On the road markzuckerbergdentro

Publicado em agosto 25th, 2011 | por Revista Naipe

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NÓS SOMOS BAITAS

Tem gente jogando cinco anos fora assim, como se a vida tivesse 250.

Gente com laptop no colo. Universitário com fone de ouvido e microfone brincando de guerrinha virtual, em parceria com amiguinhos do mundo todo. A faculdade passa e ao final isto: meia década de batalhazinhas virtuais. Algumas mulheres, alguns barzinhos, algum estudo. Tudo em seu devido lugar, respeitando a urgência da guerra sobre todas as coisas.

Na entrada para o mercado de trabalho, um grande suspiro – hora de se esforçar, os pais levantando as persianas escuras do quarto e protestando, zumbindo acima do som dos fones, as ameaças de cortar a mesada e a internet, a mãe aflita com o jornal em busca de um emprego para o filho, tentada a ligar para o entrevistador. Não haveria cota para goiabas no trabalho?

Tem quem passe meia década com o laptop um pouco mais para baixo, para poder tocar as partes. Ah, o bufê libertino virtual! Marquês de Sade nasceu no século errado. Imaginem o marquês com Wifi, conexão de 10 mega, descobrindo um sacanagem tube da vida! Não escreveria livro nenhum, um opúsculo sequer, e abdicaria até das beliscadas eróticas da vida real. Webcam, fotos, vídeos e c’est ça, é isso aí.

Imaginem o marquês com Wifi, conexão de 10 mega, descobrindo um sacanagem tube da vida! Não escreveria livro nenhum, um opúsculo sequer

E por que não? Se na cama as pessoas são muito “isso não, aquilo talvez, meu limite é por aqui”, na internet os fetiches avançam – lésbicas romenas masoquistas canhotas de meia-idade com cinturões pretos em público, quem é que nunca quis 59 vídeos sobre isso? Habitante do planeta atual, o marquês nos brindaria com um meio sorriso.

Mas tem gente que não gasta anos nem nas guerrinhas nem homenageando Onã. Os normais. O pessoal (como o autor deste texto, antes da sua apostasia virtual) que mantém como passatempo predileto apoiar a máquina digital nos móveis da casa para fazer autorretratos. Depois, laptop no colo, o upload e o planeta se prostrará diante dos nossos perfis, reconhecendo-nos como o GPS de estética e personalidade do século 21 – só que todo mundo faz a mesma coisa e droga, alguém sempre domina um pouco melhor aquela manha de deixar a foto vintage no Photoshop.

É como criar um avatar. Você faz uma versão sua que parece conhecer tantos países quanto João Paulo II, dominar idiomas, capturar o zeitgeist em aforismos, ser divertida, espontânea, cosmopolita, gregária e conhecedora de filmes antigos a bandas escandinavas formadas ontem à tarde – tudo sem muito esforço, sugerindo que você nem liga muito para tudo isso.

Massa.

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