On the road vicky_cristina_barcelona

Publicado em julho 4th, 2010 | por Thiago Momm

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TRIÂNGULO AGOURADO

Entusiasmado com o sexo, Florentino Ariza desenvolveu um mote simples: “O mundo está dividido entre os que trepam e os que não trepam”.

Os que trepavam “eram uma loja maçônica hermética, cujos sócios se reconheciam entre si no mundo inteiro, sem necessidade de um idioma comum”, devaneia Gabriel García Márquez, seguindo o que pensa o personagem de O Amor nos Tempos do Cólera.

Também entusiasmado, afiei o mote de Ariza: “Os homens estão divididos entre os que já fizeram ou não fizeram um ménage à trois com duas mulheres”. Mas eu estava entusiasmado porque jurei que passaria de um lado pro outro na minha própria classificação. E não passei. Apenas quase, muitas vezes quase: já estive até dentro de uma banheira com duas, só que nunca concluí a empreitada. Talvez somente Vanderlei Cordeiro de Lima, quando teve seu evidente ouro esfarelado pelo padre irlandês que invadiu a pista no final da maratona na Olimpíada de Atenas, viveu frustração gêmea.

Se o seu plano inclui a gata oficial, faça estudos prévios do terreno pantanoso que é verbalizar safadezas assim. Esperei a hora certa e propus, pra uma namorada de meados da década de 90, incluirmos a prima dela na nossa cama. Ela prometeu que tentaríamos. Aquele se tornou o tema recorrente dos nossos sexos. Acho que a prima dela fez mais sexo na nossa imaginação do que na vida real, até hoje. Uma noite deitamos os três em colchões espalhados num quarto. Estava dada a largada? É claro que não, minha namorada sussurrava, me arrancando alguns pêlos do braço. Mas depois fez sexo comigo ali mesmo, pra mostrar que não estava ressentida. Cochichando, pra variar, coisas sobre a prima.

Maconha

Joguei Winning Eleven, trabalhei na M.Officer e fui centenas de vezes ao Baturité, balada em Balneário. Durante esses anos, não lembro por que, a questão do ménage à trois se esfumaçou. Até que, em 2000, fiquei com quatro ao mesmo tempo na Oktoberfest. Tudo bem, se fosse num concerto da Osesp é que seria absurdo. Mas quatro, meu amigo?

Eu conhecia uma delas, e as restantes eram amigas dessa. Descobri depois, já estava tudo combinado. Fui vítima de um golpe que acontece infalivelmente, a cada dois ou três séculos, no sul do país. Hospedadas em Blumenau, elas saíram de casa determinadas a compartilhar alguém, a partir do que fui o fantoche desse descaso lúdico. Enfim, me dei bem.

Uma gritava “fecha!”, e todas me beijavam onde havia espaço. Os foliões da Oktoberfest me hostilizavam. Mas uma hora depois, uma delas beijou outro cara. Outra também, e pra evitar a continuação da pilhagem fui a um beco com a metade que me restava. Nada que lembrasse as cenas estilizadas do Sexytime: um terreno baldio com alguns sacos de lixo e um Chevette. Me apoiei no Chevette e senti uma língua em cada orelha. Duas mãos abriram o meu zíper, e a libertina Blumenau de outubro entrava indelevelmente no meu “the best of” luxurioso.

Maconha. Umas dez pessoas no começo da rua seguiam na nossa direção pra fazer do beco um festival canábico. Interrompemos tudo. Nenhum dos três (as duas também eram de Floripa) sabia onde havia um motel em Blumenau, e não tínhamos muito dinheiro, e as duas nem faziam questão de concretizar o bundalelê: já tinham perdido a curiosidade com um mazanza que dividiram, que “não deu conta”.

Bacardi

A terceira tentativa significativa foi quando virei calouro de Jornalismo. Fiquei, numa festa, com uma veterana que ganhou, por uma vantagem deselegante sobre a segunda colocada, o prêmio de mais safada do Encontro Nacional dos Estudantes de Comunicação. Uma serpentina deixava vazar chope de graça. Um coro berrava “ninguém é de ninguém”.

Fomos lá pra casa. Uma ninfomaníaca. Fazíamos planos o tempo todo sobre o ménage à trois, como um casal combinando a compra da casa. Cogitamos chamar uma profissional. Até abrimos os classificados, mas esbarramos no bom senso: como eu, ela era da crença de que uma sacanagem com profissionais é uma paródia da verdadeira safadeza. Convidei então uma atriz com quem eu saía às vezes. Não quis. Desencanada, sim, mas peralá. Até que um dia mudou de idéia: mostrei uma foto da estudante de jornalismo – sem blusa.

Por que não mostrou antes? – disse.

– Ah, convenceu a menina do teatro? Legal, mas sabe o que é? Conheci um cara. Tô apaixonada. Não vejo mais sentido em fazer essas coisas. Não dá. Nem consigo – me disse a outra.

