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Publicado em agosto 31st, 2012 | por Thiago Momm

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ROSTINHO

Não costuma acontecer duas vezes na mesma década. Você está em um albergue de Santiago. Os amigos dormem no quarto, você perambula pelo bar anexo à recepção.

Elas são quatro. Sem reforço, você titubeia. Senta na ponta do banco comprido, observando o futebol na TV, esgoela a long neck de Heineken apertando o nó do guardanapo, se aproxima e diz qualquer coisa.

Abordagem autorizada, papinho mole iniciado. Os amigos aparecem, outras cervejas também. Agora sim a coisa flui. Apesar de aparentemente desinteressado, você tem alvo. O rosto dela é impressionante. “A beleza é apenas uma promessa de felicidade”, alertou Stendhal. Mas qual o problema? A feiúra promete o quê?

Envergonhado, o rostinho olha para baixo, para o cachecol, a mesa de madeira. Há chance? Naquela última noite de albergue difícil, as quatro estão indo dormir, mas há troca de emails em guardanapos. Ela mora na República Tcheca? Não, no Brasil. Em São Luís? Não, Florianópolis. Do outro lado da Ilha? No mesmo bairro que você. Sete quadras.

Não só, não só. Ao desfazer a mala você percebe ter perdido o guardanapo, no que é obrigado a arquivar a beldade na pasta de dolorosos casos natimortos. Então eis que. Sim, eis que. Depois de um entediado refresh no Gmail, a nova mensagem aparece. Ela. Um convite para que você a convide para algo. Irreal. Dois dias depois lá vai você rumo ao seu sushi infalível dentro de uma marina, à beira da Lagoa da Conceição. O gerente já lhe reserva um sorriso maior de um dos lados, o canino direito à mostra, como quem aprova: “Seu cretino”.

No final da noite, a pudicícia dela desaparece um pouco no carro. Segundo encontro marcado sem esforço, ela sobe no seu apartamento. No meio de um pôquer com os amigos, você para e abre a porta. Eles se desconcentram. Pouco depois, colaboram, vão embora. Você e ela sozinhos. Acontece. No sofá da sala. A primeira vez dos casais nunca deveria ser na cama.

Um namoro começa. Pelos meses seguintes, vocês conversam sem conversar. Um esboço de comunicação. Conversas à base de tanto faz. Há pescoços, filmes, passeios de carro pelo litoral

Um namoro começa. Pelos meses seguintes, vocês conversam sem conversar. Um esboço de comunicação. Conversas à base de tanto faz. O que importam as palavras? Há pescoços, filmes, jantares prolongados, sexo, passeios de carro pelo litoral, batatinhas com refrigerante na hidromassagem do motel. Tudo diante daquele rostinho. Palavras para quê?

Até que um dia. Sim, até que um dia. Subitamente, durante um almoço, os tímpanos se abrem. Vocês se conhecem mais ou menos há uns 200 dias e pela primeira vez estão realmente se escutando. Assustador.

São completos desconhecidos. Quase antípodas. Ela, uma adepta ferrenha da vidinha. O quanto menos o cotidiano se alterar até os seus últimos dias, melhor. Você, um inquieto que deve à inquietude o melhor e o pior da vida. Até já apreciou a vidinha, usufruiu um tanto, a resgata como parâmetro muitas vezes, mas não está no seu DNA. Aderir incondicionalmente é impossível. Ler todos os livros possíveis, conhecer o máximo de países, amanhã fazer grandes coisas, como se prometia o pai do Carlos Heitor Cony – você não consegue abrir mão de projetos assim.

Ela guarda dinheiro para um apartamento. Você, cada vez que descobre ter mais de R$ 5 mil guardados, torra viajando. Ela é família. Você, um pouco, mas no almoço de domingo é sempre o mais alheio. Ela, se pudesse, um dia teria congelado aquele finalzinho do final de semana: você e o sogro dividindo uma cerveja e uma conversa de boleiros, ela e a mãe fazendo uma cuca com farofa para todos.

Um sogro gente finíssima. Figueirense, além de tudo. E ela com aquele rosto. Mas não tinha jeito. A inquietude põe a mão nos seus ombros e diz que é hora de ir. Quando chama o elevador, você sabe que não volta mais.

 

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



One Response to ROSTINHO

  1. Alessandro Espelocini says:

    Oi Thiago,
    É muito bom quando se lê um “conto” e no meio dele se começa acelerar, acelerar e acelerar a leitura…porque se quer “devorar” logo o que está escrito , saber tudo sobre o texto e é claro aquela vontade louca de descobrir o final.
    Parabéns !!!

    Alessandro

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