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Publicado em julho 25th, 2011 | por Thiago Momm

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O GOIABA E A DENTISTA

Ela tirou os dedos da minha boca e disse:

– Tem duas cáries aqui.

Lamentei menos as cáries do que a minha escolha. Eu alternava entre dois dentistas, ela no continente e um conhecido de futebol semanal no Campeche. Os dois novos, inteligentes, entusiasmados. Ele poderia ter descoberto as cáries e ela me feito um clareamento. Mas é claro que eu sou um idiota e a coisa foi ao contrário.

Olhei para as luvas, o cuspidouro, a touca, o sorriso condescendente. O que seriam duas cáries no seu universo de julgamentos? O equivalente a “quando eu fazer” e “latinha meia cheia” no meu? Um universitário de 24 anos com a higiene bucal de uma criança revoltada. Minha pretensão de levá-la ao cinema se esfumaçava. “Sabe, você é minha dentista e eu tenho duas cáries, mas como diz um personagem naquele longa do Billy Wilder, ninguém é perfeito. Vamos ver um filme hoje?”

– É alguma bobagem com o Jim Carrey. Acho que Todo poderoso.

– Hoje sem condições. Cansada, saio daqui muito tarde. Amanhã?

Ao final da consulta, já sem o ridículo guardanapo preso ao pescoço, sentado de lado na cadeira de plástico azul, disparei o convite. Que se danassem as cáries. Minha linda e bem-sucedida dentista de propaganda sabia que eu dirigia um velho e polifônico Corsa preto sem calotas. Sabia que eu era um universitário sem estágio. E estava me vendo de Havaianas, bermuda de tactel e camiseta do Figueirense. Um “sim” nesse contexto valia mais. E veio.

Clique aqui para ler Memórias de um goiaba.

Dimmer

Às 20h30 do dia seguinte, uma quarta-feira, estaciono em frente ao prédio de 15 andares em área nobre do centro. Dou um toque no celular. Abro os vidros manuais e me alivio com uma brisa do verão ilhéu. As caixas de som do Corsa tocam uma música eletrônica pouco enervada, meus braços tostados contrastam com a camiseta branca. Pedrinhas do asfalto refletem os faróis dos carros passando, no céu as estrelas piscam como que ajustadas por um dimmer de motel.

A vida é algo leve, desapressado, revigorante. Os problemas são bem definidos e atacados um a um: uma mulher que dá o fora, uma amizade a ser revista. Nada comparável a mais tarde, quando contrariedades vagas se acumulam, o peso de viver aumenta e já não sabemos muito bem o que combater.

Depois de alguns “clec” e “tac” dos portões do prédio abertos e fechados, ela se curva, olha para dentro do carro e abre a porta. Uma mulher incrível: tímida e gostosa, com covinhas e cabelos um pouco anelados, indisposta a falar de si mesma, muito disposta a falar de viagens, ideias, bons filmes e boas comidas feitas em casa.

Fico empolgado a ponto de perceber que isso pode comprometer a noite. Como antídoto, tento ganhar confiança antevendo-a como a minha namorada de muito tempo, caminhando até o banheiro com uma calcinha frouxa, eu entediado na cama pensando em livros, Playstation, churrascos com amigos, outras mulheres. Não funciona. Há algo nela que me sugere ser possível conseguir vitórias inéditas nas eternas lutas contra o desgaste.

Cinema. A porra do filme lotou. Nossos lugares são próximos demais da tela. Adolescentes arremessam pipocas uns nos outros. O som está muito alto. Falta o climazinho intimista. Por que sugeri alguma coisa com Jim Carrey? Por que ela aceitou?

A porra do filme lotou. Nossos lugares são próximos demais da tela. Adolescentes arremessam pipocas uns nos outros. O som está muito alto. Por que sugeri alguma coisa com Jim Carrey?

Trailers e 15 minutos do filme se passam e nada. Mas não seria sinal de maturidade (até uma contraprova das cáries) esperar pelo jantar subsequente para daí sim beijá-la? O primeiro beijo da noite é algo supervalorizado por gente mais nova e comédias românticas. Entre os crescidos, pode ficar para depois. Só que o clima é estranho. Ela parece desconfortável.

Ao final do filme, mais de 23h, o shopping está praticamente vazio, apenas com os espectadores que saem da sessão. Na escala rolante, cogito colocar uma mão no ombro, desisto. Muito repentino. O problema não é que sou um goiaba. É justamente que não costumo ser, a partir do que enxergo a distância entre o eu daquele dia, goiabificado, e o eu de outros dias, prático. Essa consciência me deprime.

Esfihas

– Com fome?

– Na verdade não.

E tudo desaba. Não há fome e provavelmente há má vontade. Até porque ela não me dá o acréscimo “mas te acompanho”. Desesperado, despacho o bom senso.

– Posso passar no Habib’s? É que eu realmente tô morrendo de fome.

A ideia é absurda, claro. Ela não murmura mais do que “tá… tudo bem”. Finjo que não escuto. Sim, a imagem de um universitário comendo observado pela sua dentista à meia-noite num restaurante junkie-árabe bem iluminado me deprime. Vou para o drive-thru. Cinco de carne, um quibe e um frapê de cappuccino. A caixa chega fumegante.

– Você me consegue alguns limões, por favor.

A cena mais patética. No Koxixo’s, reduto dos sem-referência, epicentro dos porta-malas abertos esgoelando sons genéricos, chega o Corsa sem calotas. Nas outras entradas da Beira-Mar, com menos vida, seria mais perigoso estacionar.

O carro fede à carne e às cebolas das esfihas de carne. Os guardanapos estão empapados de óleo. Com os vidros abertos entram os sons, com os vidros fechados não sai o bodum. O interior do Corsa está sujo, com poeira, tralhas, xerox da faculdade, um pacote de Trident envelhecido. Eu tenho consciência do ridículo da situação, ela tem consciência do ridículo da situação. Imagino se não daria uma boa cena de filme um beijo assim, no caos. Um beijo repentino e acebolado. Para que ela declarasse de vez que o seu cariado paciente universitário vale mais do que muito trintão engomado por aí.

Nada acontece. O descompasso entre as minhas expectativas e a madrugada como ela é me paralisa. O carro apenas estaciona em frente ao prédio de 15 andares, ela sorri, me beija nas bochechas, vai embora. Os portões fazem “clec” e “tac”.

A vida talvez não fosse tão leve assim.


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



5 Responses to O GOIABA E A DENTISTA

  1. Marcelo says:

    Espetacular… isso me lembra muita coisa… hahahaha!!!

  2. Raphael says:

    Nossa, é mentira isso né? Nem se meu estômago estive comendo meu fígado eu faria algo tão absurdo… Esse foi o autêntico goiaba… Habib’s… Koxixo’s… Só em volta de baile de formatura, bêbado e com no mínimo uns 6 meses de namoro pra não perder a mulher…. kkkkkk

  3. Rafa says:

    assim venceram as cáries?!

  4. Eurico says:

    que merda hein….

  5. Alana says:

    Meu velho e bom Dodô… você realmente tem a manha de contar histórias.

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