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Publicado em outubro 17th, 2011 | por Thiago Momm

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PIADAS SEM RUMO

Rafinha Bastos comeria a grávida Wanessa Camargo e o seu bebê.

A piadinha, feita no CQC, cindiu a opinião pública. Estamos diante de um cretino que não merece a audiência que tem ou de um libertário que veio nos tirar desse mundo limitado que se importa com as cuecas de Justin Bieber?

Há 12 dias o Observer, jornal inglês dominical associado ao Guardian, ignorou o barulho em torno de Rafinha Bastos e publicou uma matéria concentrada no seu parceiro de CQC Danilo Gentili.

O título é forte: “Humor da stand-up no Brasil lidera revolução social contra elites poderosas”. O correspondente Tom Phillips escreve que “em um país com uma reputação pela deferência por celebridades e autoridades”, Gentili e centenas de comediantes da stand-up enchem “bares e clubes pelo Brasil com uma influência crescente de rompimento com o passado”.

O título do Observer é forte: “Humor da stand-up no Brasil lidera revolução social contra elites poderosas”

O bom senso, pelo menos, os comediantes vêm rompendo. Rafinha Bastos comentou, em uma apresentação, que a Nextel presta serviço a traficantes e por isso, não à toa, tem Fábio Assunção como garoto-propaganda.

A pena é que o comentário agride um sujeito legal. Em entrevista ao Fantástico sobre o seu uso de drogas, Assunção não ficou se martirizando e driblou bem as perguntas moralizantes de Patrícia Poeta. Esclarecido e consciente do que representa, o ator se recusa a pular de anti-exemplo a exemplo como numa sessão evangélica. E em resposta a Rafinha Bastos no Facebook, falou muito bem em risos “conquistados com tão pouco, com migalhas, por um público com a crítica ainda em formação”.

Mas descontada a pobreza de espírito da piada, não chama a atenção que um comediante bata de frente com uma marca grande? Na mesma linha, Gentili estraçalhou uma a UniABC em uma stand up sua.

Em tempos de auto-censura (nenhum heroísmo que arrisque futuros ganhos – ou seja, nenhum heroísmo) e “liberdade de empresa” (críticas à vontade – desde que não atrapalhem os negócios), não é interessante que eles façam críticas pesadas assim para casas cheias e milhões de seguidores no Twitter?

O verdadeiro cínico

O problema é que os nossos mais famosos estendapeiros muitas vezes erram o vermelho do alvo. Se estamos rompendo com o passado, estamos seguindo para alguma direção esquisita. A matéria do Observer cita a piada de Gentili de que “um presidente tem que ser esperto – e se Dilma foi pega e torturada [pela ditadura] é porque ela foi uma idiota”.

Outro dardo mal direcionado, o comentário de Rafinha Bastos sobre Wanessa Camargo e o bebê é só uma subversão adolescente. Piada porra-louca de colégio. Apenas isso, mesmo que depois Rafinha faça matérias anticorrupção.

Mais tarde, ele ironiza órfãos e o estupro de mulheres feias, ou ganha para fazer comerciais no seu Twitter.

É essa a “revolução social contra elites”? Não é só mais um ótimo piadista egocêntrico com o atenuante de fazer alguns trabalhos positivos? No geral, Rafinha Bastos é mais um liquidificador criativo da opinião média nacional do que alguém inovador – a própria grosseria de que “mulher feia deveria agradecer por ser estuprada” é apenas um eco de churrasco com algum tio bêbado. Não é velha, essa piada?

É essa a “revolução contra as elites”? No geral, Rafinha Bastos é mais um liquidificador criativo da opinião média nacional do que alguém inovador

Em email para uma repórter da Folha de S.Paulo, Bastos disse: “Chupa o meu grosso e vascularizado cacete”. É esse rebelde de ensino médio o melhor que temos para nos salvar do politicamente correto? Tudo bem que entre ele e as feministas com seus desatualizados alarmes de misoginia e machismo (a ponto de ameaçarem censurar um comercial com Gisele Bündchen) a escolha é difícil. Posso ficar com alguém mais antigo?

Um dos melhores expoentes de humor subversivo que conheço é o jornalista americano Ambrose Bierce (1842-1914?), autor de O Dicionário do Diabo. Bierce tinha o cinismo como essência, não como atitude, diz um ótimo artigo americano recente, chamando-o de “verdadeiro cínico”.

“O indivíduo que bebe é malvisto, mas as nações bebedoras são a vanguarda da civilização e do poder. Todas as nações que bebem lutam melhor, mesmo que não de maneira muito reta”, diz, na definição da palavra beber do dicionário.

Sua definição de religião: “A filha do Temor e da Esperança, explicando para a Ignorância a natureza do Desconhecido.”

Liberdade: “Um dos bens mais preciosos da imaginação.”

