é um pipoco na testa de quem acredita nos moldes tradicionais de relacionamentos.

A crônica é de 1994. Já na época Parsons percebeu: “É hora de rever as noções do que queremos dizer com compromisso. Caso contrário, vamos sempre decepcionar uns aos outros”. Os tempos, disse, apontam para a ideia de “monogamia serial” – ou seja, ter um parceiro “a cada seis ou sete anos, e depois partir para outra”.

Só em 2004, mas pelo menos sem ter lido até então a crônica de Parsons, escrevi no jornal A Notícia, de Joinville: “Não que no primeiro casamento não esteja o grande amor, mas é que o conceito de grande amor se democratizou, e de uns tempos pra cá quase todo mundo casa, mora junto ou namora seriamente com tantas pessoas, que todas acabam praticamente se equivalendo na constelação dos relacionamentos”.

Em seguida, brinco que um amor de mais de 50 anos, como o do fictício casal de Florentino Ariza e Firmina Daza (personagens de Gabriel García Márquez), agora se divide em dez amores de cinco anos cada.

Nem eu nem Parsons estávamos falando muito besteira. A difusão da internet ainda reforçou essa mudança de padrão dos compromissos. Praticamente não há mais ex que desapareça. Às vezes estão entre os contatos bloqueados do MSN, dado o incômodo de manter contatos permanentes após certas situações. Mas estão ali, sempre ali.

E o que isso tem a ver com a “monogamia serial”?

Tem a ver que nossos relacionamentos hoje são como peças de Lego permanentemente se recombinando. Você lamenta ter terminado com uma delicinha, e quando se arrependeu ela estava com outro? Pois bem. Seis ou sete anos depois, ela está online e solteira. Agora multiplique essa chance pelo número de mulheres legais que você conhece e que estão nas suas mídias sociais. Não existe mais a desculpa do “gosto muito de você, mas nos conhecemos no momento errado”. A pessoa reaparecerá e você pode refletir: “Por que não ela?”

Enfim, ao conhecer alguém aos 20 anos, hoje talvez estejamos, sim, começando um compromisso de vida inteira. No sentido de ter uma namorada que passará a ser amiga, voltará a ser namorada e assim por diante. Então não termine o relacionamento xingando e incendiando tudo, zele pelo futuro. Adicione-a no MSN e repita isso a cada pessoa especial que conhecer. Lembre que no seu último disco Jorge Drexler canta a frase “amar la trama más que el desenlace”. Ame as tramas, não pense no fim nem mire 40 anos adiante. Como disse Tony Parsons, vai ser melhor para todos.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



4 Responses to MONOGAMIA SERIAL

  1. Ricardo Malinverni says:

    Muito legal o post!
    parabéns!

  2. Isabel Miranda says:

    Muito interessante esse post.
    Apesar de eu discordar em algumas colocações, realmente acredito que devemos aproveitar o máximo o presente (em todos os sentidos). A família, as amigas, o namorado, a faculdade, etc. Uma hora vai acabar, certo?

  3. Thiago Momm says:

    Opa, Piero

    Escrevi no A Notícia, sim – de 2004 a 2006. Depois morei três anos em São Paulo, para trabalhar na Folha, e fiquei esse tempo todo sem escrever crônicas. A ideia aqui é fazer matérias cronicadas ou crônicas mais informativas. Legal que você curtiu!

    Abs,
    Thiago

  4. Piero B. Contezini says:

    Otimo post, coluna na A Noticia é? Legal, cumprimentos Joinvillenses então!

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