Só voltei a querer me engalfinhar a três porque outra atriz (sempre elas) com quem saí disse que queria perder sua virgindade na sem-vergonhice tripla. Saquei do baralho uma dama devassa: 25 anos, divorciada, siliconada, virgem de pegações desse naipe, mas com um apego pelo experimentalismo que só. Numa noite resolvi colocar tudo em prática. Comprei logo uma garrafa de Bacardi Lemon e uma de Martini e várias latas de cerveja. Fomos até a Lagoa da Conceição entornando os canecos. Chovia.

O papo minguava. Até elas descobrirem um nome em comum, uma cantora tia de uma e amiga de outra.

Fomos ao barzinho em que estava essa cantora. Ouvimos o show enxugando caipirinhas e, se quem perde o telhado ganha as estrelas, eu compensaria umas botinadas amorosas que vinha levando de uma universitária. Na rodovia que leva às praias do norte e a uma série de motéis, elas se beijaram. Até conseguir um motel com bons quartos por bons preços, a divorciada secou o Bacardi. Liguei a banheira, pulei dentro. A atriz também. A divorciada foi ao banheiro.

Passou mal.

Pedi ajuda pra outra. Que não ajudou porque estava se deliciando com os jatos da hidromassagem. As duas chegaram no auge do que faziam – uma passando mal, a outra muito bem – quase ao mesmo tempo. Comigo no meio.

Apaixonado 
 
Mais tarde, já em São Paulo, conheci uma entusiasta de swing. Morava em Floripa e estudava jornalismo (sempre elas, também). Já tinha colocado em prática quase todas as variações com somas de até quatro pessoas. Um dia ficamos na minha casa esperando uma safada sair de um plantão de trabalho. Fomos trocando mensagens, tudo acertado. Pouco depois da meia-noite, no entanto, os contatos cessaram. A dissoluta sumiu do radar, e às 5 horas vi no meu celular: “Roubaram o notebook. Era da empresa. Tô fazendo B.O. Depois ligo”.

Pra piorar, semanas depois a estudante de jornalismo escandalizou uma formatura num triângulo com um cara e uma pilantra no meio da festa, tudo seguido, na casa da pequena ninfo de 21 anos, do ménage à trois, o sagrado. Traumatizado, eu já não conseguia mais nem ler sobre surubas. Sossegada a inveja, até mantive com a estudante um quase namoro.

Tínhamos todas as noites do mundo pro sexo triangular. Mas como? Indo a boates com lésbicas e curiosas? Não era má idéia, só que me descobri apaixonado.

Mas, por favor, sem finais virtuosos. O quase relacionamento se esfarinhou e hoje pergunto que estupidez me passou pela cabeça pra sossegar daquele jeito. E, ah, Florentino Ariza também nunca chegou lá. Guardou,“em uns 25 cadernos, 622 registros de amores continuados, à parte as aventuras fugazes que não mereceram uma nota de caridade que fosse”, mas nunca se ensabonetou com duas. Seu objetivo era Firmina Daza, por quem esperou mais de 50 anos. De qualquer maneira, não fez o ménage à trois. Nem mesmo viu umas lambiscadas pré-motel.

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  • Esta crônica, originalmente intitulada “Como não organizar um ménage à trois”, foi publicada originalmente na revista VIP

 


Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



7 Responses to TRIÂNGULO AGOURADO

  1. Manoella Emerick says:

    Esse comment é pro texto das viagens nórdicas, mas lá não consegui publicar! Vai aqui:

    “Que engraçado ler esse texto uma semana antes de sair para a minha viagem de despedida dos vinte anos. Minha viagem de 29 anos e 11 meses, sozinha, pela Europa, e também um albergue-barco pela frente (em Berlim, e no verão, é verdade).
    Algumas coisas em comum, mas no entanto não odeio ninguém por deixá-lo. Poderia reescrever o texto, e na minha versão odiaria esse alguém por ainda não tê-lo conhecido, por ainda não amar, e não sofrer por deixá-lo.
    Gostei do texto, parabéns.
    Beijo, Manoella”

    http://www.despedidadosvinte.wordpress.com

  2. ricardo says:

    o mais azarado de todos… poderia ter sido “o cara”, mas conseguiu ser “o bunda mole”!

  3. Filipe says:

    Muita boa essa narrativa, sobre um assunto muito “polêmico” no mundo do sexo. Para que funcione esse prazer, o casal ou os envolvidos, tem que deixar rolar e a confiança também é o ponto cruscial do assunto. “Parabénszo” pelo texto!!!.

  4. Mariana says:

    Excelente narrativa. Ménages envolvem muitos riscos, e em termos afetivos, tem-se dois extremos: ou não há nenhum vínculo; ou confia-se totalmente. É a adrenalina e o prazer, juntos lado a lado.

  5. Tiago Rodrigues says:

    Muito boa a crônica!
    Sucesso a todos da Naipe!

  6. Geronimo W. MACHADO says:

    Curiosidades à pate, a coisa pode parecer até divertida!

  7. Geronimo W. MACHADO says:

    Achei muito legal a existência e a contribuição fotográfica e intelectual da NAIPE.

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