Humildade: “Paciência necessária para se planejar uma vingança que valha a pena.”

Homeopata: “O humorista da profissão médica.”

Crítico: “Pessoa que se vangloria de ser difícil de agradar porque ninguém quer agradá-lo.”

Conservador: “Homem público apaixonado pelos males da existência, ao contrário do liberal, que almeja trocá-los por outros.”

E assim por diante. Isso incomodaria bastante os politicamente corretos de hoje, mas não se trata da piada pela piada – há muito mais conceito por trás. São críticas com mais inteligência, mais subversão de verdade, menos a piadinha-que-você-já-ouviu-só-que-de-um-jeito-um-pouco-mais-criativo de Rafinha Bastos. Se Rafinha é a pessoa mais influente do Twitter no mundo, segundo o New York Times, resta pensar sobre as migalhas desse mundo.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



18 Responses to PIADAS SEM RUMO

  1. Nono says:

    [quote name=”Zé”]Humor é humor e ponto final! Não tem que ser ético e nem agradar ninguém. Não precisa nem mesmo ser engraçado para todos, se uma pessou achou graça (vale o próprio humorista), é humor. Se a pessoa se ofende com uma piada, ela tem toda a liberdade para trocar de canal. E digo mais, quem se sente ofendido com piadas, deveria procurar um psicólogo pra tratar sua pequena auto-estima….[/quote]

    Zé, eu comeria a sua mãe e sua irmã se elas fossem gostosas. Pena que são umas barangas!!!

    Calma lá. Não se irrite. Foi só uma piada. Se você se irritou saia dessa pagina.

  2. Patrick Versus says:

    Thiago, excelente reflexão.
    Agora convenhamos… neste nosso amado Brasil, poucos realmente conseguem entender o significado, a crítica, que permeia o seu texto. E é por isso que Rafinhas fazem sucesso…

  3. Douglas says:

    Concordo. Já havia inclusive feito uma comparação como esta do churrasco. Os caras apenas levam gracinhas ao público de bobalhões que estão doidos para rir para qualquer besteira que seja proferida.

  4. @skarnio says:

    “Humor da stand-up no Brasil lidera revolução social contra elites poderosas” sério mesmo que isso saiu no Observer?! Estes gringos ainda acham que a gente se transporta com cipó?! Não sei o que é mais patético: os debiloides que estão na TV ou a audiência deles… É inacreditável que nesse país a gente tenha que discutir “piadas” entre “celebridades”. Sempre me recusei a achar que o CQC prestava para alguma coisa, mesmo quando ainda era referido como “humor” “inteligente”. Humor inteligente precisa de grafismo e onomatopeia?!

  5. fabio says:

    é isso ai rafinha pau neles.

  6. Ace says:

    eu comeria o Feto (risos) Rafinha é herói, vamos processar a Wanessa ex Camargo pelo mau gosto musical desta criatura, o feto já vai nascer bitolado. (é brincadeirinha heim, me processa então, gargalhadas)

  7. Thiago says:

    Maurício

    Eu escrevia na Folha de S.Paulo, de onde pedi demissão. E as opiniões não estão disfarçadas, são minhas opiniões. É um texto opinativo dentro de um blog, e se isso não está bem claro que fique agora.

  8. Rodrigo says:

    É muito simples, se não gostar da piada, não ri! Normalmnte quando uma piada é sem-graça ou não agrada ela para de ser utilizada!

    Por quê quando um desses humoristas faz piada de negros, de gays, criminosos, é legal? O humor é uma forma de fugir do cotidiano!

    Se a piada foi ofensiva? Lógico que foi! Mas não era necessário tanto alarde por causa disso! Simplesmente ele foi infeliz na colocação dele, e ponto final. Não deveriamos dar ibope a uma coisa sem significância!

    Como vi hoje em uma postagem do facebook, “Brasil: País onde os políticos são levados na brincadeira e os humoristas a sério”! Pura verdade!

  9. Mauricio says:

    Texto pífio, cheio de opiniões disfarçadas. Se o Thiago Momm fosse bom, escreveria num veículo melhorzinho. A inveja é uma m….

  10. Thiago Momm says:

    Rodrigo

    Tenho que perguntar pro resto da redação, mas nunca li a Noize – pra ser extremamente honesto, folheei umas duas reportagens. Nada contra, todo mundo diz que é incrível, mas sou mais Vice, Trip e Piauí.

    O pessoal nunca acerta nesse palpite sobre as nossas inspirações, mas alguns já falaram em Void e Noize. O orgulho gaúcho não tem limites, haha. Mas de novo, nada contra: se mandarem Void e Noize aqui pra redação, juro que me inspiro alguma coisa.

  11. Rodrigo says:

    O negócio é que o Rafinha gostaria de ser Andy Kaufman, e a Naipe gostaria de ser pelo menos a Noize.

