On the road TO ROME WITH LOVE DI WOODY ALLEN

Publicado em setembro 30th, 2012 | por Thiago Momm

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QUEM FALA MUITO

“O homem”, escreveu o jornalista americano Henry Louis Mencken (1880-1956), se referindo estritamente ao sexo masculino, “não consegue se imaginar fora do centro das situações. Nunca abre a boca a não ser para falar de si mesmo. Nunca realiza a mais trivial das atividades sem pavoneá-la e aumentar-lhe a importância. Por mais banal que seja a situação em que se encontre, tenta transformá-la na mais inédita e gloriosa possível”.

Você lê isso e se constrange. Uma vergonhosa identificação. Recapitulando os últimos acontecimentos debaixo do chuveiro, volta e meia você estabelece a meta: falar menos de si próprio por aí; quando mencionar-se, fazer isso a propósito do contexto da conversa, nunca a troco de impulsos auto-afirmativos; não jactar-se; em textos, inventar um você no lugar de eu.

Não é só para ser mais sociável que você se promete tudo isso. Também é para evitar mal-entendidos. Todo autocentrado é tido como alguém que se adora, o que não é verdade. É possível ser bastante autocrítico e se saber um quase nada diante de tantas pessoas prodigiosas e mais interessantes que existem – mas continuar se colocando como assunto. Talvez justamente por insegurança. Vide Woody Allen nos seus filmes, inclusive o último, Para Roma, com Amor. Vide o aforismo de Nietzsche: “Quem fala muito de si mesmo quer ocultar-se”.

Não sei como o leitor é para cumprir o que estabelece. Eu sou péssimo. Minhas promessas de chuveiro se vão pelo ralo com a água. Nas minhas projeções ufanistas, sou um monge com ouvidos atentos e palavras desinteressadas. Não necessariamente desapareço da conversa, mas não me importo que ela permaneça no círculo de interesse do interlocutor. Quando domino o diálogo, é com acréscimos que pouco me envolvem.

Nas minhas projeções ufanistas, sou um monge com ouvidos atentos e palavras desinteressadas. Não desapareço da conversa, mas não me importo que ela permaneça no círculo de interesse do interlocutor. No mundo real, quando falam me remexo, inquieto

No mundo real, assim que aquela muher interessante começa a falar da irmã em intercâmbio na Espanha, você se remexe, inquieto. Falastrão, precisa dizer que a Espanha é o país mais incrível do mundo. Paco de Lucia. Camarón de la Isla. Penélope Cruz. Quim Monzó. O name-dropping está todo na cabeça. Você ama mesmo aquele país. Quando encontra espanholas, quase sai dançando em volta.

Mas você deveria ficar quieto. Já usou isso em outra conversa. Não é mais inédito e se tornou um pacote pronto de autopromoção.

Por isso muitos diálogos parecem viciados. Você faz questão de atrair para o seu campo. Quase sempre prefere jogar nele. Não sabe se deixar levar. Tem o temor patético de não contar suas histórias e ser tido como banal. Não entende que quem é rico em histórias deveria saber ainda mais dosá-las. E querer ainda mais conhecer a dos outros

A autopromoção resulta em silêncio. “Um egocêntrico”, ela conclui rápido, porque as mulheres são malditamente clarividentes nessas coisas (como Emma pensa por um momento do namorado Ian no romance Um dia, “ali não havia nada senão a compulsão exibicionista”). Então você se dá conta de que está querendo aparecer demais e fica subitamente quieto. Mas o seu silêncio é tardio. Sempre que um autocentrado se mostra disposto a ouvir os outros, a farsa fica evidente. Ela já deu o veredicto.

Falo dos piores momentos. Muitas vezes, você consegue ser melhor que isso.

De qualquer maneira, a principal mensagem aqui é para os interlocutores. Nada de tolerância. Como Emma, dispare um “você poderia calar a boca?” no meio do jantar. Constrangedor, mas eficiente.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to QUEM FALA MUITO

  1. Marcelo says:

    Muito bom.
    Pra variar, né?
    Seus textos são inspiradores.
    Parabéns!!!

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