On the road fernando+pessoa

Publicado em outubro 5th, 2012 | por Thiago Momm

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SOSSEGO E DESASSOSSEGO

Até que ponto conseguimos abandonar nossas ambições?

Depende de você confiar mais em um filósofo alemão ou em um poeta português.

Para Nietzsche (1844-1900), abrir mão das coisas é um disfarce para o fato de se querer ainda mais. “Que faz aquele que renuncia?”, pergunta em A Gaia Ciência, livro que acaba de ganhar ótima nova edição pela Companhia de Bolso (344 p., R$ 25). “Ele aspira a um mundo mais elevado, ele quer voar mais, mais longe e mais alto que todos os homens da afirmação – ele joga fora muitas coisas que atrapalhariam o seu voo”. As outras pessoas não são esquecidas. “Ele está satisfeito com a impressão que faz em nós: quer manter oculta sua ânsia, seu orgulho, sua intenção de voar acima de nós. Sim, ele é mais sagaz do que pensamos, e não gentil para conosco, esse afirmador! Pois é isso tal como nós, também ao renunciar”.

Em suma, não conseguimos nos livrar nem das nossas ambições nem dos outros como parâmetro (aspectos que, aliás, se misturam). Podemos esconder nossas aspirações mas elas seguem lá, obstinadas. Não finja voar baixo, nós te conhecemos.

Nascido na década em que A Gaia Ciência foi publicado pela primeira vez, Fernando Pessoa (1888-1935) não negou sermos autocentrados. Embora a vida seja “uma perpétua dispersão (…), é para nós que tendemos”, escreveu no Livro do Desassossego (Companhia das Letras, 544 p., R$ 45), em passagem que citei completa aqui outro dia.

Se somos autocentrados, somos necessariamente ambiciosos?

A palavra “ambição” surge em 1572, segundo o Houaiss, como resultante principalmente de “manejo, lisonja, adulação, fausto, ostentação, elevada condição”. Os significados de hoje são forte desejo de poder ou riquezas, honras ou glórias; cobiça, cupidez” e “anseio veemente de alcançar determinado objetivo, de obter sucesso; aspiração, pretensão”.

Fernando Pessoa desejou o suficiente para ter várias profissões, aprender línguas, ser prolífico e publicado. Mas também deixou escritas palavras convincentes sobre não desejar

Fernando Pessoa estava livre disso? Ele desejou o suficiente para ter várias profissões, aprender línguas, ser prolífico e publicado. Mas também deixou escritas palavras convincentes sobre não desejar. Como poeta, estava consciente dos dois pólos. “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”, escreveu em Tabacaria, com o heterônimo Álvaro de Campos. “Sim, sei bem / Que nunca serei alguém / Sei de obra / Que nunca terei uma obra”, escreveu em versos famosos assinados pelo heterônimo Ricardo Reis.

Gosto também desta, na página 48 do Livro do Desassossego: “Estarei sossegado numa casa pequena nos arredores de qualquer coisa, fruindo um sossego onde não farei a obra que não faço agora, e buscarei, para a continuar a não ter feito, desculpas diversas daquelas que hoje me esquivo a mim. Ou estarei internado num asilo de mendicidade, feliz da derrota inteira, misturado com a ralé dos que se julgaram gênios e não foram mais que mendigos com sonhos, junto com a massa anônima dos que não tiveram poder para vencer nem renúncia larga para vencer do avesso.”

Não à toa, o antônimo de ambição, no Houaiss, é desprendimento.

Sim, pouca ambição às vezes não traz mais que pasmaceira. Ambicionar é estar inquieto mas também motivado. O porém talvez seja a uniformidade das nossas ambições. Temos desejado quase todos as mesmas coisas, muitas vezes às custas de aspirações mais próprias. Se renunciar também envolve pretensão, como diz Nietzsche, pelo menos significa uma quebra no roteiro de sempre.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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