On the road paris_agora_vai

Publicado em junho 21st, 2010 | por Thiago Momm

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UMA BOLHA EM PARIS

Um problema clássico: ela é da night e gosta de ficar aparecendo por aí; você frequenta mais a locadora que a balada e se sente traduzido por uma frase de Machado de Assis: “Não há alegria pública que valha uma boa alegria particular.”

Uma grande chance de comprovar essa frase: seu amigo parisiense foi viajar e te emprestou o apartamento novo; uma brasileira que você beijou no metrô de Paris aceita o convite para passar três dias com você no apartamento.

Aconteceu comigo. Um apartamento e uma boa companhia em Paris. Eu tinha três dias até voar de volta para o Brasil – 72 horas de uma boa alegria particular pela frente.

Minha ideia era quase não sair. Por vários motivos. No final de uma viagem mochileira de 80 dias, precisava descansar. Não aguentava mais passar frio, e a temperatura em Paris estava abaixo de zero. Já conhecia bem a cidade, e minha convidada, que mora lá, mais ainda. Sobretudo, me motivei a partir de uma crônica do Rubem Braga, Os amantes. Um casal passa mais de uma semana sem sair do apartamento. Diz um trecho:

“O mundo ia pouco a pouco desistindo de nós, o telefone batia menos e a campainha da porta quase nunca. Agora a vida era nós dois, e o milagre se repetia tão quieto e perfeito como se fosse ser assim eternamente. [Mas] sabíamos estar condenados; os inimigos, os outros, o resto da população do mundo nos esperava para lançar seus olhares, dizer suas coisas, ferir com sua maldade ou sua tristeza o nosso mundo, nosso pequeno mundo trêmulo de felicidade, sonâmbulo, irreal, fechado, e tão louco e tão bobo e tão bom como nunca mais, nunca mais haverá.”

O nosso apartamento irreal, bobo, louco era uma bolha que nos protegia da neve, do vento, da maldade lá fora. Tínhamos um laptop com 8500 músicas, calefação, um chuveiro muito quente e, como Braga, toalhas macias e limpas.

Anos incríveis

A primeira noite foi sensacional. Parecia que nos conhecíamos há anos. De manhã fui comprar mantimentos e servi um pequeno banquete para ela. Depois brincamos de gastar nosso francês mais ou menos, almoçamos e assistimos ao seriado Anos incríveis no laptop. Pra quem não conhece, é um velho seriado sobre a alegria de crescer no tranquilo subúrbio americano nos anos 70. Como Kevin Arnold, o protagonista, senti um misto de felicidade e efusão.

Nuvens do passado se dissiparam. A vida parecia uma coisa evidentemente boa para os espertos em aproveitá-la. Eu já havia perdido a conta de quantas horas estávamos ali. O apartamento mal tinha 40m², mas poderia ter metade que não faria a mínima diferença.

E no meio da tarde ela quis sair. Não nos faltava nada. Tudo parecia incrivelmente espontâneo, fluente. Ela apenas não acreditava na supremacia das alegrias caseiras e quis sair para ver e ser vista. Fomos a uma exposição de Renoir e depois ao cinema, assistir Avatar.

De lá fomos jantar com parentes dela e cair na noite. Ficamos mal-humorados um com o outro. Quando abrimos a porta do apartamento, o lugar não era o mesmo. Dali até a hora em que ela me deixou no aeroporto fomos um casal qualquer.

A bolha tinha estourado.

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Sobre o Autor

Jornalista encarnado em literatura, viagens e história, é editor da Naipe, deixou porque quis a reportagem de turismo da Folha de S.Paulo e agora contrai dívidas para viajar. Um dos seus idealismos é emprestar livros do Henry Miller.



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