On the road tweeter_is_dead_by_tattooedtees2

Publicado em fevereiro 4th, 2011 | por Thiago Momm

0

MORRE UM TWITTER

Se não morrer, meu Twitter vagará pelo limbo virtual das contas esquecidas mas não desativadas.

Tudo bem, o Twitter pode ser mais que um hype. Pode perdurar como troca de dicas culturais e de entretenimento, como jornalismo factual rápido e sabe-se lá mais o que. Longe de mim protestar sobre os pios profissionais do pássaro azul. O próprio revistanaipe.com deve 29% da sua audiência a eles.

Mas e os pios pessoais? “Nós inventamos tecnologias inspiradoras e sofisticadas, mas permitimos que elas nos diminuíssem”, escreve Sherry Turkle no livro recém-lançado Alone Together, anunciado como mais uma forte petelecada do movimento chamado ciberceticismo.

Também cibercético, Mark Bauerlein publicou, em 2008, The dumbest generation. No livro, ele recomenda não confiarmos em ninguém com menos de 30 anos e estilinga: “As fontes de conhecimento estão por tudo, mas essa geração em crescimento está acampada no deserto, passando histórias, fotos, músicas para um lado e para o outro, vivendo confortavelmente a emoção de estar concentrada nisso. Nesse meio tempo, os seus intelectos recusam a herança cultural e cívica que nos fez o que somos agora” (Bauerlein se refere especialmente aos EUA).

É exagerado, mas no mínimo um pouco pertinente. Quantos dias não vamos muito além do óbvio percurso Twitter, Facebook, email? Logo, se você segue 150 pessoas que fazem isso, o que fica sabendo de novo? À parte informações profissionais, não muito mais que os pensamentos repetitivos dos acampados no deserto.


Não entendi muito bem

É claro que toda discussão envolvendo novas gerações pode descambar para o velho ranço pessimista de estarmos piores do que nunca – o que geralmente não faz muito sentido. É sempre mais fácil refletir sobre o crescimento dos mais novos do que da própria pança e dos próprios preconceitos.

Deixando de lado os mal-humorados, o assunto realmente merece umas boas pensatas. As pessoas mais legais, interessantes, desencanadas que eu conheço são primeiro as que não têm Twitter, e depois as que, sem motivos profissionais para ser tuiteiros, criaram uma conta e a deixam parada. São os que dizem:

– Ainda não entendi muito bem pra que funciona.

E pra que funciona, mesmo? Em casos menos estúpidos, para gastar aquele tempo obrigatório diante do computador no trabalho. Em casos mais lamentáveis, para criar um personagem legal. Com que benefício?

O problema é a ilusão de estarmos apenas relatando o cotidiano via redes sociais, sem nos darmos conta o quanto o próprio cotidiano é afetado (ou apequenado, como diz Sherry Turkle) por esse hábito.

Fazer caber

Uma das belezas da vida é aprender coisas com alguém 13 anos mais novo que você – para alguém que lhe fez uma pergunta, Oscar Wilde mandou uma réplica que desafia as crenças de Mark Bauerlein: “Desculpa, não sei responder isso. Não sou novo o suficiente”. Minha namorada, 18 verões, me disse sem se exaltar:

– Para que uma pessoa normal como eu vai querer um Twitter? Dizer o quê, que o Campeche ontem estava legal?

Nisso passei da desconfiança à certeza de que não tinha nenhum motivo para seguir tuitando. Eu intercalava pios pessoais e profissionais. Uns mais inúteis que os outros.

Os profissionais, porque com 90 seguidores contra os mais de 1500 do @revistanaipe, devo ter gerado apenas marolas de acessos. Só de pensar em ir atrás de seguidores me deu preguiça. Os escritores que mais admiro têm milhares de pessoas lendo suas tuitadas, mas escrevem pouca coisa que valha a pena em 140 caracteres.

Dos pios pessoais, tem quem extraia aforismos muito bons do cotidiano. Não é o meu caso. Obrigado a escrever em espaços bem maiores que o Twitter, não vou me esforçar para dizer algo novo por lá. De qualquer maneira, pouca gente diz. Quem divide contrariedades soa melancólico, solitário; quem divide bons momentos soa esnobe, frívolo.

Se tudo vai bem, pra que tentar fazer a vida caber na pequena caixa de texto embaixo de “What’s happening”?

Tsc, tsc.

Tags: , , , , , , , , ,


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



Os comentários foram encerrados.

Subir ↑