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Publicado em março 30th, 2011 | por Thiago Momm

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UM LIVRO PELA CAPA

Referência mundial em conteúdo visual e multimídia, a agência Getty Images divulgou, semana passada, o resultado do concurso Melhor capa de livro 2010.

Os vencedores foram os designers Claudia Warrak e Raul Loureira com a capa de Uma certa paz, da Companhia das Letras. É a segunda edição do concurso no Brasil. Você pode ver as 15 capas finalistas e as vencedoras clicando aqui.

Não acho tão frívolo o crescente investimento na estética dos livros. Na verdade, tenho sentimentos bastante misturados quanto a isso. Me desculpem os nostálgicos, mas é preciso admitir a utilidade dos novos espaçamentos e fontes. Tenho a coleção vermelha de romances Os imortais da literatura universal, publicada pela Abril no final dos anos 60. A letra seis e as palavras coladas de Decameron fazem da leitura de 15 páginas um ironman literário.

Os mais velhos criaram um forte vínculo com essa coleção. Algo como, imagino, um reencontro da minha geração com o CD duplo Vamo batê lata, do Paralamas, numa estante em 2048. Mas sem esse apego às velhas edições, que aliás tem acento em palavras como “êle” e traduções problemáticas, deixo parados muitos títulos. Até que cai na minha mão aquele Dostoiévski lindão recente da Editora 34.

Por outro lado, pelo preço do livro no Brasil é difícil não se incomodar um pouco com tanta pirotecnia visual. Claro, não é dos designers a culpa pelos altos preços finais. O trabalhos deles acrescenta muito mais qualidade do que custo. Uma edição de R$ 12,90 de O estrangeiro, de Albert Camus, foi finalista do Getty Images. A capa é espetacular pelo que contém, não pelo acabamento. Aliás, vale perder um tempo viajando no conceito das imagens. Obviamente, o concurso valoriza muito mais que a estética. É o caso de tranquilamente julgar um livro pela capa. A de Uma certa paz, de Amós Oz, com uma pedra sombreada e outra não, está entre as mais geniais [palpite feliz antes do resultado].

Sim, é o acabamento que encarece o livro. Somos mais preocupados com isso do que nos EUA e na Europa, clara afetação consumista nossa. Lá fora sobram edições com capas moles e aquele papel acinzentado que lembra bastante o dos banheiros de rodoviárias – cabendo ao leitor entender que isso não tem a ver com o mérito da história impressa. Resultado, no que um brasileiro paga R$ 40 por um romance grosso do García Márquez, um gringo desembolsa metade.

Mas essa mentalidade está mudando. Podemos comemorar a proliferação dos pockets. Para a versão imponente de O vermelho e o negro da editora Cosac Naify (R$ 79), há duas de bolso (R$ 20 e R$ 24). A Companhia das Letras criou a Companhia de Bolso, já com 150 livros; a Record criou a Bestbolso, hoje com 183. A boa e velha L&PM está passando de mil títulos. A Martin Claret há alguns anos colocou nas gôndolas clássicos em versão pocket, mas com layouts que nos levam de volta ao começo do texto.

Que me perdoem os capistas da Martin Claret, mas os livros são medonhos. O mercador de Veneza, de Shakespeare? Capa esotérica. Contos escolhidos, Machado de Assis? Capa esotérica. Tudo com uns ares meio 1960, caindo muito bem entre incensos e almofadas coloridas. De vez em quando, os personagens desenhados nas capas remetem a Jesus Cristo em algum vitral de igreja da Europa Oriental.

Incompreensível. Não à toa, nas livrarias as gôndolas das concorrentes alvoroçam muito mais os clientes, e nenhuma capa da Martin Claret esteve entre as 15 finalistas do Getty Images.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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