  12. Paulo Pennaforte says:

    Bem, para mim humor é uma coisa e grosseria, falta de bom senso ou de educação é outra.
    É muito simples diferenciar.
    Um casal está num evento e encontra o Rafinha. Vão lá falar com ele, dizer que gostam do seu trabalho, pedir um autógrafo.
    Aí ele vira para o marido e diz “Que mulher bonita e gostosa a tua, eu lamberia ela toda”.
    Se alguém aí disser que adoraria a cena e acharia muito engraçado, vão em frenre, apóiem o babaca.
    Mas posso apostar que em 11 de 10 casos acabaria em pancadaria…
    Da mesma forma, se alguma mulher for estuprada e gostar, vá lá e agradeça a ele pelo incentivo…

  13. Saulo says:

    Chega de hipocresia, oas pessoas preferem maquiar a verdade…vivam a realidade, eles nao mentiram, so colocaram os fatos na mesa…claramente!

    Chega de censura e babaquice….viva a verdade…seja ela moral ou nao!

  14. says:

    Humor é humor e ponto final! Não tem que ser ético e nem agradar ninguém. Não precisa nem mesmo ser engraçado para todos, se uma pessou achou graça (vale o próprio humorista), é humor. Se a pessoa se ofende com uma piada, ela tem toda a liberdade para trocar de canal. E digo mais, quem se sente ofendido com piadas, deveria procurar um psicólogo pra tratar sua pequena auto-estima. Esse negócio de fazer humor sem ofender ou ridicularizar ninguém, é coisa de gente sem o menor senso de humor. Dizer que comeria a mulher e o bebê, não teve a menor graça. Mas se gerou todo esse debate, deve ser a melhor piada sem-graça que existe. Particularmente, acho o Rafinha Bastos sem graça nenhuma. Mas só por causar essa polêmica, já virei seu fã!ninguém deve se ofender com humor e, querer sensurar é um absurdo. Que sejam contadas todas as piadas, tenham graça ou não (ninguém é obrigado a apreciar)…

  15. marcia silva says:

    Bom, eu já sou mais categórica e realista, este “comediantezinho” de merda deveria estar fazendo esse tipo de piadinhas la na cadeia, mas como fez num programa Brasileiro, então está explicado a falta de cultura artistica e a pouca experiência em sensibilidade humana. Lamentável que emissoras estejam, como ele, querendo contratá-lo, mas é exatamente assim que caminha a humanidade, tendo que repartir seus espaços, com pessoas como esse rapaz, que tinha tudo para transformar sua oportunidade em alegria e não em recalques.

  16. Thiago says:

    Moacir

    Muito bem lembrado. O texto não deu esse aparte de que o “humor de ofensa” é conectado a grandes nomes da stand up – a todos não: o Marcelo Adnet é engraçado não ofendendo pesadamente quase ninguém.

    De resto, não acho que Rafinha Bastos esteja no nível de Sienfield, Chris Rock e afins. Peguemos a piada do estupro da mulher feia: ela não me incomoda pelo politicamente incorreto (aliás, precisamos de mais vozes incômodas nesse mundo), mas porque estava em algum livro de piadas do Joãozinho de 1957. O próprio Danilo Gentili é mais elaborado que o Rafinha Bastos, que manda abraços do seu “pau de óculos” no Twitter (essas piadas a gente fazia entre a galera lá de Coqueiros quando adolescente).

    E a comparação com Ambrose Bierce é para ser estranha, mesmo. É claro que Bierce não fazia stand up. Resgatei o homem só pra dar uma referência do alcance de um humor ácido mais bem pensado. “O dicionário do diabo” vale mais do que a maioria das coisas ditas em microfones por aí.

  17. Moacir Grande says:

    Esse humor de ofensa é característico de todos os grandes comediantes. O ato de todos eles inclui ofensas diretas a todos os grupos e minorias possíveis. O Dane Cook, comediante que já foi host do Saturday Night Live tem um especial (Isolated Incident) somente com essas piadas pesadas, abordando estupro, aborto, suicídio, câncer, entre outros temas. Inclusive numa das piadas fala pra uma mãe e filha da platéia que comeria as duas. Ricky Gervais é arrogante e fala de não usar balsa pra não se misturar com gente comum. Chris Rock fala de mulheres, de ‘niggers’, de pobreza. Louis CK é auto-depreciativo como padrão. No seriado Seinfeld, todos os personagens são o anti-exemplo de comportamento. Então dizer que ‘é coisa de humorista brasileiro’ ou de ‘humorista menor’ ou que os outros tinham uma ‘mensagem intelectual por trás’ é simples e pura falta de informação.

  18. Fernanda Dutra says:

    Colegial é uma boa definição pra esse cara. Duro é que tanta polêmica só levanta o poder de barganha dele pra continuar na tevê, independente do conteúdo.

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