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Publicado em abril 4th, 2011 | por Thiago Momm

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NOVO O SUFICIENTE

Tenho 31 anos e uma namorada de 18. As pessoas me perguntam como é que eu suporto. Eu me pergunto por que as pessoas perguntam isso, e às vezes apelo a Oscar Wilde.

Você talvez conheça a história. Questionado sobre um assunto qualquer, o fanfarrão dramaturgo irlandês rebateu: “Desculpa, não sei responder isso. Não sou novo o suficiente.”

Não seria mais sincero assumirmos essa postura? Às vezes, nossas forçadas autodefesas contra a passagem do tempo me constrangem. Grupo de ex-baladeiros na casa dos 30 e poucos reunido em casa, efeito das cervejas Eisenbahn com 8,5% de teor alcoólico batendo, alguém se põe a acusar toda a futilidade dessa vida noturna de hoje. Porque há alguns anos era um pouco diferente e tal.

O sujeito sabe que vende uma ideia tão confiável e resistente quanto um xing-ling do camelô. Mas não hesita, insiste. Claro, ele vive sua previsível preparação para ser pai, o que inclui criar, aos poucos, uma visão diabólica dos seres em circulação pelas baladas. Além do que, obviamente, nos seus 17 a 25 anos a música, a cidade, o universo viveram o melhor período histórico. Os mais lúdicos e idílicos anos. Puta coincidência. Acaso.

Estamos no Iguatemi, eu e minha namorada, na fila para pagar o estacionamento. À nossa frente vejo uma mulher exatamente da minha idade. Sei porque saímos algumas vezes em 1997, inclusive a esperei com as costeletas molhadas de ansiedade na saída colégio Energia, vejam que bonito. Agora, na fila, ela fala de trabalho, “estou tentando mas não consigo contratar aquele cara…”. Me identifico e sinto vergonha. Edito uma revista para universitários, o que envolve viver entre cinemas, livros, shows, novas ideias. Isso salva a chatice de algumas conversas sobre o que eu faço, mas não de todas. Com certeza já anuviei jantares de namoro com frases como “não consigo contratar aquele cara”.

Aos 23 anos eu saía com uma médica de 30. Ela dizia não aguentar os desabafos e papos cíclicos dos trintões. Minhas conversas eram non sense, delirantes, pitadas de contracultura com colheres de literatura, vodca ruim e síndrome de Peter Pan. Mesmo careta em termos de drogas, em uma crônica da época imaginei uma boca de fumo com animais e aliterações: “Andava ali a andorinha e seu ácido alucinante, bem onde o beija-flor buscava um bagulho do bom, cá no campo no qual cheirava o cavalo cocainômano…”, até a letra z, “ziguezagueando estava o zangão zoado”.

Sim, bastante esquisito, até porque sempre passei longe do mundo das drogas, mas não importa. Na verdade eu escrevia pior que hoje, porque mais novos somos revisores ingênuos, mas e daí? O que vale mais do que a imaginação, que ideias se multiplicando anarquicamente? A nossa madura conversa sobre a mudança de funções dentro da empresa? O triste mesmo é quando você tenta mudar de assunto e sente um branco. Sobre o que se falava no mundo, além das profissões e das notícias ruins do jornal? É o que tenho lembrado com a minha namorada, uma estudante de Arquitetura da UFSC que circula em meios interessantes.

Não quero idealizar os mais novos. Eles são padronizados pelo consumo desde a década de 1920 e com maior intensidade desde 1945, como mostra o ótimo livro A criação da Juventude, de Jon Savage. Assim, muitas vezes não oferecem nada além de obviedades. Além do que, não tomam Eisenbahn. Mas conheça uma namorada novinha que lê Tom Wolfe deitada ao seu lado e seja feliz. De ruim, você escutará um excesso de histórias junkie-festeiras. Mas ainda são melhores que aquela de não conseguir contratar aquele cara.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



3 Responses to NOVO O SUFICIENTE

  1. Maya Soletti says:

    As pessoas confundem necessidade de se escrever sobre o que se vive e o que se sente com insegurança. Ótimo texto.

  2. jonasb says:

    devolve meus 15 minutos!

  3. Manoella Emerick says:

    E precisa justificar, assim, no jornal e na internet, o porquê de namorar uma menininha de 18 ou uma senhoura de 60? Quanta insegurança, senhor revisor…

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